1. Ao fim de 38 anos ininterruptos de poder, Alberto João Jardim vai sair de cena. Entrou em apoteose, sai sozinho.

Conheço-o há muito. Tinha um projecto para a Madeira, sou desse tempo. Acompanhei-o em diversas campanhas eleitorais, visitei-o no belo Palácio da Vigia, entrevistei-o várias vezes e para diferentes meios, encontrei-o por vezes em casas de amigos comuns, como há quase vinte anos, num memorável serão madeirense onde ele brilhou, convenceu e ofuscou. E por isso conheço-lhe as invulgares capacidades políticas, o fôlego, a velocidade, a inteligência.

Mais tarde descobri-lhe o princípio da cegueira, disfarçado de “persistência”, e percebi que se começava a servir sem parcimónia do veneno do ressentimento. Não sei se ele dava por isso, sei que se iludia a si mesmo, confundindo cegueira com o “defender a Madeira” – sem porventura alcançar que era a Madeira que começava a ter de ser defendida dele próprio – e confundindo ressentimento com o “dizer as verdades”. Sendo que as “verdades” eram por regra insultos ao “continente “, às oposições, às famílias antigas da Madeira, ou simplesmente aos que não se reviam no seu estilo de liderança. Uma cavalgada obsessiva e dispendiosa contra tudo que não coubesse no seu particularíssimo entendimento da democracia.

E enfim, nos últimos tempos, apercebi-me daquilo que não será mas parece relevar de um puro autismo: a sua feroz incapacidade em medir o seu prazo de validade. Tivesse “o Alberto” tido a presciência – oh, magnifica palavra – de sair mais cedo e todos os galos (lhe) cantariam um hino.

Teve a Madeira a seus pés, desabrochou-a, deu-lhe viço e melhores condições de vida. Começou bem, continuou melhor, depois encalhou no erro e depois perdeu-se. Na sua própria irredutibilidade, no descontrolo dos gastos públicos, no endividamento, na longevidade do poder e na péssima solidão que ela traz. Numa concha de autismo. Há dez, quinze anos, teria saído em glória. Hoje sai sozinho. Mas Alberto João Jardim – e convencerei alguém do que estou a dizer? – é melhor do que o seu fim político.

 

2. E aí estamos, décadas depois, nas primeiras eleições regionais na Madeira sem o tonitruante líder dos 38 anos precedentes. Um caso, mesmo dando de barato que ali a democracia era a brincar. Miguel Albuquerque, novo líder do PSD, está porém em vias de conseguir um feito pouco comum na política: ganhar as eleições do próximo domingo, levando pela mão até ao altar eleitoral um PSD que ele apenas terá tido tempo de pintar de fresco, mas agindo com a segurança de um senhorio que lá tivesse feito obras de alto a baixo e, depois, convencendo militantes, simpatizantes e parte do eleitorado disso mesmo.

A rua e as sondagens disseram-lhe que sim, era o que ele precisava para se poder virar para “fora”, saltando por cima do perímetro do seu partido: sinalizou escolhas e prioridades e apresentou-se com uma equipa credível porque tem poder de convocatória na sociedade civil. E melhor que ninguém sabia que havia gente com vontade e capacidade de começar ali outra história e um novo ciclo na vida pública. Estou a lembrar-me do independente Eduardo de Jesus, economista, ex-líder da Ordem dos Economistas na Madeira, com provas dadas, homem sério e cidadão avisado; ou do médico Manuel Brito, natural de Coimbra mas a viver na Região há muito, mais ligado à esquerda que à direita, conhecido critico do sistema político da Madeira, com intervenção cívica prestigiada e obra publicada. Ou ainda do social-democrata Sérgio Marques, com larga experiência política e ex-deputado ao Parlamento Europeu durante vários anos.

São alguns (bons) exemplos, há outros.

E os restantes partidos e coligações, perguntar-se-á, quase quarenta anos depois?

