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1. Uma das maiores vitórias de Donald Trump foi o enviesamento do debate público. Por um lado, através da impressionante indiferença à verdade e aos factos que ele exibe, preferindo apelar às emoções e manipulá-las a seu proveito. Por outro, através da forma hábil como Trump converteu os seus críticos à sua linguagem – o combate político ao agora presidente dos EUA é cada vez mais emocional e menos sustentado. Isso é inquietante – afinal de contas, o ódio (tal como o amor) cega. E, a continuar assim, as emoções tomarão mesmo conta do debate público por inteiro. É isso que Trump pretende e, de certo modo, começa a conseguir: um debate público entrincheirado, a preto e branco, sem zonas cinzentas – ou se está de um lado, ou se está do outro. Tenho inteira consciência de que, para alguém que como eu tem criticado ambos os lados da trincheira, lançar os alertas sobre as áreas cinzentas se torna uma tarefa mais árdua. Há menos gente disposta a ouvir. Mas também por isso acredito que seja mais importante fazê-lo – para normalizar o debate e para lançar um alerta para o qual menos gente estará atenta. É que, sejam elas discutidas ou não, a realidade tem zonas cinzentas. E manter o debate a preto e branco em nada contribui para o esclarecimento.

2a. No caso de Trump, essas zonas cinzentas parecem-me evidentes. Faz sentido apontar Donald Trump como um perigo para a estabilidade da ordem mundial? Absolutamente. Mas é igualmente urgente não permitir que, por via do ódio a Donald Trump, se tolere todo o tipo de abusos sobre o regime democrático. E há gente que tem aproveitado a contestação a Trump para plantar as suas sementes anti-democráticas, seja questionando a legitimidade do regime ou das suas instituições. Dois exemplos que, há uma semana, sobressaíram entre muitos outros: Michael Moore, que discursou contra o Colégio Eleitoral e afirmou rejeitar a validade do resultado eleitoral porque o verdadeiro poder estava ali à sua frente, nas ruas; Boaventura Sousa Santos, que numa entrevista ensaiava argumentos para defender a caducidade do regime democrático. Nenhum dos dois tem os códigos da bomba atómica, é certo. Mas achar que a crescente contestação das instituições democráticas, a propósito da eleição de Donald Trump, não é motivo de preocupação é uma ingenuidade. As ideias perigosas, sobretudo quando não são atempadamente combatidas, têm muita força.

2b. Foi acerca disso que escrevi há 10 dias atrás, nesta minha coluna. E concluí assim, criticando ambos os lados, julgo que sem espaço para equívocos. «Preparemo-nos, pois, que os anos de Trump serão difíceis. Por causa do óbvio – o próprio Trump, cuja visão proteccionista (na economia), distanciamento para com a União Europeia e dúvidas quanto à relevância da NATO imporão consequências imprevisíveis à Europa (e Portugal). E por causa do menos óbvio – a quantidade de inimigos da liberdade que, apropriando-se dos protestos contra Trump, encontrarão novos militantes para as suas ideias revolucionárias. Já há, felizmente, muita gente a levar os perigos de Trump a sério. Mas ainda há, infelizmente, muito pouca gente acordada para os perigos dos seus inimigos.»

3a. Ontem, o Luís Aguiar-Conraria (LA-C) visou-me no seu artigo semanal, reprovando as minhas prioridades na análise ao contexto da tomada de posse de Trump. Diz LA-C que: «confesso que tenho dificuldades em perceber que, perante um presidente do país mais poderoso do mundo — que se comporta como uma criança a responder por twitter a uma actriz; que se comporta como um adolescente preocupado com o tamanho da sua inauguração; que se comporta como um herói de um filme violento, a defender a tortura de prisioneiros —, alguém se lembre de dizer que o perigo para a estabilidade mundial vem de Boaventura Sousa Santos».

