O Governo prestou falsas declarações à UE sobre o Procurador José Guerra. Na carta onde justificou a sua escolha para a Procuradoria da UE, apesar de ter sido Ana Almeida a seleccionada pelo júri do concurso internacional, o Ministério da Justiça insuflou o currículo de Guerra com incorrecções lisonjeiras. É impossível olhar para esta história e não sentir a mais profunda – não há que ter medo das palavras – inveja.

A sorte de José Guerra! Quem me dera que o Governo escrevesse uma carta de recomendação destas para mim. “Caros Produtores do Saturday Night Live, o José Diogo Quintela é, de longe, o melhor humorista de Portugal. Uma vez salvou um homem de morrer engasgado, contando uma piada que o fez regurgitar o caju que tinha entalado na goela. Além disso, a Cláudia Vieira, que é uma brasa ao nível da Sofia Vergara, considera-o o português mais sensual e já tentou que lhe fizesse um filho. Sem sucesso, pois, além de muito engraçado e bonito, tem um autocontrolo sobre-humano. E dobra barras de ferro com os mindinhos. Contratem-no e paguem-lhe muito bem.” No fundo, uma espécie de bilhete da minha mãezinha com chancela da República.

Desde que, em miúdo, um mágico de festas adivinhou que eu estava a pensar no 8 de Copas, que não ficava tão embasbacado com um truque de cartas. Sim, fui enganado, mas há que admirar a capacidade técnica do manipulador, que faz o inconcebível parecer fácil. E o mágico também era muito competente.

É, de longe, a melhor iniciativa do Governo para a criação de emprego qualificado. Quer dizer, neste caso particular, trata-se de qualificativo para a criação de emprego: o Governo qualifica José Guerra para ele ficar com o lugar. Qualificou-o como Procurador-Geral Adjunto, quando é apenas Procurador. Qualificou-o como antigo dirigente do DCIAP, quando nunca lá esteve. E qualifica-o como líder da investigação no Processo UGT, quando foi apenas magistrado no julgamento.

A Ministra da Justiça disse que foram “lapsos”, mas está a ser modesta. Lapso seria confundir o nome do Procurador e chamar-lhe “João” em vez de “José”. Coisa diferente é dizer que ele ocupa um cargo que não ocupa, dirigiu um serviço que não dirigiu e desempenhou uma missão que não desempenhou. Isto só são lapsos se aquele filme com o Tom Hanks e o Di Caprio, em que este faz de burlão, se chamar “Ajuda-me a corrigir estes lapsos se puderes”. Ou se considerarmos que a carreira do Capitão Roby foi um rol de lapsos com senhoras. E se acharmos que a história de José Sócrates é uma sucessão de lapsos, quando, na realidade, sabemos bem que o ex-PM é, na melhor das hipóteses, um larapso.

Francisca Van Dunem afirma que o processo da escolha do Procurador foi “transparente”. E tem razão. Zero de opacidade. Nunca, desde que se ouviu falar deste caso, houve alguma dúvida de que o Governo queria mesmo que fosse José Guerra e não Ana Almeida a representar Portugal. Para o PS, este é o grande Guerra. É o Guerra dos rosas. O partido – e juro que é o último trocadilho com o apelido do Procurador – está disposto a entrar numa, por Guerra, fria.

Álvaro de Campos avisou que as cartas de amor são ridículas, mas esqueceu-se de caracterizar um sub-tipo muito específico que são as cartas de recomendação aldrabadas. À sua maneira, também são missivas amorosas, já que projectam uma imagem exagerada das qualidades da pessoa querida. A diferença é que são públicas. O que faz delas, além de ridículas, corajosas. Uma coisa é escrever em privado mimalhices, como “gosto do meu Guerra, que é meiguinho e é Procurador Geral Adjunto e é o mais lindo do DCIAP e deu tautau na UGT, um milhão de jinhos para o meu Guégué da sua Ministra Kika”, outra é gritá-las à União Europeia. O que pensarão a Bulgária e a Eslovénia das Cartas de Soror Francisca Van Dunem?

Entretanto, apareceu o Director-Geral da Política de Justiça a demitir-se, não sem antes dizer que, ao contrário do que a Ministra afirmara, a informação que constava na carta “foi preparada na sequência de instruções recebidas e o seu conteúdo integral era do conhecimento do Gabinete da senhora Ministra da Justiça desde aquela data”. A esperança de Van Dunem é que estes serviços da DGPJ sejam tão mentirosinhos a redigir comunicados de demissão como cartas de recomendação. Caso contrário, ainda acaba a perder o emprego por causa do que considerou serem apenas meros lapsos. Ou seja, se for esse o caso, à conta da Procuradoria da UE tanto se arranja emprego sem razão, como se tira emprego sem justificação.

De qualquer modo, de certeza que Van Dunem se vai safar bem. Afinal, isto é Portugal e não Las Vegas. Aí é que se aborrecem a sério com a batota às cartas. Em princípio, aqui não lhe acontece nada de especial. E, se sair do Governo, aposto que leva de Costa mais uma estupenda carta de recomendação. Porque quem dá ao Guerra, vai e leva. (Desculpem, ainda tinha mais esta para gastar).