7h30. Segunda-feira. Ao som do meu suave alarme, acordo. Por instantes, fecho novamente os olhos, não me ofereço resistência, deixo-me ficar deitado. 7h40. Propositadamente suave, o meu alarme toca mais uma vez. Estendido, de barriga para baixo, ergo o meu braço direito em direção ao telemóvel. Desligo o alarme, temporariamente. Sonho mais um bocado. 7h50. Toca outra vez. Já? Pergunto-me desiludido. Já! – resposta que obtenho quando confronto o ecrã do telemóvel com um olhar frustrado e sonolento. Ou me levanto agora ou assumo que vou chegar atrasado, penso. Não! Pensando melhor, chegar atrasado não é uma hipótese. Levanto-me.

Tic Tac. Vou para o banho. Tic Tac. Visto-me. Tic Tac. Engulo o pequeno-almoço. Tic Tac. Lavo os dentes. Tic Tac. Saio disparado. Tic Tac. Volto atrás (esqueci-me das chaves do carro). Tic Tac. Entro no carro. Tic Tac. Prego a fundo. Tic Tac. Buzinadela. Tic Tac. Chego ao escritório. Tic Tac. “Bom dia.”

São 8h50 quando me sento junto à, que não é minha, secretária – a que, por costume instituído, sinaliza o meu lugar. Inspiro. Expiro. Suspiro. Descomprimo de toda a correria, antes de iniciar outra. Ainda é cedo, mas a manhã já vai longa. E o fim do dia ainda é só uma miragem.

Ligo o computador, e uma chuva de e-mails inunda o visor: «Bom dia, preciso daquele relatório hoje»; «Já enviaste o memo ao cliente»; «Hoje precisamos de enviar o portfólio»; «URGENTE. A Filipa quer reunir às 13h. Prepara bem a reunião. Falamos às 12»; «O Dr. Manuel quer ver as tabelas hoje».

Respondo. Envio. Preparo. Tudo, sem me queixar. Afinal de contas, é o meu trabalho. Afinal de contas, faço aquilo que gosto. E aquilo que muitos gostam que eu goste. E aquilo que muitos gostam que eu faça. Ainda assim, faço aquilo que gosto. Talvez, não da maneira que gosto. Mas isso é outra conversa, digo-o vezes sem conta para mim, relativizando.

Chegam as 13h. Hora de almoço. Saio do escritório. Espaireço um bocado. Olho em frente: multidões nas ruas. Pessoas agitadas. Pessoas apressadas, que entre si competem, por uma mesa num restaurante. Pessoas ansiosas. Carregadas de stress. A quem a ideia de ficar numa fila de espera por si só atormenta. Numa fila de espera malvada que, invariavelmente, colide com a call das 14h. Tic Tac. Nunca mais. Tic Tac. Finalmente. Tic Tac. Despacha-te a almoçar.

Entro. Está escolhido o restaurante: suficientemente afastado do escritório, com boa comida e em conta, que não ganho uma fortuna. O ideal para desligar uns minutos do trabalho. E do frenesim que lhe é inerente. Almoço. Acompanhado. Pela minha solidão. A solidão que pondera e reflete. A solidão de que incessantemente preciso em dias mais agitados. Em muitos dias da semana. Em muitos dias úteis, especialmente. A solidão que me faz recordar os tempos de confinamento.

Faço o pedido. Uma sopa. Um bitoque com arroz. Uma coca-cola. E qualquer coisa de fruta no fim. Engulo o almoço. Peço o café, mas não a conta, ainda. Pego no telemóvel, faço scroll em várias notícias enquanto vou bebendo lentamente o café, tentando prolongar um dos raros momentos zen do meu dia. Não sou esquisito, nem exigente. Não que me orgulhe. Limito-me a ler as primeiras notícias que aparecem: as sensacionalistas; as que são uma perda de tempo; as que valem a pena. É o que for.