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3b. Neste parágrafo que cito, LA-C reduz o meu argumento a uma caricatura e deturpa o significado do meu artigo, ao alegar que, colocados numa balança tanto Trump como Boaventura, eu foco a minha atenção erradamente em Boaventura e não em Donald Trump – desviando as atenções do essencial. Ou seja, para mim “o perigo” viria de Boaventura (e, por exclusão de partes, não do “presidente do país mais poderoso do mundo”). Isso é triplamente falso. Primeiro: não está em causa a pessoa Boaventura Sousa Santos ou a pessoa Michael Moore (os exemplos que usei no artigo em questão), mas sim a disseminação de ideias anti-democráticas em que estas duas personalidades apostam e para as quais vão ganhando mais militantes através da contestação a Donald Trump. Segundo: no artigo, sublinhei que não há lados inocentes e que não basta olhar para os perigos de Trump, importa olhar também para os perigos impostos pelos seus críticos – e, sendo que os perigos de Trump são óbvios, desenvolvi os perigos que considerei menos óbvios, sob forma de alerta. Terceiro: é abusivo considerar, como o raciocínio de LA-C não diz mas deixa no ar, que escrever sobre os críticos de Trump foi a minha forma de relativizar os perigos que Trump representa. Ora, eu já escrevi várias vezes sobre Trump e nunca fui meigo – ainda há três dias o associei a javardices e falei de resistência democrática.

3c. A acusação que LA-C me dirige, e que citei acima, cai portanto na categoria de debate a preto e branco. É que LA-C não discute se tenho ou não razão no alerta que lanço sobre a disseminação crescente de ideias anti-democráticas – talvez, para LA-C, não haja nada de perigoso nas ideias defendidas por Moore, Boaventura e tantos outros que, como eles, disseminam posições anti-liberais e têm influência no pensamento político de milhares de “seguidores”. Afinal, o que para LA-C importou foi a equiparação com Trump e o timing do meu artigo. Só posso depreender que, pelos vistos, neste momento de ânimos acesos, atacar quem critica Trump é, só por si, desviar as atenções sobre o que importa, estar do lado errado e ser merecedor de censura. Obviamente, discordo.

4. Esta posição do LA-C levanta três questões. Primeira questão: as ideias anti-democráticas devem ser denunciadas e combatidas? Eu acho que sim e julgo que, no geral, é fácil atingir um consenso positivo sobre esta matéria. Segunda questão: alegar a falência do regime democrático, questionar a validade de resultados eleitorais e negar a legitimidade das instituições políticas (como o Colégio Eleitoral) são ou não são ideias contrárias à defesa dos valores democráticos? Eu julgo que são – e, creio, a maioria concordará. O que nos leva à terceira questão: se aceitarmos que as ideias anti-democráticas devem ser denunciadas, devemos apenas combatê-las quando surgem do lado dos “adversários”? Isto é, neste caso: só porque essas ideias anti-democráticas vêm da parte de críticos de Trump, deve-se fechar os olhos, levando à letra a regra de que são amigos os inimigos dos nossos inimigos? Responder que sim é conceder legitimidade política à medida das trincheiras e aceitar que se devem tolerar os abusos de uns e não os de outros. Recuso-me a fazer isso. Ora, o artigo do LA-C faz-me duvidar da resposta que ele daria estas questões – o que considero inquietante.

5. Diz ainda o LA-C que «Depois desta semana e meia de Trump no poder, estou curioso para saber se Rui Ramos e Alexandre Homem Cristo ainda mantêm a mesma opinião e se consideram que o perigo tanto vem de Trump como dos seus opositores». Esta curiosidade, que faz o destaque do artigo do LA-C, não tem sustentação. Por mais perigoso que Trump se revele numa semana, num mês ou num ano, isso não anula os perigos que germinam entre alguns dos seus críticos. Mais perigo de um lado não equivale a menos perigo do outro. Infelizmente, não parece ser esse o raciocínio de LA-C no seu artigo: para ele, Trump é tão mau que, neste momento, se tornou ilegítimo destacar os males dos seus críticos. Ora, eu nunca me iludi quanto aos perigos de Trump, pelo que a sua confirmação não me surpreende nem me impressiona. E, claro, não altera nada do que escrevi anteriormente no artigo que o LA-C criticou.

6. A discordância é bem-vinda e faz parte de um debate público saudável. Sobre este tema, tenho sido criticado por quem é pró-Trump e por quem é anti-Trump – o que me parece um óptimo sinal. Neste caso concreto, apenas lamento que, vindo de LA-C (que costumo ler com interesse), a crítica que me é dirigida se limite a recuperar o maniqueísmo da argumentação anti-Trump.