Quarta-feira, 19 de Março, realiza-se em Berlim mais uma reunião do Quarteto da Normandia para a Ucrânia, que reúne Angela Merkel, chanceler alemã, Vladimir Putin, François Hollande e Petro Poroshenko, respectivamente presidentes da Rússia, França e Ucrânia.

O encontro teve para não se realizar devido às tensas relações entre a França e a Alemanha, por um lado, e Moscovo por outro. Paris e Berlim estão indignados com os bombardeamentos da aviação russa em Alepo. Porém, após grandes esforços, foi possível marcar a reunião para amanhã, embora não se espere grandes resultados positivos. É necessário no mínimo, travar o reinício dos combates em massa no Leste da Ucrânia.

O Acordo de Minsk 2 falhou, como fracassou o 1, e isto por várias razões.

A primeira é que a Rússia, ou melhor, Vladimir Putin, diz uma coisa, mas faz outra. Ele considera que o seu país não é parte do conflito e, em 2014, declarava aos jornalistas: “Elas [autoridades ucranianas] mentem, não estiveram, nem estão no Leste da Ucrânia forças armadas e instrutores russos”.

Porém, a 12 de Outubro de 2016, Putin mudou de discurso pois torna-se cada vez mais difícil enganar a opinião pública internacional: “Então [em 2014], fomos obrigados, quero sublinhar uma vez mais, fomos obrigados a defender a população russófona no Donbass, fomos obrigados a reagir ao desejo das pessoas que vivem na Crimeia de regressarem à Federação da Rússia”.

Vir dizer, depois de declarações destas, que a Rússia não é parte do conflito, é o mesmo que afirmar que os crocodilos ou as vacas voam.

Outro exemplo, o jornal oficial do governo russo Rossiskaya Gazeta, publica uma reportagem sobre a abertura de uma fábrica ucraniana na região russa de Rostov no Don. A maquinaria, dezenas de máquinas, foi transferida de uma fábrica de Lugansk, uma das repúblicas separatistas no Leste da Ucrânia, para território russo. Não explicará isso a grande quantidade de camiões com “ajuda humanitária” que foram enviados por Putin para o Leste da Ucrânia? Moscovo comporta-se aí como dono e senhor e os separatistas só fazem o que o Kremlin manda. Se fosse vontade de Vladimir Putin terminar o conflito, ele nem sequer teria começado.

Por conseguinte, Berlim e Paris pressionam Putin porque é este que tem a chave da solução do conflito, pois não só pode “exercer pressão” sobre os separatistas, como controla-os completamente. O resto não passa de propaganda barata.

Claro que também muito depende dos dirigentes da Ucrânia, mas o problema é que Kiev não acredita na política dupla que Putin vem realizando no leste daquele país: afirma não querer a união da Ucrânia, mas, na prática, continua a incentivar o separatismo e a desestabilização do país vizinho.

Alguns dirigentes da União Europeia querem obrigar a Ucrânia a aceitar a federalização do seu território, exigência feita também por Moscovo, mas não compreendem que as autoridades ucranianas não aceitarão isso, porque simplesmente será o fim do Estado ucraniano. Claro que é urgente o aumento da autonomia local, mas os separatistas vêm na federalização uma via para a independência. Não duvido que o Governo de Kiev estará disposto a aceitar uma “federalização” como na Rússia, onde todo o poder está concentrado não num governo sequer, mas num homem, e todos nós sabemos o seu nome.

O Presidente Putin quer dar aos separatistas do Leste da Ucrânia aquilo que recusou aos chechenos com o emprego das armas e a morte de centenas de milhares de civis. Além do mais, quer mandar na Ucrânia e no espaço pós-soviético como nada tivesse acontecido após o fim da URSS.

Os dirigentes de Kiev podem fazer mais para resolver o problema? Claro que sim, mas precisam de garantias de que Moscovo cumpra os seus compromissos. Por exemplo, porque é que a fronteira russo-ucraniana continua aberta na zona do conflito?

Além disso, os dirigentes ucranianos devem transformar a Ucrânia num país onde todos os seus cidadãos queiram viver, onde exista estabilidade económica, social e política, onde a corrupção deixe de corroer tudo e todos.

Como não se pode esperar mudanças substanciais na política externa russa, duvido que o encontro de Berlim termine com resultados positivos. Já será bom se o conflito for mantido “congelado”.