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Os dedos das mãos já não chegam para contar as vezes em que Rui Rio fez questão de frisar que, no cenário pós-eleitoral, privilegiará o interesse nacional em detrimento do interesse partidário. Uma atitude que parece louvável. De facto, todos os interesses partidários só fazem sentido se decorrerem daquele que deverá ser o eixo da roda, ou seja, o interesse coletivo.

Porém, a circunstância em que Portugal vive aconselha a uma reflexão profunda sobre a forma de acautelar o interesse nacional. Na verdade, o país é governado, há quase quatro anos, por uma geringonça conduzida por António Costa. Uma maquineta empurrada pela troika da esquerda e que fez do co-piloto, Mário Centeno, a estrela da companhia.

O ministro de méritos reconhecidos lá fora. Alguém que, internamente, foi apresentado – e se apresentou – como o ministro da retoma e da prosperidade. Mesmo que não se perceba se Centeno é o ministro das Finanças ou apenas o ministro do Orçamento.

Oficialmente não convém chamar à colação o facto de Portugal caminhar para ser o quinto país mais pobre da União Europeia. Afinal, que culpa tem Mário Centeno de outros Estados-membros da comunidade, designadamente a Estónia, a Lituânia, a Eslováquia, a Eslovénia, a República Checa e Malta, terem resolvido crescer economicamente mais do que o previsto!

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Voltando a Rui Rio, parece que ainda não percebeu que a disponibilidade manifestada em nome do interesse nacional está a contribuir para o fragilizar politicamente. Uma fragilização que resulta, desde logo, do desejo publicamente assumido por António Costa sobre o cenário pós-eleitoral. O atual Primeiro-ministro não tem dúvidas. Na ausência de maioria absoluta há que reeditar a geringonça. Mesmo que à custa de mais algumas concessões à CDU e ao Bloco que anda mortinho por se sentar nalgumas cadeiras ministeriais.

Assim sendo, Rui Rio está numa posição semelhante à condição de suplente. Algo que o eleitorado do PSD entende – não é por acaso que o futebol é líder de audiências – mas não aceita. Desde logo porque não concorda que o PSD só seja chamado a jogo se o PS não lograr maioria absoluta e os seus cérebros não tiverem engenho para colocar na estrada a geringonça numa versão revista ou revisitada.

Esse eleitorado, parece que ao contrário do líder do partido, já percebeu que manter António Costa à frente dos destinos do país não serve o interesse nacional. Bem pelo contrário. Um eleitorado que acompanha com estupefação a forma como o Governo socialista prometeu e não cumpriu a contagem integral do tempo dos professores. Ou a atitude, a roçar a arrogância, que tem relativamente aos enfermeiros. Partidos tão propensos a apoiar, ainda que por via sindical, as reivindicações dos trabalhadores não pareceram muito incomodados quando o Governo de António Costa cortou relações com a Ordem dos Enfermeiros e classificou a greve desses profissionais como selvagem. Não restam dúvidas de que o PS sabia o que estava a fazer quando se comprometeu com o PCP a reverter, tanto quanto possível, a TAP e a impedir a privatização dos transportes coletivos de Lisboa e Porto.

Face ao exposto, talvez seja altura de Rui Rio assumir que o interesse nacional só ficará salvaguardado se uma oposição credível mostrar aos portugueses a realidade sem filtros cor-de-rosa. Porém, essa condição necessária não será suficiente. Será preciso dizer claramente aos portugueses que com o PSD no Governo não voltarão a ser chamados a sacrifícios destinados a pagar a incompetência – chamemos-lhe assim – de gestores nomeados pelo Governo e que não se verão confrontados com acordos – como a pseudo regionalização – negociados às escondidas.

Essa sim, é a forma de Rui Rio defender o interesse nacional!

Professor de Ciência Política