No último ano, guardei uma boa parte do meu tempo livre para ler alguma da vastíssima literatura em torno das alterações climáticas, ou, como normalmente se diz, em torno do “aquecimento global”. Não certamente para formar uma opinião sólida sobre a questão. Salta aos olhos, para quem se aventure a essas leituras, que a complexidade da questão não permite nem sequer a quem é especialista decisões fáceis. Mas para avaliar os termos da discussão, pesar o que se diz e como é dito. Isso é lícito e não revela pretensões desmesuradas.

Há, de resto, inúmeros estudos que procuram determinar as características mais gerais das controvérsias científicas e filosóficas, bem como as diferenças entre elas. Fernando Gil, entre outros, dedicou-se a tais análises. Diferentemente das controvérsias filosóficas, que, pela natureza dos seus objectos, são em grande parte indecidíveis (não se concluem com a adopção de uma posição comum apoiada em provas de valor variável mas efectivo), as controvérsias científicas tendem naturalmente para um fim onde se alcança alguma estabilidade no conhecimento. Os argumentos que se esgrimem podem (é verdade que em alguns casos, como a selecção natural darwiniana, por razões muito específicas, com dificuldade e muita incerteza pelo meio) ser testados e avaliados. E as controvérsias científicas são até um dos factores mais decisivos e indispensáveis no progresso do conhecimento.

Não há, é verdade, controvérsias científicas puras. Todas elas, mesmo as mais exigentes, se dão em contextos que as infiltram, entre outras coisas, de uma passionalidade que o recurso a uma certa retórica exibe plenamente. Mas, regra geral, essa “impureza” não impede a objectividade, a busca de uma universalidade objectiva, nas suas conclusões. Há certamente vários argumentos, que os estudos no campo da sociologia da ciência põem em relevo, normalmente exagerando-os, que tendem a acentuar, por exemplo, a luta pelo poder no interior da comunidade científica. Mas tais aspectos, que é legítimo apontar, raramente afectam o núcleo da controvérsia ou constituem uma ameaça maior para a adopção de uma conclusão falível e provisória mas objectivamente determinada.

A controvérsia sobre o chamado aquecimento global parece ser, sob muitos aspectos, uma excepção. Desde logo porque nela a dimensão científica e a dimensão política quase se confundem. E à dificuldade em testar as hipóteses de forma aproximadamente conclusiva acrescenta-se uma passionalidade extrema que vicia a discussão de forma muito notória. Simplificando, sem dúvida: a busca de provas, que é o que se almeja através do teste das hipóteses, vê-se em larga medida desviada do seu curso normal pela intrusão de um tecido de argumentações investidas de um significado político e ideológico que em nada é ditado pela busca da verdade. Melhor: que é de si insusceptível de contribuir para tal busca, já que tais argumentações são importadas de lugares (a política, e até a ética) onde as doutrinas não podem ser avaliadas como verdadeiras ou falsas. Como preferíveis ou indesejáveis, certamente, mas sem que a preferência ou a indesejabilidade sejam capazes de se constituírem sob o modo de uma universalidade objectiva.

Na controvérsia sobre o “aquecimento global”, isso é patente desde o início, e tornou-se inevitável, porque institucionalizado, desde a criação, em 1988, sob os auspícios das Nações Unidas, do IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change). Como o próprio nome o indica, trata-se de uma organização política que mobiliza um número significativo de cientistas de várias áreas que produzem com regularidade relatórios que visam determinar as políticas governamentais. Não quero discutir a legitimidade de tal instituição, apenas indicar que, do ponto de vista da investigação científica enquanto tal, há algo de anómalo nela e nos efeitos que produz. Anómalo porque a subordinação da investigação científica a uma entidade com fins políticos (a determinação das políticas governamentais) é já de si problemática. Dir-se-á que há vários outros casos assim. Talvez. Mas duvido grandemente que com idêntico alcance. E anómalo também pelo poder de que a instituição é investida e pelas práticas a que o exercício desse poder fatalmente conduz.

