Ora, então, vamos lá a saber: quem é que está surpreendido com os resultados das audições parlamentares aos grandes devedores do Novo Banco? Hum? Nada? Ninguém? Silêncio total e absoluto, verdade? Pois é. E atenção, mesmo apesar desta crónica ter um formato pouco susceptível de interactividade, trata-se de um silêncio bem significativo. Porque o facto é que esta comissão de inquérito não está a trazer, rigorosamente, novidade nenhuma. Aliás, estas sessões têm servido apenas para confirmar aquilo que já sabíamos. Se o ditado popular garante que “Quem não deve não teme”, já estas audições parlamentares, que buscam deslindar casos de dívidas idênticas às de uma pequena nação africana, vêm provar que quem deve deve temer imenso o Alzheimer, uma vez que nenhum dos grandes devedores se recorda, com exactidão, como é que se tornou o altaneiro proprietário destes soberbos calotes.

A audição a Luís Filipe Vieira teve como ponto alto o momento em que o presidente do Benfica mencionou o acordo de venda do Novo Banco ao fundo Lone Star, dando aso ao seguinte bate-boca com a deputada do Bloco de Esquerda, Mariana Mortágua:

Luís Filipe Vieira: Devia ser enforcado, uma pessoa que fez uma coisa destas.

Mariana Mortágua: Alto. Sr. Luís Filipe Vieira, quer com isso dizer que advoga a pena de morte?

Luís Filipe Vieira: Apenas no caso, muito específico, de quem assinou este acordo de venda do Novo Banco à Lone Star.

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Mariana Mortágua: Sr. Presidente da Comissão, exijo uma imediata suspensão dos trabalhos, por claro acto de propaganda política. Esta apologia da pena capital é uma tentativa desavergonhada de promover o programa eleitoral do Chega.

Luís Filipe Vieira: Peço desculpa, Sra. Deputada. Expressei-me de forma infeliz. O que eu queria dizer era: “Ó meu rico Santo António, ó meu Santo Popular, leva lá quem assinou o acordo de venda do Novo Banco à Lone Star para ao pé do Salazar.” Assim é que era.

Mariana Mortágua: Ah, bom! Nesse caso, eu é que peço imensa desculpa, Sr. Presidente. Percebi mal o que tinha dito. Por favor continue. E esteja à vontade para desejar o falecimento de outros indivíduos que eu também não aprecie.

E prosseguiu a reunião, num tom já muito mais descontraído.

Na senda destas audições destinadas a escolher qual dos grandes devedores do Novo Banco é mais credível no papel de vítima de amnésia selectiva, será em breve escutado Nuno Vasconcellos. O dono da Ongoing não estará, no entanto, presente pessoalmente na audição e prestará declarações por videoconferência. Fontes próximas do empresário garantem que ele está já a reunir toda a documentação necessária para responder, na íntegra, às questões dos deputados. Não. Estava a brincar. Nuno Vasconcellos estará, isso sim, a decidir que filtro vai utilizar quando for para aparecer na reunião, via Zoom: se o do gatinho bebé, como fez inadvertidamente, há uns meses, aquele advogado do Texas, se o do urso panda. E percebe-se a hesitação. Se, por um lado, o tareco é mesmo muito, mas muito fofo, por outro, o urso panda poderá garantir a compreensão e simpatia dos deputados, ao jogar a típica cartada do perigo de extinção. A propósito. Desde que sou gente que ouço falar do perigo de extinção do urso panda. Eh pá, se ao fim deste tempo todo os ursos panda ainda não perceberam que têm de começar a procriar a um ritmo decente, acho que é altura de nos questionarmos se o bicho merece um lugar na criação.

Quem eu tenho imensa pena que não possa estar presente nesta comissão de inquérito aos grande devedores do Novo Banco, em particular quando o ambiente azeda, é o Secretário de Estado da Energia, João Galamba. Desde logo, porque estamos a falar de ambiente e trata-se de um Secretário de Estado na área do Ambiente. Depois, porque Galamba é o indivíduo a chamar sempre que se deseja ver um ambiente já muito azedo transformar-se num ambiente ainda extremamente mais azedo. Desta feita, o azedume de Galamba deu-lhe para, durante uma refrega no Twitter, apodar o programa de informação da RTP, “Sexta às 9”, de “estrume” e “coisa asquerosa”. De facto, não é à toa que Galamba é o homem do hidrogénio verde. Basta ver como, amiúde, ele explode, qual hidrogénio, a ponto de ficar como o raivoso super-herói Hulk, verde.