Tenho andado, desde meados de Janeiro, em conversa com Luís Aguiar-Conraria sobre racismo ou não-racismo na sociedade portuguesa. Tudo começou com a trágica morte, no final do ano, do estudante cabo-verdiano Luís Giovani, violentamente agredido em Bragança. O diálogo desenrolou-se nas páginas do PÚBLICO, a partir do artigo “Justiça para Giovani”, de Aguiar-Conraria, que eu prossegui em “#JustiçaParaGiovani”. Conraria respondeu em “Somos burros e preguiçosos, mas bonzinhos!” e eu de novo em “Somos bonzinhos, mas burros e preguiçosos!”, em que introduzi o tema do luso-tropicalismo, de que sou, confesso, assumido seguidor. A nossa amena cavaqueira rolou, há dias, para as páginas do EXPRESSO, onde Aguiar-Conraria escreveu “Um olhar lusotropical sobre o racismo” e rola, agora, para o OBSERVADOR, por este meu texto de resposta.

No artigo de Conraria, há duas semanas, defrontavam-se no Facebook um tal Luís (nome fantasiado), que considerava que “os portugueses eram dos povos mais racistas, porque nem sequer reconheciam que eram racistas”; e uma Isabel (nome também fantasiado), que “achou o argumento disparatado (…) até [com] uma ponta de indignação”. A fechar o artigo, depois de uma viagem argumentativa, Conraria dava razão ao Luís sobre a Isabel: “se queremos não ser racistas, devemos começar por ter consciência do nosso racismo.”

Não estou de acordo: penso que a razão é da Isabel. Nesta conversa de racismo e luso-tropicalismo, tomo partido, sem hesitar, pela Isabel contra o Luís, ainda que não se possa desprezar totalmente a posição do Luís. Em rigor, as duas posições não se opõem por inteiro. Eu, tal como a Isabel, acredito que os portugueses não são racistas. Creio, mais, que estão culturalmente vinculados a construir sociedades não-racistas: é o luso-tropicalismo, como o vejo e já afirmei noutra etapa destas conversas.

Mas isto que é uma leitura-tipo, uma visão de comportamentos dominantes comparados; não exclui obviamente que possa haver portugueses racistas, ou que haja comportamentos racistas (mesmo em indivíduos tipicamente não-racistas), ou que possam acontecer e acumular-se negligências com incidências racistas, etc. Dizendo de outro modo: a afirmação de Portugal não ser um país racista e a convicção de os portugueses não serem racistas não corresponde a um negacionismo cego, nem sobre o passado, nem quanto ao presente. Não impõem fechar os olhos a quaisquer factos que contrastem com a norma ou a agridam. Pelo contrário. Antes correspondem a uma afirmação cultural que deve favorecer o abraço, não o desinteresse. São assertividade e, por isso, compromisso. Não são balela e, por isso, indiferença.

Aguiar-Conraria conta-nos do menino negro com quem jogava à bola, quando criança, em Coimbra, com outros amigos, e a quem, às vezes, no calor da disputa, gritavam “Preto da Guiné, lava a cara com chulé!”. Isto é muito diferente do episódio que recorda a seguir: a longa cascata de provocações e insultos racistas de que o jogador Marega foi objecto, no estádio, durante cerca de uma hora, até decidir abandonar o campo, como protesto e justa recusa. No primeiro caso, das crianças, o sinal mais forte é integração: era um jogo entre iguais, em que rapazes, na luta da bola e do jogo, às vezes se insultam e provocam, troçando de características físicas – na minha infância, alvos frequentes eram os gordos, os que andavam com os pés para fora (os “patolas”) e os “caixa d’óculos”. Estivesse isso bem ou mal, não fazia mal desde que não houvesse carga de humilhação. E não havia carga de humilhação. Era gozo e brincadeira. Éramos todos amigos e tudo acabava aos abraços, em grande risota e com os joelhos esfolados. No caso de Marega, não foi um jogo entre iguais: foi uma liturgia de insultos e um longo ritual de humilhação, em que a multidão abusou do poder do número e da bancada sobre o atleta alvejado. Está mal, muito mal. É intolerável. Ali ou noutro estádio qualquer. Acredito – também vou aos estádios – que muitos não tivessem consciência da gravidade do que estavam a fazer e que a psicologia das multidões tomasse conta da gritaria.  Acredito que muitos, até a maioria, não sejam racistas. Mas, por isso mesmo, têm de reconhecer que o que foi feito é um gesto de racismo, uma atitude intolerável, que estraga o futebol e estraga a sociedade. E, não sendo racistas, têm que se empenhar em que nunca mais se repita. No Portugal luso-tropical, nós não queremos disto. Nem é só o Portugal de Eusébio, de Coluna, ou outros; é também o do Vitória, que, na mesma altura do choque com Marega, jogava com quatro atletas de pele negra ou mestiça. É ridículo, ignóbil. Não faz sentido. Não queremos disto em qualquer parte do mundo; mas a parte do mundo por que somos responsáveis é a nossa terra. Aqui, não! Nunca! Jamais, em tempo algum! Se queremos ser alguma coisa, é exemplares em que isto não aconteça.

