A menos de dois anos das próximas presidenciais, Marine Le Pen obteve a primeira grande vitória eleitoral nas eleições regionais em França. Em 2010, ano das últimas eleições regionais, o partido obteve 11,42% dos votos expressos a nível nacional. Desta vez está perto dos 31%.

Foi apenas a primeira volta – a segunda terá lugar dia 13 –, mas é sem dúvida um momento de viragem, de afirmação de um partido unanimemente qualificado como de extrema-direita, mas que Marine Le Pen logrou retirar do gueto político em que o deixou o pai, Jean-Marie Le Pen. Medo do desemprego; medo do futuro; medo da ameaça terrorista; medo do inimigo interno, dos muçulmanos radicais das “cités”, islamistas de nacionalidade francesa, um cancro que cresce e mata como em Paris a 13 de Novembro. A vitória da Frente Nacional, um partido que promete mão dura, proteccionismo, soberania nacional, o fim do euro e da União Europeia, pode ter sido a vitória do medo. Mas é fácil de mais, o fenómeno tem raízes fundas.

Falta ainda a segunda volta. O futuro dos 13 conselhos regionais, renovados de seis em seis anos, depende das alianças que se gerarem entre os partidos menos votados. Esta primeira volta, em que Marine Le Pen obteve 41% dos votos em Pas-de-Calais e a sua sobrinha Marion Maréchal-Le Pen, de 25 anos, venceu Provence-Alpes-Cotes d’Azur (PACA) com 40% – os candidatos da Frente Nacional venceram em 6 regiões -, não é ainda o fim da História, nem garante a primazia da Frente Nacional nessas regiões. Mas é certamente o princípio de uma nova (e preocupante) história…

A noite foi de pesadelo para François Hollande, o Presidente francês mais detestado desde a 2ª Guerra Mundial mas cuja popularidade subira cerca de 20% após os ataques terroristas em Paris: o Partido Socialista ficou em terceiro lugar, com menos de 23% dos votos expressos a nível nacional. Já o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy, cujo Partido Republicano de direita atingiu 27,2% nestas eleições, recusa compromissos ou desistências a favor, nomeadamente, dos socialistas; já o PS, por seu lado, admite desistir a favor do candidato da direita em pelo menos duas regiões em que o partido ficou em terceiro – Pas-de-Calais de Marine Le Pen, cuja vitória pode ser mais difícil do que se pensava, e em PACA.

Em tom dramático, Nicolas Sarkozy dirigiu-se aos votantes na FN: “…ouvimos as vossas preocupações, mas não encontrarão solução num partido cujas políticas diminuem dramaticamente as posições francesas”. Já Marine Le Pen rejubilou: “o movimento nacional é daqui em diante e sem ambiguidade o primeiro partido de França…”.

“Le choc” (“o choque”), é o título de dois dos principais jornais franceses: o Libération, um ícone da esquerda, e o Le Figaro, um símbolo da direita. A esquerda e a direita unidas contra a Frente Nacional?

Já se viram coisas mais estranhas. Mas não muitas vezes.