O CDS autocolocou-se intencionalmente à margem de qualquer aliança, entendimento, coligação, com o PSD ou fosse com quem fosse. Fez uma campanha com alguma visibilidade mas sem fôlego, e mesmo a ida de Portas ao Funchal nem aqueceu o ânimo do partido nem arrefeceu os ânimos anti-PSD (demasiado contrastantes, porém, com os repetidos desejos manifestados pelos centristas de integrar um futuro governo com o PSD…).

Tudo muito previsível, aliás. O que pelo contrário não era de todo antecipável foi o politicamente inclassificável acordo eleitoral assinado pelo PS. Não basta evocar a congénita inabilidade do líder Vítor Freitas para justificar a coligação com José Manuel Coelho, infeliz líder de um grupúsculo confrangedor que se esgota em dichotes rascas por inteira incapacidade de outra coisa. Foi por um triz que há dias o esconderam de António Costa em visita pálida do líder socialista à campanha da Madeira.

Mas como se não bastasse, o PS/M decidiu renovar nestas eleições a aliança com o actual autarca do Funchal, Paulo Cafofo, cuja calamitosa gestão – camarária mas sobretudo política – o tornou porventura no político madeirense de quem fugir a sete pés. Com Coelho de um lado e Cafofo do outro, a “Mudança” do PS – slogan tão gasto, santo Deus, nem nisto acertaram – será mais provavelmente para uma ácida derrota eleitoral.

Espanta que nesta altura do campeonato, o Largo do Rato não tivesse tomado as devidas precauções: para ensaio (mesmo que “inho”) não parece auspicioso.

 

3. Voltemos à República. Ando com isto na cabeça: terão alguns jornalistas e algumas das pessoas que frequentam as televisões e têm lugar habitual no debate público consciência do espanto que poderão provocar nas plateias vulgares, normais, que os ouvem?

O ar do país mediático está saturado de acusações. Não se faz mediação, acusa-se; não se informa, julga-se; não se esclarece, diz-se mal. De tudo e a eito. Perguntadores, mediadores, esclarecedores ou… exclusivamente advogados de acusação? A suspeita e a desconfiança têm praticamente lugar cativo, utiliza-se um considerável grau de má-fé e consome-se por vezes porções de ódio.

O comentário e o debate são muitas vezes – não todas, eu sei – pilotados por episódios e fait divers e veja-se o tratamento dado à tômbola dos candidatos presidenciais – até aqui sem base de sustentação e com pouca verosimilhança – se não é de meter medo? E agora, com a introdução na tômbola de uma não despicienda novidade: cada um chega a um lado qualquer, atira com um nome e o nome passa a ser notícia-para-se-fazer-caso: igual, ou quase, a uma declaração formal de candidatura…

Também surpreende a deslizante leveza com que nos ecrãs, todos sabem que a medida A, a lei B, a decisão C estão obviamente erradas e deviam ser imediatamente trocadas pela X, a Y, e a Z (defendida pelas oposições ou os interesses estabelecidos, sendo irrelevante que nem umas nem outros careçam de mandato eleitoral para governar e logo para produzir medidas e decisões). Ouço muito falar – e constato-a – da descrença que paira sobre a política e do divórcio do eleitor face ao político, mas nunca ouço falar do peso ou da relevância ou da influência (como quiserem) de certos enviesamentos – não todos, repito – das televisões nisso tudo: quando mil vezes por dia se acusa a classe política de absolutamente todos os pecados enquanto ao mesmo tempo não se hesita em permanentemente a julgar na praça pública, e até com o apoio de documentos forjados? Ou lidando do mesmo modo empenhado com verdades, meias verdades ou mentiras? Ou ainda não se hesitando no assassinato moral de Pedro Lomba – por exemplo – como foi o caso há dias num jornal dito de referência.

Seria aliás incapaz de me pronunciar ou criticar o novo programa para os imigrantes que fez de Lomba a sua vítima (?) porque em absoluto desconheço o seu conteúdo. Já não seria incapaz de manifestar surpresa pelo tom soez usado neste caso onde afinal pouco ou nada se atendeu aos objectivos, bondades ou maldades do tal programa, preferindo-se o insulto ao argumento. Não percebo que dê jeito confundir isto com informação.