Luís Aguiar-Conraria recorre, ainda, a um exemplo de teste académico que me impressiona pouco: o TAI, Teste de Associação Implícita. Eu próprio fui fazer o teste para saber do que se trata e do que falo. Por acaso, nem fiquei muito mal “cotado”. Mas admito que, já alertado, sabendo ao que ia, pudesse ter-me aplicado mais do que o normal. Porém, o teste – que é muito diferente do que imaginava – é muito sujeito a erros de teclado, actua sob pressão do tempo e não creio que permita tirar conclusões sobre indivíduos, grupos ou povos, do teor daquelas que já vi na imprensa. Por exemplo, depois do arresto de bens seus em Portugal, a pedido PGR angolana, Isabel dos Santos veio repescar, há dias, uma notícia de 2017, que, com base em resultados agregados do mesmo teste, titulava: “Portugal está entre os países mais racistas da Europa”. Isto é um disparate! Conraria não ecoa esta afirmação bombástica, mas o teste só servirá para medir (embora com as imperfeições do processo) a velocidade de associação de palavras “positivas” ou “negativas” a “negros” ou “brancos”. Não permite de todo extrair conclusões sobre o racismo – a associação das palavras, aliás, não é espontânea, é formatada pelo próprio teste. Podem ser sofisticações interessantes no plano da investigação das ciências humanas, mas que escapam ao essencial. O essencial é, até por constatação empírica, pela evidência social da experiência comum, se há exclusão ou não há exclusão, se há violência ou não há violência, se há discriminação e desigualdade ou não, se estas acontecem por causa da cor da pele ou doutros factores, etc. E também é essencial não parar. Por exemplo, se há igualdade de oportunidades, não chega dizer “há igualdade de oportunidades”: é preciso verificar se funciona, ou não funciona, e vigiar por que funcione.

Mais do que curiosidades ou sofisticados exercícios académicos, interessam-me – e devem interessar-nos – outras estatísticas: no emprego, no ensino, na habitação, etc. Essas estatísticas, sim, são relevantes e, infelizmente, ainda inquietantes. Conraria citou algumas num dos artigos da nossa conversa. E eu acrescentei, no artigo seguinte, a questão das estatísticas da representação política, que são muito fracas e decepcionantes. Estas estatísticas da realidade social e política necessitam sempre de ser feitas. E lidas e respondidas, quer no discurso, quer sobretudo nas políticas. É isso que faz o luso-tropicalismo caminhar. O luso-tropicalismo não é uma rede tropical onde nos deitamos a dormir à sombra da bananeira: é uma chamada, um mandato, uma responsabilidade.

Custa-me acreditar que corresponda exactamente à verdade o que Luís Aguiar-Conraria revelou quanto a dados publicados no European Social Survey, que nos dão como os piores europeus em matéria de racismo biológico. Isto não corresponde de todo à constatação empírica que normalmente fazemos. Mas, se, na verdade, os números significam isso e esses estudos são feitos bienalmente, então isso é um dado tão preocupante que merece verificação contínua e uma resposta social e educativa sistemática. Que eu saiba não há ninguém, hoje, que leve a sério o darwinismo social e o racismo “científico” – coisas que morreram, espero, na primeira metade do século passado.  E, em contrapartida, acredito, como já escrevi, que é indispensável que todos os partidos, da direita à esquerda e da esquerda à direita, incentivem a militância política de portugueses de diversas etnias, por forma a que a representação na Assembleia da República e nas autarquias locais possa traduzir de forma mais intensa a diversidade multiétnica da sociedade portuguesa.

Voltando ao princípio, a razão está com a Isabel: é disparate o argumento do Luís, segundo o qual os portugueses são dos povos mais racistas, porque nem sequer reconhecem que são racistas. É absurdo, desde logo, que os que reconheçam ser racistas se tornem ipso facto menos racistas que os outros. E é também absurdo pensar que aqueles que se consideram não racistas são automaticamente indiferentes e não são capazes de reconhecer factos ou actos racistas quando se cruzam com estes, nem de reagir contra estes. Creio que é exactamente o contrário.

Esta é, a meu ver, a atitude que está certa num português, filho da cultura portuguesa e cultor do modo português de estar no mundo. Esse português está vinculado, comprometido a defender e a construir uma sociedade não-racista. Esse é o legado do luso-tropicalismo, uma das descobertas mais geniais no domínio das ciências sociais e no quadro das relações inter-raciais. Não estamos condenados a ser racistas.