Nos últimos tempos a imprensa tem dado eco da invocação do meu nome em vários fóruns, dentro e fora do CDS, partido onde militei e onde fundei uma corrente de opinião.

No penúltimo Conselho Nacional deste partido, o líder parlamentar Telmo Correia mencionou-me na sua intervenção por ter ido para o Chega e para justificar a perda de apoio do atual líder do CDS, decorrente dessa minha opção.

Há uma semana numa entrevista ao Observador, à pergunta que foi enunciada ao presidente do CDS relativamente à minha saída do partido, este reagiu como positiva à desfiliação de todos que manifestassem “fanatismos ideológicos”.

Também num artigo de opinião, publicado há poucos dias no Observador “CDS: ensaios sobre uma crise-proveta”, um vogal da Comissão Política Nacional do CDS: Pedro Rebelo Tavares, fez alusão à minha recente militância noutro partido.

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Tanto estrépito justifica-se não pela importância que me possam atribuir porque objetivamente não a tenho, mas pelo pânico de ver que há cada vez mais quadros a sair do CDS para o Chega.

Mas serão estes quadros, pessoas fanáticas, insurretas, antidemocráticas e indesejáveis como o líder do CDS quer fazer passar?

Com certeza que se tivessem essa índole não teriam assumido dentro do CDS lugares de direção, quer ao nível nacional quer ao nível local, alguns dos quais foram apoiantes do atual presidente do partido e ele nunca os enjeitou e, sobretudo, não declinou o apoio deles no último congresso que muito ajudaram à sua vitória.

Desde que aceitei o convite de André Ventura para o acompanhar na manifestação contra o racismo, passei a ser um alvo a abater por alguns “intelectuais“ do CDS, designadamente pela sua ala mais liberal, refiro-me concretamente a Francisco Mendes da Silva, muito privado de Adolfo Mesquita Nunes, que chegou a escrever em agosto deste ano um artigo no Jornal de Negócios: “Homens do Povo“, a criticar com ferocidade inusitada, a minha participação nesse evento e o meu alinhamento com o Chega.

Quero aqui fazer uma declaração de interesses: sou um democrata cristão e um humanista e jamais me associaria a uma força política distante ou contrária a estes pensamentos, mas já agora pergunto se o atual CDS tem autoridade moral para se afirmar democrata cristão e humanista?

Os mesmos que agora apedrejam o partido de Ventura e que o acusam de extremista, aplaudiram Paulo Portas quando ele disse que o RSI era um “financiamento à preguiça” e aclamaram-no quando ele cortou 2200 milhões de euros em pensões e o Complemento Solidário para Idosos a 237 mil beneficiários.

Estou à vontade para falar destes temas porque enquanto militei no CDS sempre denunciei e me opus a uma política avessa à Justiça Social que Paulo Portas obliterou por mero oportunismo político.

Não vejo autoridade, coerência ou carácter naqueles que agora criticam os que legitimamente escolhem outros caminhos políticos e, sobretudo, mantêm intacta a sua linha de pensamento e de ação.

Coerência de linha de pensamento e de ação que o atual CDS deixou de seguir há muito tempo.

A crise social que hoje vivemos muito se ficou a dever ao CDS de Paulo Portas e de Assunção Cristas, que Francisco Rodrigues dos Santos e Adolfo Mesquita Nunes ovacionaram freneticamente.

Na política não vale tudo e o exemplo que o CDS dá vai carburando aqueles que já não se identificam com o discurso inane e contraditório de um partido que luta pela sobrevivência de egos e de lugares irremediavelmente perdidos num ocaso tenebroso.