“Os judeus foram obrigados a despir-se, deviam estar uns 18ºC abaixo de zero e depois meter-se em “sepulturas” previamente abertas por prisioneiros de guerra russos. Foram depois abatidos a rajadas de metralhadora; a seguir os alemães lançaram granadas para dentro das valas. Sem sequer verificarem se estavam todos mortos, os homens da Força Especial mandaram tapar as valas.”

“No campo de concentração de Auschwitz, em finais de Julho, um prisioneiro polaco fugiu de uma das equipas de trabalho. A título de represália foram escolhidos ao acaso dez homens do seu barracão de seiscentos prisioneiros, para serem trancados numa cela onde morreriam à fome. Após a selecção, um padre católico polaco, Maximilian Kolbe, também prisioneiro do campo, abordou o comandante e pediu para tomar o lugar de um dos escolhidos: “Eu estou sozinho no mundo” disse Kolbe; “aquele homem, Francis Gajowniczek, tem uma família para quem viver”. “Aceite”, disse o comandante, afastando-se. O padre Kolbe foi o último a morrer. Trinta anos depois, a cerimónia de beatificação de Kolbe contou com a presença do homem cujo lugar ele tomou, Francis Gajownciczek e a sua mulher.

Estes são apenas dois exemplos relatados no excelente livro de Martin Gilbert: “A Segunda Guerra Mundial” acerca das atrocidades cometidas pelos nacionais-fascistas alemães contra judeus, russos, polacos e outros durante a segunda guerra. Torna-se assim incompreensível e até ultrajante a designação feita por Catarina Martins acerca da prisão de Lula da Silva, classificando-a como “fascista”. Que termo utilizará então a porta-voz do BE para classificar o regime alemão liderado por Hitler?

Querer comparar a prisão de Lula com as inomináveis crueldades sofridas pelas vítimas do fascismo revela imensa ignorância e má-fé, mas é sobretudo muito perigoso porque compara o pior regime ditatorial da história da Humanidade, o mais cruel e selvagem, a um Estado de direito democrático onde a justiça é feita nos tribunais por juízes independentes do poder político e onde existe a possibilidade de recorrer a instâncias superiores.

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É evidente que a prisão do ex-presidente do Brasil é um embaraço para a extrema-esquerda nacional que tinha em Lula um herói, muito popular no seu país e capaz de fazer sonhar os seus correligionários nacionais com vitórias semelhantes em Portugal. A sua queda é um rude golpe nestas aspirações, mal acusar a justiça de ser fascista e reacionária, sobretudo num país como o Brasil, onde é corrupção é generalizada, é em si mesmo um golpe nas aspirações do povo brasileiro a viver num país onde a justiça funcione de facto.

A expressão “Reductio Ad Hitlerum” foi cunhada pelo filósofo americano de origem judaica Leo Strauss e descreve o momento em que durante uma discussão um dos participantes sem mais nenhum argumento válido “saca da carta” de comparar o seu oponente a Hitler ou as posições do seu adversário a posições assumidas pelos fascistas ou nazis. Esperamos encontrar este tipo de argumentação à mesa de um café, mas torna-se preocupante e triste quando a vemos ser usada pela líder de um partido com representação parlamentar e que actualmente faz parte da solução governativa.