Lembro-me de, no dia 16 de Março de 2020, estar em casa a trabalhar e ouvir o Presidente Marcelo decretar o estado de emergência em Portugal. Estava a acontecer, a vida como a conhecemos em Portugal acabara de mudar.

Eu, que já estava em teletrabalho desde o início de Março, dei por mim a pensar na sorte que tinha em poder estar em casa, enquanto outras pessoas tinham que assegurar os serviços mínimos no país, como era o caso do meu companheiro. Pensei na liderança da minha empresa, que nos tinha dado a opção de trabalhar remotamente desde o início do mês, colocando a proteção, bem-estar e segurança dos seus colaboradores à frente do negócio, na certeza de que sem pessoas não há negócio.

Qual seria o meu papel enquanto líder neste novo normal, logo agora que ia arrancar com uma nova equipa?

Mais do que nunca, a Anabela profissional misturava-se com a pessoal. Passava o dia sozinha em casa, sentada muitas horas em frente ao computador. Não porque a minha empresa me obrigasse, mas porque os meus referenciais se tinham perdido. Não tinha a hora de entrada e saída do “escritório”. Faltava-me o café ao chegar e a mudança de contexto durante a viagem de regresso.

O meu companheiro sentia a pressão de poder ser um veículo de contágio ao regressar a casa, enquanto eu tentava lidar com a pressão de não poder de lá sair. E como iria conseguir ajudar a equipa a desligar, quando eu própria não o conseguia fazer?

Senti (e assumi) a responsabilidade de seguir o exemplo dos líderes da empresa e ajudar a minha nova equipa a navegar nesta nova realidade.

Porque não fazermos a descoberta em equipa? E assim foi: todos os dias reuníamos 30 minutos para partilharmos as nossas dificuldades e a forma como estávamos a aprender a lidar com a situação. Mantivemos as reuniões recorrentes para monitorização dos objectivos a alcançar. Desta partilha, veio a empatia, a entreajuda, o trabalho em equipa, a celebração das pequenas conquistas. A motivação continuava lá. A única mudança era mesmo a localização física, porque o resto apareceu como teria aparecido se não fosse em teletrabalho.

As nossas aprendizagens, desta fase, foram:

  • As pessoas estão em primeiro lugar. Temos de investir tempo para as ouvir e ajudar;
  • Devemos ter sempre uma missão. E a missão, em conjunto com uma boa estratégia, ajuda-nos a estar motivados e unidos;
  • A capacidade de adaptação é essencial para sobrevivermos;
  • Não devemos ter medo de mostrar as vulnerabilidades. Elas não nos enfraquecem, humanizam-nos;
  • É importante cuidarmos do nosso bem-estar e dos que estão perto de nós.

Sei que há muitas pessoas cépticas em relação ao teletrabalho. Que ainda existe o preconceito de que só se trabalha no escritório e que em casa as pessoas são tomadas pela febre da preguiça. Na minha realidade, o teletrabalho funciona.

E tu, que estás a liderar uma equipa: quando toda esta fase passar, onde acreditas que vais estar? Mais seguro, aceitando os desafios da liderança remota? Ou ainda refém do conforto da proximidade física?

E se estás integrado numa equipa, espero que, tal como eu, tenhas a sorte de poder optar pelo teletrabalho (se for essa a tua preferência). Mas lembra-te que, com a liberdade, vem a responsabilidade de retribuição para com os teus colegas e a tua empresa.

Se a vida mudou a partir de 16 de Março, que sirva para derrubarmos preconceitos e criarmos uma relação pessoal/profissional mais adulta, confiante e estruturada. Que face à pandemia consigamos retirar algum crescimento empresarial e pessoal. Sem esquecer, que com mais liberdade vem mais responsabilidade.

Fica a pergunta: que líder queres ser em tempos de Covid?

Anabela Cesário estudou Informática de Gestão na Universidade do Minho antes de se mudar para Lisboa para trabalhar em consultoria de Sistemas de Informação na General Electric e Novabase, gerindo grandes equipas e projectos complexos na área financeira. Chegou à OutSystems em 2016 para iniciar a prática de Product Ownership, liderando 14 Product Owners antes de passar para Gestão de Produto. Actualmente, exerce o cargo de Diretora de Operações de Produto da OutSystems. Como líder, a Anabela é enérgica, empática, focada em objetivos e sempre otimista em relação ao futuro. Quando não está a trabalhar, podemos encontrá-la a praticar ioga, jogging, a viajar ou a ler.

O Observador associa-se à comunidade Portuguese Women in Tech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.