Painéis, ecrãs, módulos com alavancas, máquinas com lâmpadas e mesas de botões – são estas algumas das peças de mobília de um Museu de Ciência típico, como os que vou conhecendo. Espaços de símbolos e títulos criativos, onde a divulgação do saber científico segue diferentes abordagens, frequentados tanto por miúdos como graúdos. Não obstante, muitas vezes me questiono se o público que os visita estará satisfeito por ter compreendido o processo desencadeado pelo acto de premir um botão ou simplesmente por ter podido premi-lo, e a consequência ter sido uma lâmpada colorida acender-se.

Numa época em que o desenvolvimento tecnológico-científico segue um ritmo alucinante, mesmo sem o desejarmos a informação atropela-nos, dissolvendo-se a nossa atenção numa atmosfera de conteúdos tão profusa quanto confusa. A própria produção desta informação obedece às regras do mercado, tornando-se o seu consumo plastificado e descartável. Privilegiamos os apontamentos curtos, simplificando por isso os factos. E sedentos de informação rápida, deixámos de estar disponíveis para um conhecimento que não se exiba ao alcance de um toque. Enchem-se as nossas cabeças sem que devidamente se arrume todo esse conhecimento, como resultado.

A propósito da tendência para um imediatismo do saber, penso sempre nalguns kits caseiros de experiências. Comparando actividades semelhantes, e ao contrário dos livros de experiências, os kits dispõem os ingredientes sobre a mesa, bastando à criança misturá-los. Caricaturando, utilizá-los lembra a confecção de um desses bolos instantâneos do supermercado. Para mim, no entanto, a etapa que antecede qualquer experimentação, e nesse aspecto que o livro apenas pode sugerir – a procura pela hipótese – pedagogicamente, afigura-se-me indispensável. Nem que a tarefa leve o executante a vasculhar os armários da cozinha em busca de vinagre, fermento para bolos e a encontrar a gaveta com os balões de aniversário.

Este facilitismo de estímulos, sou suspeito, atrofia as autonomias de aprendizagem, sobretudo dos mais novos. Digo-o por observação directa, e em recinto museológico. Aumenta a desatenção e inquietação relativamente ao conhecimento que demora a cimentar, as respostas e perguntas adquirem um carácter aéreo e torna-se indomável a vontade de “premir mais um botão”. O sentido de espera desfaz-se, o que demora a ser explicado passa logo a ser enfadonho e desaparece a capacidade de aguentar um segundo de aborrecimento. Até a curiosidade parece leviana. Pouco se assimila, muito fica colado a cuspo – e a conversa estender-se-á a áreas que não as do saber científico.

Os módulos interactivos dos Museus de Ciência ajudam-nos a perceber o que é a fotossíntese e como as ondas sísmicas se propagam pela litosfera. É graças aos seus “botões” que, muitas vezes, nos aproximamos da explicação, mas o hábito de viver nas pontas dos polegares pode ter-nos afastado dos epicentros do conhecimento, para uma esfera de saberes rápidos e recompensantes. Embora todos nós, por lapso, nos convençamos do contrário, nem sempre as soluções estão à distância de botões… A menos que seja preciso coser um dos que saltou à camisa… Mas esse gesto carece de tempo, concentração e ainda uma linha da cor do tecido.