Finalmente. Peço a conta. Ela chega. Pago. Ao fundo do corredor vislumbro a porta. A da saída. Mas não me retiro imediatamente. Penso com os meus botões, que são parte integrante da minha solidão. E, simultaneamente, penso com o meu relógio: demorei dez minutos a almoçar e seis a beber café descontraidamente. Ainda não é hora. Hoje não tenho call às 14h. Estou bem de espírito. Estou bem de tempo. Atrás de mim, contudo, ouço um burburinho. Levanto a cabeça, subtilmente. Creio eu. Tento ouvir do que se fala, mas não consigo perceber exatamente. Olho. Tento ser subtil, mais uma vez. Não tenho, porém, certeza se fui apanhado. Desconfio que sim. Percebo que é mal dizer. De mim. Por já ter terminado a minha refeição e não me ter ainda retirado. De certa forma, compreendo. Também já adotei semelhante estratégia como tentativa de demover alguns indivíduos das suas mesas de refeição públicas. São duas mulheres. Uma loura. Outra morena. Relativamente jovem, a loura. Mediana idade, a morena. Estão com fome e, sobretudo, com pressa. O som dos ponteiros do relógio invade-lhes a cabeça. Tic Tac. Lá se vai a call das 14h. Ajo como se não fosse nada comigo. E na verdade, não é. Finjo que não as percebo. Mas não por muito tempo. Custa-me ficar indiferente. Cedo à pressão e levanto-me, parcialmente incomodado. Mas faço-o com dignidade. Afinal de contas, podia ter demorado bem mais tempo. Esboço-lhes um sorriso, numa tentativa de que me odeiem o menos possível. Não gosto de ficar mal com as pessoas. Nunca gostei. Mas não resultou.

14h15. Chego ao escritório. Hoje pude chegar a esta hora, porque não tive call. Estou bem-disposto. A pausa fez-me bem. Num ápice, porém, tudo muda. Estou novamente imbuído num frenesim. Num ambiente agitado. Pressionante. Telefone dispara. Tic Tac. Atende. Uma chamada aqui. Uma chamada ali. Duas horas depois, e desligo finalmente. Tento recuperar o fôlego, preciso de acabar as tabelas para o Dr. Manuel. Não está fácil. Tic Tac. Concentra-te. Faço um esforço, e lá consigo. Entretanto, um colega aborda-me. Quer saber se o portfólio já está pronto. Sim, respondo, com um sorriso genuíno. 5 minutos depois, outra abordagem, outro colega. As tabelas do Dr. Manuel? Estou mesmo a terminar, respondo. Rápido. Preciso de as rever para ontem. Ok, ok, para ontem já não consigo, mas para hoje vou conseguir, respondo numa tentativa frustradíssima de amenizar o ambiente pesado. Pesadíssimo, aliás. Instantaneamente, percebo que meti água. Falta de noção da minha parte. Da parte do colega, que quer as tabelas prontas do dia para a noite, nem um resquício.

Faço outras tantas chamadas. Termino o portfólio. Termino as tabelas. Envio e-mails. Respondo a e-mails. Uma reunião. E finalmente, termino o meu dia. Laboralmente falando. Não com tudo feito. É impossível. Mas com o essencial. E sem falhar qualquer prazo. Não sou o tipo que adota à letra o provérbio «não deixes para amanhã aquilo que podes fazer hoje». Nunca fui de dormir no escritório. Algo me diz que em casa sempre é mais confortável. Também não dou tudo o que tenho. Porque há coisas que não se dão. Dou, apenas, tudo o que posso dar.

Puxo a porta do escritório, com a intenção de sair. Antes, cumprimento a Joana da recepção. Até amanhã, Joana. Saio. Respiro o ar impuro de Lisboa. Que naquele momento me parece puro. Entro no carro. Penso no que vou fazer para o jantar. Amanhã é outro dia de trabalho. Outro dia para faturar. Tic Tac. Despacha-te. Tic Tac. Esquece o ginásio. Tic Tac. Não te deites tarde. Tic Tac. Decide, de uma vez por todas, o que vai ser o teu jantar. Entretanto, estou no trânsito. Preso. Literalmente. Numa fila interminável de carros. Há de tudo: renault´s, peugeot´s, BMW´s, Mercedes, Audis, porches e, até, maseratis. Uma mixórdia de escapes, ruidosamente contribuindo para alimentar o ar impuro de Lisboa. Aliás, o ar impuro do mundo. Chora o buraco do ozono, magoado. Derretem os glaciares do Ártico. Ambos sabendo que, pelo menos tão cedo, nada mudará. Da minha parte, já pensei deixar o carro, mas não tenho uma linha de metro acessível onde vivo. E os autocarros não me oferecem segurança no cumprimento dos horários. E chegar atrasado ao trabalho não é uma hipótese. Infelizmente, em cada alternativa que penso, é menos uma alternativa que encontro.