Eu sei que é proibido falar assim. Impopular e condenável, contra a corrente bem pensante e os seus códigos obrigatórios. Os seus hábitos e tribos. Paciência. Não vou imbecilizar-me ao ponto de lembrar aqui, ao fim de décadas de oficio, que conheço bem o valor fundamental da comunicação social e das suas insubstituíveis funções no equilíbrio e na saúde de uma sociedade democrática. Mas também não me imbecilizarei ao ponto de achar que o que se vê ou ouve todos os dias é – em muitos casos – passível de encaixar no adjectivo “verosímil” para já não dizer num sério e indispensável exercício de informação. Será porque o jornalismo é afinal a única classe trabalhadora que não “despacha” perante ninguém e é livre de acusar ou denegrir por opção? (sabendo-se ainda que quem se sinta humilhado ou ofendido com as consequências de tal “ comportamento” terá o inferno como destino pronto e único…)

Qualquer ser normalmente constituído, de esquerda ou de direita (até porque a seguir a uma, vem a outra…) pasmará com a leviandade risonha dos comentadores, profissionais da política. Há uns meses, Marques Mendes queixava-se compungidamente do avultado número de “casos e broncas, surpresas”, etc. (cito de memória) para dizer com alivio que sim, felizmente havia outro país, normal, óptimo, que seguia em frente, produzia, etc. Sem lhe ocorrer o que ele próprio (Mendes) contribuía para o eco das tais coisas: quantas não ampliou já ele nos ecrãs? A quantas não deu importância, quantas não transformou em “certezas”?

Um dia li aqui no Observador que Marcelo se dizia “cansado da intriga”. Quem havia de dizer, um fazedor/produtor/realizador do seu calibre, cansado do seu próprio produto? Mas a quantas intrigas não ofereceu ele – de bandeja – verosimilhança? A quantas não concedeu imediato direito de cidade? A quantas não emprestou a legitimidade do “professor”?

Nada disto é novo, nem original nem exclusivo e mesmo se com o mal dos outros posso eu bem, é-me irresistível deixar aqui algumas linhas que julgo pertinentes de alguém que se atarda sobre estas matérias. É espanhol, chama-se Miguel Angel Belloso, é um liberal sem grandes ilusões, professor, cronista e mentor de uma revista de economia que também dirige. Escreve semanalmente no DN e se aqui o cito é porque ele traduziu de forma simplicíssima, essa espécie de estranheza a que pretendi aludir acima. Eis um breve excerto de um recente artigo seu:

“Se alguém se questiona por que pode a Espanha perder a estabilidade política quando vierem as próximas eleições nos finais deste ano, e há possibilidades de que uma coligação heterogénea de esquerda possa governar o país, a resposta principal está na televisão. As duas principais estações do país, vistas diariamente por milhões de pessoas, são de esquerda. Programam debates políticos de manhã, à tarde e à noite que têm uma audiência muito respeitável e estão povoados por personagens, muitas delas irascíveis e desacreditadas, que desconhecem os princípios mais elementares da economia de mercado. Inclusive os que provêm do mundo conservador, que são a minoria, carecem de princípios claros sobre como se gera a riqueza ou em que consiste o dinheiro. O resultado é que uma pessoa senta-se a jantar com a família e o país, que está a crescer a um ritmo superior a 3% e vai produzir este ano mais de meio milhão de postos de trabalho – 400 mil em 2014 -, transforma-se no ecrã num país à beira de uma crise humana, numa situação de emergência social (…)”

Portugal não é a Espanha mas quem esteja a jantar com a família e abra a televisão, também se espanta: é como se o país vivesse uma situação de catástrofe social generalizada, a fome fosse trivial, o desemprego não fizesse senão aumentar e toda a classe política estivesse sob suspeita.

Pergunto: ou não?