Exemplos? A demonização de quem propõe hipóteses alternativas para explicar as alterações climatéricas ou a sua origem, eventualmente não antropogénica, muitas vezes gente que, tendo trabalhado para o IPCC, discordou do modo como o seu trabalho foi aproveitado no sentido de inclinar a apresentação dos seus resultados da forma mais conveniente aos pressupostos políticos que presidem ao IPCC. São por isso muitos os cientistas de relevo que abandonaram a colaboração com a organização. A demonização adopta várias formas, sendo a mais comum a atribuição a tais cientistas de motivos dúbios resultantes de reais ou imaginárias (imaginárias em muitos casos) colaborações com empresas que veriam os seus interesses ameaçados pelas políticas propostas pelo IPCC. Os ataques ad hominem tornaram-se o pão nosso de cada dia.

A convicção de justeza política e o sentimento de poder conduzem igualmente a várias patologias secundárias. Como, por exemplo, a liberdade tomada na manipulação dos resultados, facilitada pelo facto de, dada a natureza do problema estudado, o recurso a modelos eminentemente problemáticos ser obrigatória. Dois casos ficaram célebres. O primeiro é o de um grafo, elaborado por Michael E. Mann em 1999, em que todas as doutrinas que a paleoclimatologia estabelecera sobre a existência de um “período quente medieval” (do séc. XI ao séc. XIV) e da “pequena idade do gelo” (do séc. XIV ao séc. XIX) se vêem recusadas em benefício de um modelo que decreta uma quase uniformidade constante das temperaturas desde o ano mil, que termina com uma colossal elevação nos últimos 150 anos (daí o nome de “stick de hockey” dado ao grafo). (A propósito: sobre o “período medieval quente” e a “pequena idade de gelo”, quem estiver interessado pode ler dois maravilhosos livros de Brian Fagan: The Long Summer, que tem um escopo mais vasto, e The Little Ice Age.) Acontece que o grafo de Mann foi produzido introduzindo um modelo que conduziria, quaisquer que fossem os dados utilizados, a esse resultado. O IPCC utilizou-o abundantemente, dando-lhe uma posição de relevo. O outro é o chamado “Climategate”, onde a divulgação de vários mails provenientes de uma unidade de investigação da Universidade de East Anglia mostrou o inacreditável grau de manipulação a que os resultados eram submetidos para parecerem revelar concordância com as versões mais radicais das alterações climáticas propostas pelo IPCC.

A fraude em ciência é uma matéria largamente estudada e nada há de particularmente original naquela que se observa no IPCC. O que há de original é o extraordinário investimento passional que a ela preside e a fantástica cobertura mediática de que beneficia (o jornalismo abre-lhe por inteiro os braços), e a que dão corpo personagens como o sintomaticamente horrível Al Gore (o formidável exercício de narcisismo e de manipulação de imagens, como a do urso polar, do seu primeiro filme, Uma verdade inconveniente, é um dos mais tristes espectáculos a ver.) Esse investimento traduz-se em proclamações sucessivas segundo as quais a última probabilidade de “salvar o mundo” se mede em poucos anos sistematicamente alterados a cada nova intervenção.

Não pretendo com tudo isto, que é uma ínfima parcela do que haveria para dizer sobre esta tão poluída controvérsia, insinuar que as alterações climáticas não existam e não sejam um problema ou que não haja, pelo menos parcialmente, razões humanas, para elas. Pelo contrário: do fundo da minha ignorância, se fosse obrigado a emitir uma opinião na matéria, diria que sim a tudo, ou quase. Quero apenas dizer que o velho preceito aristotélico segundo o qual em matérias onde não há demonstração conclusiva é recomendável seguir as opiniões dos mais velhos e dos mais sábios não parece aqui aplicar-se sem reservas. Se os mais sábios são gente como esta, não são de confiar. Não vale tudo e a probidade científica é um valor a defender. Até porque neste aspecto, é quase indistinguível da defesa da democracia. O apelo a um governo global que resolva estes problemas observa-se amiúde. E amiúde se ouve falar da China como exemplo, por oposição à democracia americana. E não, não são só George Monbiot ou Naomi Klein que têm sonhos deste tipo. É também gente na aparência mais pacata.