O Dia Mundial da Saúde Mental é celebrado desde 1992. A Federação Mundial de Saúde Mental tenta por o tema na agenda, no intuito de centrar a atenção da opinião pública e poder debatê-lo como uma causa comum a todos, dado o subinvestimento crónico que esta área sofre, em parte pelo estigma a que a associam.

Este ano vivemos circunstâncias específicas inerentes à pandemia e criou-se, pois, uma oportunidade única para explorar o tema, pela necessidade que surgiu no que diz respeito ao impacto psicológico que as alterações da rotina podem ter, mesmo em indivíduos saudáveis. Isto é, passou não só a considerar-se como âmbito a doença mental, mas, como determinante social, a saúde mental individual – o bem estar psicológico para que o indivíduo consiga desempenhar a suas tarefas e seja produtivo em sociedade. Todavia, embora o tema esteja presente na agenda pública com regularidade, ainda carece de uma visão de normalidade, ou seja, a saúde mental ainda precisa de ser abordada e debatida tal e qual como o faríamos com outras doenças como a diabetes ou a hipertensão. Sabemos que não acontece. Ainda não há uma paridade entre a saúde mental e a saúde física, levando, inevitavelmente, ao desinvestimento na primeira.

Vejamos um caso prático, comparando a comparticipação de medicamentos entre a saúde mental e outra doença crónica, a diabetes, por exemplo: na área da diabetes a comparticipação ronda os 100% e na psiquiatria há uma variabilidade maior, com um máximo de 90%, quando muitas vezes, os pacientes pertencem às classes sociais mais frágeis e desfavorecidas. Mais ainda, deveria ser pensado um modelo organizacional diferente dos serviços de Saúde Mental, que não contemplassem apenas o tratamento individual, mas com modalidades comunitárias, onde a disrupção fosse mínima para os utentes. Isto, porque nesta área é de extrema importância considerar a dimensão individual de cada um. O indivíduo não se pode dissociar do seu meio e este influencia os seus comportamentos. Logo, viver num cultura em que se respeita a individualidade de cada um, em que esta não é dissociável da sociedade em que estão inseridos, que a doença não é sinónimo de comportamento e que devemos perceber e educar primeiro sobre os temas, serão medidas que poderão contribuir para diminuir o estigma, incutir a visão de normalidade, em que as pessoas não estão doentes porque querem, ou “basta a força de vontade para melhorarem”. Não se consideraria dar esse conselho a quem parte um membro, pois um “osso não se cura por força de vontade”. Porquê, então, aplicá-lo á doença mental? Se tal não for conseguido, irá refletir-se no facto de os utentes terem dificuldade em pedir ajuda e na falta de capacidade de saber interpretar nos outros quem precisa desse auxilio.

Neste mês de outubro, em que se celebrou o Dia Mundial da Saúde Mental, não importa tanto debater as medidas ou o diagnóstico do que tem de ser feito em Portugal, uma vez que muitas destas medidas integram já o Plano Nacional de Saúde Mental. Importa, sim, perceber o porquê de ainda não terem sido implementadas, se sabemos o que tem de ser feito? Tem de haver paridade entre as doenças e respetivos  tratamentos e é necessário perceber que a falta de deteção das doenças ou que o seu tratamento eficaz pode não ser uma questão de falta de recursos em saúde, mas uma questão cultural, onde o estigma e a falta de literacia ainda impedem a mudança.