Quem se tem dado ao trabalho de acompanhar as notícias relacionadas com a Covid-19 sabia que era uma questão de tempo até os Estados Unidos terem um problema sério relacionado com o racismo. Por duas razões: a primeira é que a xenofobia contra americanos ou emigrantes asiáticos tem vindo a crescer exponencialmente porque estes são identificados com a China, que se tornou, aos olhos americanos, a responsável pela disseminação planetária do vírus. A segunda é que houve muitos focos infeciosos nas comunidades afro-americanas. Não pela cor de pele, obviamente, mas pelas condições sua pobreza e exclusão. Um quarto dos infetados é afro-americano. Um terço dos mortos também, o que tende a fazer com que outras comunidades os olhem com renovada desconfiança.

O que poderia não ser de esperar – ainda que esteja longe de ser caso único – era o homicídio (filmado e viral) de George Floyd, que inflamou os Estados Unidos da América. Mas sabemos que, Donald Trump, o mestre do aproveitamento político, tem muito boas razões para não deixar o assunto dissipar-se até novembro.

Vamos por partes. Há ordens de razões que explicam o racismo norte-americano. As razões fundacionais; as razões conjunturais; e as razões imediatas. As razões sistémicas são muito duras: os EUA nasceram um país com escravos, e a ferida provocada por este flagelo nunca mais se curou. Depois da Guerra Civil ficaram duas heranças: a institucionalização da segregação racial, ou seja, o reconhecimento pelas autoridades do país que há cidadãos de primeira e segunda categoria; e um profundo ressentimento dos esclavagistas que se perpetuou de geração e geração. Esta mistura é explosiva. Tivemos que esperar até 1968 para que essa institucionalização fosse extinta, mas a sociedade leva muito mais tempo (e tem de ter disposição) para mudar mentalidades. E, na verdade, não me parece que haja um verdadeiro espírito de reconciliação – de parte a parte – na sociedade norte-americana.

As causas conjunturais não começaram com Donald Trump. Começaram em 2008, quando a crise do subprime esvaziou os bolsos dos norte-americanos. A diferença é que, desta vez, o grupo social que se sentiu mais afetado foram os brancos de classe média-baixa e baixa que perderam os empregos não conseguiram desenvencilhar-se. Por demasiado tempo. Revoltaram-se contra as minorias étnicas, porque as tradições têm muita força, e em momentos de crise, precisamos de quem tenha culpa por nós. Revoltaram-se contra as medidas crescentes de descriminação positiva, contra apoios estatais e federais aos mais desfavorecidos que não os contemplavam a eles. Revoltaram-se contra um politicamente correto instituído que não lhes permitia desabafos em público. Acreditaram que a sua identidade como “maioria privilegiada” estava ameaçada de morte. E que era preciso fazer alguma coisa para que o estado das coisas mudasse. Encontraram um candidato natural em Donald Trump, O que, evidentemente, aumentou o fosso entre os que se sentem representados e os que não se sentem. E aumentou o sentimento de legitimidade do racismo americano.

O que acendeu o rastilho da profunda divisão social norte-americana foi o homicídio de George Floyd às mãos de um polícia violento. Mas as condições para a explosão estavam lá, à espera de serem despertadas.

O que é que Trump ganha com isso? Um motivo para a reeleição. Como já foi escrito num artigo anterior, a crise pandémica e económica destruiu-lhe a narrativa de campanha. O presidente incumbente tinha elegido o tema da inimizade com a China e as suas responsabilidades na expansão do vírus para unir os americanos à volta da sua candidatura. Agora tem a oportunidade de vestir a capa do presidente da “lei e ordem”, tão ao gosto do seu eleitorado. É certo que não sabemos se vai beneficiar desta nova convulsão americana. Mas vai tentar. Quem perde são os americanos. Vem aí mais uma acha para a fogueira da tribalização política e para o reforço da polarização social, que se perpetua desde a crise de 2008.