Consigo avançar um pouco com o meu smart. Apercebo-me da existência de um par de acidentes. Um deles envolve um autocarro. Dou graças a Deus por ter optado pelo carro, hoje. Passo os acidentes e vislumbro uma clareira à minha frente. Os meus olhos brilham. Posso conduzir mais folgado. Estou cansado. Mas quase a chegar. Ligo o rádio. Está a dar o «we are the champions» dos Queen. Chega o refrão e estupidamente ergo os braços. Deixando o volante, momentaneamente, sem condutor. E canto-o. Vezes sem conta. Alto. Sinto-me um verdadeiro campeão apenas pelo facto de estar a chegar a casa, depois de (mais) um dia longo. (mais) Um dia de guerra. Mas ainda não cheguei. Antes, sou insultado por um condutor que viu, naquele momento, em mim, um rasgo de felicidade. A felicidade porque tanto almeja e que há anos lhe falta. Que há anos lhe foge. Oh filho da p***, pára de cantar e abre caminho! Cab***! …70 km, era a velocidade a que eu conduzia, em localidade, na faixa da direita. O tipo, stressado e carrancudo, achou, no entanto, que eu devia ir mais rápido. Que não podia manifestar a minha felicidade, na ausência da dele. Mesmo que em local privado. No meu carro. Enfim.

Chego a casa, finalmente. Estou de rastos. Havia decidido, durante a viagem, que faria uma massa saudável com cogumelos e legumes salteados, acompanhada por uma boa limonada. Mas desisto. Peço uma pizza na aplicação. O estafeta – para me manter agradado com o serviço e fazer-se à gorjeta – chega, em tempo record, passados 20 minutos. Se caísse da mota que o trouxe, a empresa com certeza arranjaria outro, sem dificuldades.

Engulo a pizza. Estava faminto. Estou meio zonzo, agora. Uma mistura de barriga cheia e de cansaço. Não posso ir já para a cama. Estou mesmo a rebentar. Ligo a minha televisão. Composta apenas por 7 canais, que, como já disse, não ganho uma fortuna. Canal 1 — bola na rede. Canal 2 — bola na trave. Canal 3 — bola no poste. E por aí fora. Entre as personagens que compõem os painéis, sente-se o escárnio, a hostilidade, a ofensa, a raiva e a irracionalidade em cada comentário. Desligo imediatamente a televisão, e penso: se há coisa de que não tive saudades em tempos de pandemia, foi deste tipo de programas – exclusivamente equacionados para estimular ódio entre quem os vê.

Sem mais nada para fazer, deito-me. Ainda sem sono e com o computador ligado, acedo à Netflix, que é sempre uma boa opção. Vejo um episódio de uma série. Entretanto, vou a meio e já estou a adormecer. Desligo o computador e, de seguida, as luzes. Estou pronto para dormir. Fecho os olhos, e tento fazê-lo. Porém, após algumas voltas na cama e, apesar do cansaço, não consigo. Nessa altura, numa tentativa de ganhar sono, faço o que sempre faço: pego no telemóvel, reduzo a luminosidade ao mínimo, e scroll em algumas notícias aleatórias com ele. Uma delas, já com cinco dias, de 11 de maio de 2022, quarta-feira, aparentemente fidedigna, chama-me particularmente à atenção. O título diz: «Economia mundial regista o maior crescimento após extinção do coronavírus». Abro a notícia e leio o seu conteúdo, com atenção. De facto, os números, registados pelo FMI, não mentem. A economia está recuperada. De boa saúde. E recomenda-se. As empresas, também recuperadas do vírus, prosperam e os lucros são cada vez maiores. Como maior é a exigência para os atingir. Independentemente do bem-estar humano. Independentemente das repercussões ambientais. Independentemente do impacto negativo nas gerações vindouras. Se, no futuro, viermos a ser surpreendidos com nova pandemia, pelo menos os fundos de maneio das empresas sempre serão maiores, lê-se num excerto que integra um comentário de um CFO. A poluição atmosférica atinge novamente índices catastróficos. A causa ambiental é, uma vez mais, relegada para segundo plano, constituindo preocupação apenas dos ambientalistas mais esquizofrénicos. O capitalismo selvagem mantém a sua hegemonia. E, apesar dos seus males, continua a ser o melhor sistema, de entre as parcas e sanguinárias alternativas que a história nos mostrou.

Tic Tac. Já é tarde. Tic Tac. Amanhã é dia de trabalho. Tic Tac. Tenho de dormir.