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Recordando Raymond Aron (1905-1983) /premium

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As Memórias de Raymond Aron foram agora publicadas entre nós, 35 anos depois da publicação original. Por que motivo foi Aron em França odiado pela esquerda e respeitado pela direita — mas à distância?

As Memórias de Raymond Aron acabam de ser publicadas entre nós pela editora Guerra & Paz. []  Como observei nas minhas sugestões de livros para férias, a publicação ocorre 35 anos depois da publicação original em França pela editora Julliard. O evento é sem dúvida digno de nota.

Espero que possa ser um sinal de que existem hoje entre nós mais admiradores de Raymond Aron do que havia na altura da sua morte, em Outubro de 1983, poucos meses depois da publicação das suas Mémoires. Nessa época, fui convidado pela RDP 2 (creio que era assim que se chamava) para coordenar um programa emitido ao longo de vários dias (talvez meia hora por dia, não me recordo exactamente) sobre a vida e a obra de Aron. Costumo dizer que foi um sinal de pluralismo radiofónico — mas também da escassez de admiradores de Raymond Aron entre nós.

Essa escassez era particularmente intrigante, uma vez que a nossa cultura política era sobretudo dominada pela influência da cultura política francesa — o que aliás aconteceu ao longo de quase todo o século XX (para dizer o mínimo). Mas a verdade é que o próprio Raymond Aron, sendo francês, nunca foi particularmente reconhecido em França. Odiado pela esquerda marxista, era por esse motivo respeitado pela direita — mas à distância.

As razões do ódio da esquerda marxista a Aron são relativamente simples e podem resumir-se no título da sua obra de 1955, O Ópio dos IntelectuaisTrata-se de uma eloquente crítica da mitologia das esquerdas de inspiração marxista: o mito da ‘esquerda’, o mito da ‘revolução’ e o mito do ‘proletariado’, culminando no mito do ‘determinismo histórico’. Juntamente com A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos, de Karl Popper (publicado em inglês em 1945 e, entre nós, traduzido em… 1990, reeditado em 2012), O Ópio dos Intelectuais permanece uma das mais devastadoras críticas ao marxismo.

Mais interessantes são os motivos da desconfiança da direita francesa relativamente a Aron. No plano meramente político, esses motivos decorreram certamente da independência pessoal de Raymond Aron, que nunca foi um “incondicional” de qualquer partido, nem sequer do General De Gaulle. Tendo dirigido em Londres, durante a II Guerra, a revista da resistência Gaullista, La France libre, Raymond Aron mais tarde distanciou-se do General em várias ocasiões, sobretudo a propósito da animosidade gaullista relativamente aos EUA e a Inglaterra.

E este é talvez o ponto central da respeitosa distância da direita francesa relativamente a Aron: ele era visto como expressão da chamada “escola inglesa” na tradição cultural e política da França. Esta “escola” inclui autores famosos como Montesquieu, Guizot, Tocqueville e Elie Halévy. Pelo menos no caso de Tocqueville, Aron foi sem dúvida o grande responsável por ter-lhe devolvido em França a respeitabilidade de que a sua obra sempre desfrutou no mundo de língua inglesa.

Basicamente, Aron concordava com Tocqueville no contraste que este estabelecera entre a cultura política francesa e a cultura política de lingua inglesa. Este contraste assentava entre, por um lado, a histórica “oscilação da França entre a servidão e o abuso”, entre a contra-revolução e a revolução, e, por outro, a evolução gradual e parlamentar do mundo de língua inglesa.

Seria impossível resumir aqui os factores explicativos a que Tocqueville e Aron atribuíam este contraste entre o espírito revolucionário e contra-revolucionário da França e o espírito reformista dos povos de língua inglesa. Mas pelo menos dois factores devem ser recordados.

Em primeiro lugar, a limitação do poder do Estado e a primazia concedida à liberdade da sociedade civil sob a lei, na tradição de língua inglesa. Como observou Tocqueville, o fanatismo estatista jacobino contra o pluralismo da sociedade civil foi em grande medida um prolongamento, de sinal contrário e muito mais acentuado, do estatismo do Antigo Regime absolutista francês. Por contraste, o regime inglês assentava na limitação do poder do Estado desde a Magna Carta de 1215 — e a sua última revolução, de 1688, fora feita com o modesto propósito de restaurar essa tradição.

Em segundo lugar, o cepticismo dos povos de língua inglesa relativamente a teorias gerais, por contraste com o fascínio da cultura política francesa precisamente por teorias gerais e abstractas.

A conjugação destes dois factores é fatídica. Se a mais pequena diferença de opinião for interpretada como expressão de uma diferença fundamental entre doutrinas abstractas e incompatíveis; se o papel do Estado for entendido como o de uniformizar (ou talvez “ilustrar”, ou talvez “libertar”, ou talvez “doutrinar”) a sociedade civil, de acordo com a correcta doutrina abstracta; se estes dois factores se conjugarem, temos aqui a receita para aquilo que Aron e Tocqueville designavam como “o estéril conflito entre o Antigo Regime e a Revolução” ou para “a perpétua oscilação entre a servidão e o abuso”.

Raymond Aron não terá caído na tentação de fornecer uma contra-receita para contrariar a receita revolucionária das cultura políticas inflexíveis de inspiração francófona. Mas, em O Ópio dos Intelectuais, ele descreveu a cultura política reformista inglesa da seguinte forma:

 “O inglês é tentado a acreditar que ninguém fora da sua ilha feliz será capaz de jogar cricket ou o jogo parlamentar. É uma curiosa mistura de arrogância e modéstia, que talvez possa ter a sua recompensa: os povos da Índia, de África e de outros lugares, educados e emancipados pelos britânicos, vão continuar a jogar cricket e o jogo parlamentar” (p. 235 da edição inglesa).

PS:Acabo de ler numa notícia meteorológica do Daily Telegraph de Londres uma inesperada e não intencional homenagem a Raymond Aron. Parece que uma das mais graves consequências da onda de calor que tem afectado o Reino Unido foi a alteração sem precedentes do código de vestuário do MCC (Marylebone Cricket Club, de Londres): os sócios foram pela primeira vez, na centenária história do clube, autorizados a entrar sem vestir o casaco, enquanto no passado apenas ocasionalmente eram autorizados a tirar o casaco quando assistiam aos jogos — mas nunca a entrar no clube sem o casaco vestido.

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