Governo

Revolução Francesa

Autor
  • Diogo Prates
196

Os “coletes amarelos” franceses são o pior inimigo de Costa neste momento. Os portugueses perceberam-no ao compararem o que pagam os franceses pelos combustíveis com o tamanho da nossa carga fiscal.

Qual será o sentimento com que António Costa olha para os protestos dos “coletes amarelos” em França? Depois de quase 4 anos a governar sob uma austeridade disfarçada de reposição de rendimentos, substituindo impostos directos por indirectos, multiplicando as famosas “taxas e taxinhas” e valendo-se de cativações, será possível que o exemplo francês tire os portugueses da letargia habitual e faça eclodir por cá manifestações de dimensões tais que ponham em causa não só a maioria absoluta mas mesmo a vitória nas legislativas de Outubro?

Uma coisa é certa, os “coletes amarelos” franceses são o pior inimigo de Costa neste momento. Os portugueses perceberam ao compararem o que pagam os franceses pelos combustíveis o tamanho da nossa carga fiscal e perguntam-se “se eles ganham mais que nós, pagam menos nos combustíveis e mesmo assim se estão a manifestar desta maneira, o que é que nós estamos a fazer?” Mesmo que não ocorram as mesmas manifestações por cá a verdade é que o mal poderá já estar feito.

Outro dos problemas de Costa são as greves: guardas prisionais, enfermeiros, juízes, médicos, professores, estivadores… o mito que com a esquerda no governo não haveria greves provou ser isso mesmo, um mito. A fábula do “virar da página de austeridade” aumentou a pressão de algumas classes profissionais sobre o Orçamento de Estado, o primeiro-ministro colhe agora o que semeou ao prometer aquilo que manifestamente não pode dar. As falhas do Estado em Pedrogão Grande e Borba e a degradação dos serviços públicos como a saúde e a educação mostraram um país cada vez mais desigual, onde apesar de uma carga fiscal enorme o Estado não garante o mínimo aceitável nos serviços públicos.

A forma como chegou ao poder abriu um precedente, é possível governar sem ser o partido mais votado, a pergunta que se pode fazer, até olhando para o recente exemplo das eleições na Andaluzia, é esta: será possível o PS ganhar as próximas eleições legislativas mas não governar, ou seja, será o bloco PSD/CDS/Aliança/Iniciativa Liberal mais forte que PS/CDU/BE? À primeira vista não será fácil mas pode não ser impossível.

Rui Rio terá nesse cenário um papel fundamental, conseguirá dialogar e entender-se com CDS e outros que porventura consigam assentos no parlamento ou, pelo contrário, dar-se-á por satisfeito por ser vice de Costa? O problema de Rio é este: ao ter feito mais oposição ao governo de Passos Coelho do que ao actual governo de António Costa, tem agora pouca margem para o criticar, provavelmente faria igual ou parecido se estivesse no governo e por isso não aparece como verdadeira alternativa aos olhos do eleitorado.

Quem poderá então liderar o centro-direita? À primeira vista Assunção Cristas e Santana Lopes poderão ter esse papel, o de federar a direita, embora ambos tenham os seus problemas: Santana Lopes já foi primeiro-ministro e a experiência não lhe correu particularmente bem, Cristas foi ministra e o anterior líder do CDS foi vice-primeiro ministro com a pasta da reforma do Estado, se não foram capazes nessa altura de reformar o Estado porque devemos acreditar que agora serão capazes de o fazer?

As recentes trapalhadas para ser simpático, dos deputados com moradas falsas e presenças-fantasma prova que o parlamento precisa de renovação, não apenas de caras mas sobretudo de métodos e de maior transparência. A Iniciativa Liberal resolveu pedir ao Ministério Público que investigue as alegadas fraudes nas votações no parlamento, em comunicado o partido refere: “Não se compreende que se um eleitor tentar votar duas vezes numa votação para a sua Assembleia de Freguesia possa levar até dois anos de prisão, mas que nada aconteça a um deputado que faça o mesmo na Assembleia da República”. É isto que se pede aos novos partidos, que não sejam mais do mesmo e que tenham a capacidade de fiscalizar e implementar novas formas de fazer política.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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