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O melhor texto que li sobre o que sucedeu no Capitólio dos EUA foi o escrito por Michael Lind, na Tablet. Lind é um apologista do nacionalismo cívico que coloca no centro do que une um país, uma nação, não a sua identidade étnica, mas a adesão a certos valores cívicos, como o da liberdade e dos direitos individuais.

Este é um texto sobre os EUA, mas também sobre Portugal.

É também um texto sobre Portugal porque, apesar de o nosso país ser cultural e etnicamente homogéneo, se estão a importar problemas norte-americanos que sustentam argumentos de cariz ideológico, bem como políticas de género e de discriminação racial. O resultado é a criação de pólos políticos artificiais, algo possível quando as pessoas, individualmente, se isolam umas das outras e as comunidades se desvanecem.

Lind apresenta-nos as 5 crises norte-americanas. Uma política, uma crise de identidade, outra social, uma quarta que é demográfica e, por fim, a económica. Qualquer uma destas está ou vai ser sentida entre nós. Segundo Lind, a crise política nasceu do enfraquecimento das entidades políticas locais. Deriva do centralismo que se traduz na cada vez maior importância que se atribui à figura do presidente da união. Este é mais encarado como um salvador, as eleições as mais importantes de sempre e a sobrevivência do país a depender dessa decisão única e momentânea. De um lado, o inquilino da Casa Branca, do outro cada um dos cidadãos norte-americanos, isolados e indefesos perante o poder executivo. As discussões passaram a ser nacionais, não mais locais; os problemas tornaram-se genéricos, não específicos. As pessoas preocupam-se com abstracções, não mais com o concreto. Há uma sensação de isolamento crescente que deriva também do desaparecimento da imprensa local, pois as pessoas informam-se através do facebook, ou por via do twitter, e rapidamente ficam a par e se preocupam e se indignam com problemas de outras regiões que não as afectam nem lhes dizem respeito.

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Este problema do afastamento de cada um de nós do que é concreto, do que é o outro, acentuou-se nos últimos dez meses com o teletrabalho e as compras online que se tornaram prática corrente com a pandemia. As compras através de plataformas online aumentaram e vieram comprovar uma tendência que muitos consideram natural e desejável. No entanto, quando a maioria de nós deixar de fazer as suas compras nas lojas de rua e passar a receber os produtos num caixote deixado por alguém que nem sequer vemos, quando essa maioria deixar definitivamente de conversar face a face com os seus colegas, de almoçar ou de beber um copo com eles, essas pessoas perderão a ligação à comunidade, cada um dos membros dessa maioria ficará ainda mais isolada, mais dependente das grandes empresas que chegam ao maior número, do grande poder político que será o presidente na Casa Branca, ou o primeiro-ministro em S. Bento (ou o chefe de Estado em Belém). No entremeio pouco mais haverá.

E quando pouco há, pouco resta. Não de consenso que as democracias fortes não se alimentam de unanimidades, mas de diálogo, de capacidade de escuta, de trabalho em equipa, do que quer que implique algo que não seja definitivo e imediato.

Este afastamento do indivíduo à comunidade, que leva a uma visão da vida a preto e branco, explica a incapacidade, tanto da direita como da esquerda americanas, na construção de uma nova identidade que viesse substituir a derrotada pela luta da igualdade racial. Incapacidade que derivou da fabricação e adesão a outras narrativas que rapidamente se propagaram. Assim, e de acordo com Lind, para a direita a esquerda é toda esta socialista e para a esquerda a direita tornou-se inimiga de visões abstractas de comunidades que a esquerda abraçou, tais como o ser mulher ou ser gay ou transexual, como o ser mulher ou gay ou transexual fosse a única identificação possível num ser humano. Como se uma mulher em São Francisco tenha obrigatoriamente mais em comum com uma outra no Nebraska que com um homem que viva na mesma cidade na Califórnia. Ou um homem heterossexual, casado e com cinco filhos, não possa ter nada que o ligue a outro que seja homossexual, mesmo que vivam na mesma rua. A redução da vida a esta dicotomia, o empobrecimento do que se entende ser uma pessoa, fez o seu caminho nos EUA e já percorre as estradas nas discussões políticas entre nós. As visões do país que vimos nos debates em participaram André Ventura, Marisa Matias, Ana Gomes e João Ferreira são um sinal disso mesmo.

As estas duas crises junta-se a social. São estes cidadãos isolados com pouca ligação às respectivas comunidades, que não sabem sequer que o que lhes soa diferente lhes pode ser familiar, que aderem às organizações mais radicais. São esses cidadãos isolados que, segundo Lind, saem para a rua e acabam por invadir edifícios como o capitólio.

As restantes duas crises que Michael Lind menciona no texto são nossas conhecidas. Com cada vez menos crianças dificilmente o país terá condições para melhorar as condições de vida dos que aqui vivem, menos ainda garantir que os mais velhos beneficiem das reformas que lhes foram prometidas ou que a estrutura do Estado se mantenha. Quebrado o Estado e com o seu presidente (pu primeiro-ministro) sozinho no topo, com pouco ou nada no espaço intermédio, não se augura uma vida fácil para os nossos filhos. A crise económica é fruto da estagnação em que Portugal se encontra há 20 anos. Ao contrário dos EUA, que se queixa de um crescimento que aumentou desigualdades, nós nem isso tivemos. Reduzimo-nos a uma paragem no tempo que é fruto das desigualdades já existentes, nomeadamente no acesso à saúde, que beneficia os que trabalham para o Estado e nas grandes empresas, e na educação cujo sistema obriga a que os mais pobres sejam obrigatoriamente colocados nas escolas com pior ambiente escolar enquanto os mais ricos acedem (de forma gratuita) às melhores escolas patrocinadas pelos que obrigatoriamente contribuem.

Estas crises desmancham comunidades, dão cabo do Estado, criam desconfianças e são o terreno fértil para radicais. É tempo de respirar fundo e abrir os olhos.

P.S.: A suspensão da conta de Donald Trump no Twitter trouxe para cima da mesa o papel das grandes empresas tecnológicas. O Twitter, tal como o Facebook e a Google não são empresas de media, não seguem as regras destas nem os seus códigos deontológicos, mas acabam por assumir, e exercer, um poder editorial que decide o que deve e o que não deve ser publicado. Esta é uma matéria que me interessa particularmente pois os monopólios, quer sejam do Estado ou de grandes empresas, são entraves às liberdades política e económica. Porque o liberalismo assenta mais na livre concorrência que na capacidade das grandes empresas impedirem essa mesma livre concorrência escrevi sobre este tema no Jornal Económico em Março de 2018, assunto a que voltei em Novembro desse mesmo ano, já no Observador.  Ou me engano muito ou o futuro das grandes empresas tecnológicas vai ser decidido brevemente a nível político. Será uma batalha que vale a pena acompanhar.