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Um português desprevenido que, por estes dias, cometa a terrível imprudência de ligar uma televisão e ouvir os comentadores respeitáveis que ocupam os canais de notícias, é imediatamente fulminado com uma verdade que não admite contestação. Segundo parece, o limite foi alcançado com a perseguição infame a Mário Centeno pelo inocente facto de ter pedinchado lugares no estádio da Luz a um futuro arguido da Operação Lex. Depois disso, a classe política chegou à angustiante conclusão de que está sitiada por hordas populistas que pretendem transformar ministros e deputados em seres humanos bacteriologicamente puros (ou, se quisermos mostrar erudição, como Sérgio Sousa Pinto, numa “classe sacerdotal de vestais”). Pelos vistos, se continuarmos neste perigoso caminho, muito em breve os homens bons, como José Sócrates, deixarão de estar dispostos a sacrificar as suas confortáveis vidas para servir o bem comum de forma abnegada.

Realmente, há coisas que não se admitem numa democracia que pretenda atrair os seus melhores à causa pública. Por exemplo: cabe na cabeça de alguém que um político seja manchete de jornal por preferir o táxi ao autocarro ou que um deputado da província tenha de viver num apartamento de 18 metros quadrados quando precisa de ir à capital? Não, esqueçam, erro meu: isso passa-se na Suécia. Em Portugal, pelo contrário, abundam os carros de serviço nos gabinetes e o parlamento paga subsídios de deslocação de mil euros a deputadas que declaram ter casa em Guimarães mas na realidade vivem em Lisboa.

Outro exemplo: acham aceitável (a sério, ponham a mão na consciência e digam-me se acham aceitável) que um membro do governo apresente a demissão pelo simples facto de se ter atrasado uns minutos a chegar ao Parlamento, onde deveria responder à pergunta de uma deputada? Não, desculpem, voltei a enganar-me: isso passou-se no Reino Unido. Em Portugal, pelo contrário, o atual ministro da Educação tinha, há um ano, 1357 perguntas e requerimentos por responder aos deputados e não parecia especialmente angustiado por isso.

Era possível ficar o resto do dia nisto. Quando tiramos os olhos do nosso pequenino umbigo e tentamos ver o que se passa em democracias invejáveis, percebemos rapidamente que, em Portugal, escrutinamos muito pouco a nossa classe política, somos pouco exigentes e temos poucas regras de transparência. Lendo os jornais e vendo as televisões nas últimas semanas, parece o contrário — mas isso é apenas porque a reação de ministros, deputados e respectiva intelligentsia é sempre grande quando se pede uma vida pública mais respirável.

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Há uns anos, a melhor forma de abater uma ideia de que não se gostava era gritar contra o “fascismo”. Defender a abertura da economia a privados era “fascismo”. Querer acabar com o monopólio público da informação era “fascismo”. Vestir fato e gravata era “fascismo”. Comer no McDonald’s era “fascismo”. Hoje, o “populismo” é o novo “fascismo”. Quem critica um ministro das Finanças que não consegue cumprir o seu mandato sem ver 22 sujeitos a correrem atrás de uma bola só pode ser um terrível “populista”, adepto de Trump e inimigo declarado da democracia representativa.

Se o governo do PS aprova um código de conduta que proíbe a aceitação de presentes que valham mais de 150 euros, e se um dos seus membros pede convites para o futebol que manifestamente valem mais de 150 euros, talvez não mereça ter o Ministério Público no gabinete (talvez) — mas, decididamente, também não merece ser louvado como um símbolo de como um político deve cumprir as suas obrigações. Porque, por mais voltas que se dê, não é.

P.S.: Paulo Portas desmentiu uma notícia de um site angolano segundo a qual estaria a intermediar a compra da Cofina (dona do Correio da Manhã) por elementos próximos de José Eduardo dos Santos. Esperemos que esteja a falar a sério. Seria uma triste desilusão perceber que o antigo e indómito jornalista Paulo Portas estava a ser cúmplice de uma operação de silenciamento de um grupo de comunicação social português.