Enquanto a vida política portuguesa se entretém com incidentes marginais sem peso no futuro do país em vez de atacar o crescimento económico pífio já sob o risco de uma crescente bolha imobiliária e o financiamento dos sistemas de reformas e de saúde perante o envelhecimento da população, a Espanha continua a confrontar-se com a questão cada vez mais grave da «fronda catalã», por ora sem solução político-partidária à vista.

Se o regresso do PSOE ao poder há menos de ano e meio, mercê da queda do PP perante a condenação por corrupção, deu por instantes a impressão de haver solução para a questão do «separatismo catalão», na realidade o PSOE começou por deixar o Supremo Tribunal levar a termo o processo de condenação dos líderes separatistas desencadeado pelo governo anterior e pôs-se a remexer as cinzas do ditador Francisco Franco desenterrando as trágicas memórias de uma Guerra Civil finda há 80 anos!

Entregue a si próprio, o novo primeiro-ministro, Pedro Sánchez, revelou-se completamente incapaz de lidar com a espinhosa «questão catalã». Após as eleições de Abril de 2019, perdeu a oportunidade de se aliar à direita a fim de atingir a maioria absoluta mas os seus potenciais aliados, Cidadãos, recusaram-se, coisa de que devem estar hoje amargamente arrependidos. A seguir, desbaratou o tempo de que dispunha em inúteis negociações com Podemos, cuja ambiguidade oportunista perante o «separatismo» só viria a tirar-lhe votos. Sánchez não se aliou com o primeiro nem com o segundo dos partidos citados, perdeu assim votos entre Abril e Novembro e fazendo perder ainda mais ao Cidadãos e ao Podemos…

Viu-se, portanto, o que vale o PSOE em matéria táctica: zero! Agora, vamos ver se tem alguma estratégia para gerir a escassa vitória que obteve. Ainda que o apoio da Catalunha aos partidos «separatistas» tradicionais não tenha aumentado significativamente, estes obtiveram mesmo assim no domingo passado 42% da votação, incluindo 250.000 votos em favor dos agitadores de rua de uma tal Candidatura de Unidade Popular (CUP) que se afirma anti-capitalista e anti-europeia, havendo eleito pela primeira vez deputados nacionais. Só resta saber para que lado penderiam, num referendo sobre a independência, os 600.000 eleitores que votaram nos grupos da rede Podemos, ou seja, 15% do eleitorado catalão…

Em suma, se é certo que a direita nacionalista espanhola aumentou com a subida espectacular do Vox, a virulência da agitação separatista na Catalunha também não cessa, arrastando o conflito político para a violência de rua e o confronto com a polícia. É inegável, com efeito, que a condenação de nove dirigentes dos partidos independentistas a penas de prisão de 9 a 12 anos não facilita a acção do governo e dos partidos que eventualmente o apoiem. Algo terá de fazer, porém, o governo que sair das eleições no sentido de indultar ou, pelo menos, devolver os condenados a um regime qualquer de liberdade condicional que lhes permita participar nas negociações que se impõem o mais breve possível, sob pena de Espanha ficar entregue à guerrilha independentista!

Caminho só há um. Resta saber se Sánchez, com o seu baixo calculismo, terá imaginação para avançar no sentido de uma aliança com o PP, actualmente chefiado por um Pablo Casado que nunca enfrentou um problema destes. Não se trata de um banal «bloco central» à portuguesa mas sim de uma operação de salvação nacional. Oferecendo ao PP o que este pedir, Sánchez teria a possibilidade de obter uma larga maioria de 208/350 no parlamento e 176/208 no senado. O objectivo de um tal governo seria realizar as tarefas sem as quais o conflito catalão só pode acabar mal para todos.

1.º – Tirar da cadeia os líderes separatistas mediante um procedimento jurídico viável; 2.º – Convocar o Parlamento e o Senado, onde o PSOE e o PP juntos têm maioria absoluta; 3.º – Rever os termos constitucionais que regulam as relações das Comunidades com o Estado central no sentido de reforçar o seu carácter federalista, incluindo as condições em que as Comunidades poderiam conduzir referendos acerca da possibilidade de se separarem do conjunto de Espanha, tornando-se países independentes aos quais seria permitida a adesão à União Europeia; 4.º Referendo nacional destinado a aprovar as alterações constitucionais, seguido de outro referendo sobre a eventual separação da comunidade catalã em relação a Espanha, segundo as normas aprovadas (percentagem mínima de votantes e maioria necessária para validar o voto em tais referendos).

Não sei quanto tempo levaria um processo destes mas de certeza que, no caso de ele não abrir espaço a um referendo acerca do futuro estatuto da Catalunha no reino de Espanha, no qual eu votaria NÃO à independência, a questão do «separatismo» não desaparecerá e cobrará todos os custos que isso representará para uns e para outros! A notícia segundo a qual o PSOE teria assinado um pacto com Podemos só pode acabar mal para ambos!