Política

Saber perder

Autor
  • Diogo Prates

Ao longo do tempo foram muitas as figuras que, apesar de terem perdido eleições, tiveram o seu nome inscrito na História, e talvez o maior exemplo disso seja Winston Churchill.

Vivemos no tempo da glorificação da vitória e do vencedor, o nosso feed do Facebook é constantemente inundado pelos “10 hábitos que tornaram X o melhor CEO do mundo”, os escaparates das livrarias estão repletos de livros que nos tentam ensinar a sermos os melhores, a viver a nossa vida de forma espectacular e ganhar imenso dinheiro, nas redes sociais acompanhamos as celebridades e desejamos ser como elas, ter o que elas têm e levar a vida que levam. O perdedor é o fraco, incompetente, enfim o derrotado. Na sociedade moderna a tolerância ao erro é cada vez menor, cada vez menos sabemos lidar com a frustração da derrota e no entanto ela está presente em muitas situações da nossa vida.

Existem muitos livros que nos tentam ensinar a ganhar mas muito poucos que nos ensinem a perder e a lidar com a frustração que isso acarreta e suspeito que perdemos mais vezes ao longo da vida do que aquelas que ganhamos. Um médico perde muitas vezes, tanto no serviço de urgência quando apesar de todos os esforços o doente não sobrevive como no consultório quando, por mais que aconselhe o paciente a mudar determinado estilo de vida. o doente não acata. Perder faz parte do jogo e deveria ser tão valorizado como ganhar, perder é tão digno como ganhar.

É por isso que sempre me causou estranheza esta valorização da “habilidade política” de António Costa que soube transformar a derrota em vitória e governar com o apoio de partidos que sempre criticou. António Costa perdeu as eleições, isto é factual e não muda apesar de hoje ser primeiro-ministro, por mais expedientes que se tentem encontrar. A sua pretensa “habilidade politica” mais não é do que perguntar ao BE e PCP o que precisam para aprovarem os orçamentos de Estado de forma a se manter como PM.

Aparentemente Costa tem em Pedro Sánchez um discípulo desta forma de fazer politica: também ele que não ganhou eleições mas pode apresentar uma moção de censura ao governo de Mariano Rajoy que só foi aprovada porque tanto os independentistas como o Podemos votaram a favor, fazendo assim de Sánchez Presidente do governo espanhol. Naturalmente Sánchez está agora nas mãos destes partidos, tornou-se Presidente sim mas a que custo?

Não seria tão digno sair depois de perder ou esperar por eleições para ganhar? Deixar o povo votar e escolher traz sempre incerteza mas é um conceito básico de democracia, ao passo que esta nova escola de ganhar a qualquer custo suspeito que não trará bons resultados.

Também no desporto esta intolerância para com a derrota é bem patente pois são poucos os treinadores dos três grandes que aguentam o lugar quando o seu clube não é campeão. Preferimos os resultados a curto prazo a uma visão a longo prazo. A actual “novela” de Bruno de Carvalho é outro triste exemplo de alguém com dificuldade nítida em assumir que perdeu.

Ao longo do tempo foram muitas as figuras que, apesar de terem perdido eleições, tiveram o seu nome inscrito na História, e talvez o maior exemplo disso seja Winston Churchill que, depois de ganhar a guerra, perdeu as eleições para Clement Attlee para mais tarde voltar a ganhá-las.

É natural que qualquer político, e sobretudo aqueles que são líderes dos maiores partidos, ambicionem chegar ao cargo de PM. O que já não é tão compreensível é que todo o seu projecto de vida gire em torno desta possibilidade.

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