Bloco de Esquerda

S. António casamenteiro, casa as bloquistas com a coerência /premium

Autor
  • José Diogo Quintela
1.454

Portugal está habituado à rábula Olívia Patroa & Olívia Costureira interpretada por bloquistas, não precisa de efeitos especiais: como têm gémeas, uma é Mortágua Desbocada, outra Mortágua Censora.

Ó meu rico Santo António
Ó meu santo popular
Leva lá o Bolsonaro, leva lá o Bolsonaro
Para o pé do Salazar

Já todos conhecemos a quadra que as deputadas do BE cantaram no desfile do 25 de Abril. É uma quadra problemática. Mas não por, como tem sido dito, ser uma ameaça de morte a Bolsonaro. Um slogan ensoando numa manifestação não é o mesmo que uma ordem berrada a uma turba, à porta da vítima que se quer executar. Há um contexto. É como quando uma claque imita o silvo de um very light, ou um grupo de jovens canta “e se o João quer ser cá da malta, tem de beber este copo até ao fim”. Nem estão a ameaçar os adeptos rivais de morte, nem vão expulsar o João do grupo apenas por ser um choninhas responsável. São só coisas estúpidas que bandos de jovens cantam em situações que potenciam a parvoíce, como jogos de futebol, saídas à noite e marchas políticas pela liberdade, num país onde já há liberdade e, como tal, se querem sair nos jornais, é melhor dizerem coisas que escandalizem os adultos.

Julgo que já passámos a fase de ter de defender o direito de alguém dizer o que quiser, por mais ofensivo que possa ser considerado por outras pessoas. O que, sinceramente, nem é o caso. Se as bloquistas desejassem mesmo mal a Bolsonaro, não pediam ao santo que o trouxesse morto, pediam era que o trouxesse moribundo, para ser tratado no Serviço Nacional de Saúde no estado em que o Bloco o quer deixar, com atrasos, listas de espera, falta de material e, mais importante, sem privados. No fundo, até foram meigas.

O problema da quadra também não é a incoerência de quem costuma ser tão sensível à linguagem que ainda há um mês fez queixinhas do deputado que afirmou que uma palestra sobre identidade de género era “uma porcaria”, por ser “inaceitável” dizer-se isso, mas que agora acha normal clamar pela morte de alguém. Portugal já está habituado à rábula Olívia Patroa & Olívia Costureira interpretada por bloquistas. Representam-na melhor que ninguém, até por facilidade logística, não precisam de efeitos especiais: como têm gémeas, uma faz de Mortágua Desbocada, a outra de Mortágua Censora. A facilidade com que são sonsas é impressionante. Parece que dizem uma coisa, passam um pano e, zás!, desaparece, como se usassem um produto mágico. Deve ser mortáguarrás. (Peço desculpa, tinha mesmo de escrever isto, o meu distúrbio obsessivo-compulsivo não me permite deixar um trocadilho por fazer).

Portanto, se não é a malvadez, nem a desonestidade intelectual, qual é o problema? É o facto de a quadra ter como objectivo irritar, mas estar tão mal feita que perde o seu potencial insultuoso. Como indivíduo extremamente irritante, com anos de experiência a enraivecer pessoas, permitam-me que aponte os 4 grandes erros da mensagem. Para que, da próxima vez, consigam ser desagradáveis com mais eficácia.

1) “Ó meu rico Santo António”. Começa logo mal. Quando um bloquista se dirige a um rico, as pessoas esperam que seja para o insultar. Se o segundo verso não é “enriqueceste a roubar quem?”, o ouvinte fica confundido e já não presta atenção ao que vem a seguir. Um bloquista nunca pede um favor a um rico, exige-lhe coisas com maus modos. Normalmente, mais impostos. Portanto, não usem “rico” se não for para insultar. Distrai o público.

2) Em termos de equilíbrio interno do BE, não é muito avisado andar a desejar a morte de um estrangeiro. O que é que Mamadou Ba dirá sobre a xenofobia? Há quem defenda que Bolsonaro, por ser Presidente, é um privilegiado, não uma vítima. Mas isso é argumentário heteronormativo caucasiano ocidental, utilizado para escamotear a discriminação. Se é brasileiro, é uma minoria étnica oprimida. Caso haja debate interno no BE, as manas Mortágua perderão com Mamadou Ba. Não por não terem razão, mas por ele ser preto. Está no regulamento. Não alienem apoios no próprio partido.

3) Descer a Av. da Liberdade a comparar Bolsonaro a Salazar não ofende os admiradores de Salazar, ofende as suas vítimas. Bastava perguntar a algumas das pessoas que estavam na marcha se o que passaram no Estado Novo, com Tarrafal, tortura, morte, Guerra Colonial e PIDE, é parecido com o se passa no Brasil. (Pista: não é).
Bolsonaro pode vir a ser um grande torcionário, mas, para já, ainda tem que fazer muita tortura do sono. Cautela com a escala usada nas comparações.

4) A escolha de Santo António, um santo lisboeta, de boas famílias, nascido no centro histórico da moda, denuncia o carácter elitista do Bloco. É o tipo de santo cool com quem as manas Mortágua conviveriam no Lux. Podiam perfeitamente ter escolhido um santo mais suburbano, talvez um operário, para granjear apoio das massas. Mais: interceder junto a Santo António para patrocinar um homicídio é sinal de grande ignorância sobre hagiografia. A especialidade de Santo António não é o assassinato, é o casamento. E, embora o casamento, em certas ocasiões sociais com os sogros, se pareça com a morte, aleija um bocadinho menos. O que não significa que não pudesse ser usado para o mesmo efeito, achincalhar Bolsonaro. Por exemplo, podiam pedir:

Santo António casamenteiro
Casa o Bolsonaro por favor
Mas para vexame verdadeiro
Casa-o antes com um senhor

Ou então:

Santo António de Lisboa
Casa o Bolsonaro, e se der
Faz que seja com uma pessoa
Que lhe faça golden shower

Ia aborrecer mais o Bolsonaro. Não só parece ter repugnância pela homossexualidade, como tem ar de gostar demasiado do seu cabelo para permitir que lhe façam xixi em cima. Resumindo, já que não podem fazer nada quanto à coerência geral do que dizem, pelo menos tenham atenção à coerência interna da mensagem ofensiva.

Enfim, não se pode levar a mal que as bloquistas conheçam pouco sobre Santo António. É sabido que a figura religiosa da sua predilecção é Frei Tomás. Elas também pregam bem e todos devemos fazer como elas dizem, mas não como fazem.

Da próxima vez que gritarem um slogan chocante, já não há desculpas.

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