O artigo que se segue contém grandes doses de generalização, sendo capaz de ferir as suscetibilidades do leitor mais sensível, o que basicamente significa que sou demasiado preguiçoso para adicionar a expressão “salvo raras exceções” após cada afirmação. Posto isto, sinto-me protegido o suficiente para começar.

Quando o assunto é a distância entre os jovens e a política, normalmente, a discussão centra-se nos jovens. Um lado defende que são, simplesmente, desinteressados ou, noutras palavras e num belo eufemismo, que têm prioridades diferentes, que é o mesmo que dizer que se estão a marimbar, tendo este lado da barricada as recentes taxas de abstenção juvenil como principal arma de arremesso. Já o lado oposto considera que o problema está no sistema e que esta geração, a mais qualificada de sempre, encontrou noutros campos da sociedade a sua forma de se manifestar e contribuir enquanto cidadão. Bem, perante estas duas perspetivas, o que eu proponho é o seguinte: não importa. Ou melhor, não importa muito. Aliás, não importa muito para já.

O verdadeiro problema que se levanta na relação entre os jovens e a política não é a escassez em número, é a escassez em competência. Não que o número de jovens envolvidos não seja baixo, não reconhecer isso requer um otimismo admirável (ou inocente), mas porque aqueles que são politicamente ativos (jovens e menos jovens) não inspiram ninguém, fazem da atividade política algo obsoleto e entediante e não nos convencem de que a meritocracia é mais do que uma palavra bonita. Mudar isto poderia – deveria, pelo menos – ser fácil, contudo, o sistema (partidário, para lhe dar um nome) não é assim tão transparente e enquanto assim for de nada serve apurar o quão afastados os jovens estão da política, pois tudo permanecerá como está.

Começando pela ausência de credibilidade do sistema político — não porque tenho algo de novo a acrescentar, mas porque é o primeiro obstáculo à participação jovem –, qualquer um que em tenra idade goste de ser opinativo pondera em algum momento juntar-se a um partido político. Ainda assim, a carga pejorativa que a palavra “partido” ganhou na sociedade põe desde logo essa vontade de mudar o mundo à prova e, geralmente, vence. Para além da opinião popular, se considerarmos também a infinidade de formas de se ser interventivo atualmente, a pergunta mais óbvia seria até: «Porque é que ainda há jovens a envolver-se na política?». Ou a causa pública lhes diz muito, ou então precisam disso. Uma das razões é mais frequente do que a outra.

Se, mesmo com todos os estigmas associados ao aparelho partidário, um jovem ainda assim se aventura no meio político, nesse caso desiste porque, mais tarde ou mais cedo, chega à conclusão de que não está lá a fazer nada, que as suas boas intenções não chegam, que as suas ideias não interessam e que se o seu perfil não for o “indicado” não tem grandes hipóteses de ser bem-sucedido no ramo. O debate, quando existe, é feito numa lógica clubística e com uma visão a curto prazo (acompanhando o ciclo eleitoral), as ditas “iniciativas” – sejam conferências, congressos ou comícios – são mais repetitivas do que qualquer filme de domingo à tarde e o ambiente em que se vive funciona como uma bolha, que impossibilita os envolvidos de ter uma perceção real do país e, por consequência, dos verdadeiros problemas da sociedade.

O resultado prático é uma classe política pouco respeitada pela população, que parece distante da realidade nacional e que não governa em prol de ninguém senão dos próprios, sendo esse o principal motivo do afastamento: a sociedade não reconhece valor aos que decidem fazer de tudo isto carreira. E se esse é o tal perfil promovido, para quê participar?

No fundo, enquanto o sistema não promover a competência, em detrimento da influência, não defender ideias, em vez da cor partidária e não colocar a transparência como valor prioritário, os jovens, os que interessam, os que o fariam com sentido de missão, os de hoje e os próximos, não se vão envolver. Porquê? Porque, se não for para isso, têm mais que fazer.

Essa mudança, no entanto, não se prevê para breve, já que, convenhamos, não interessa aos atuais dirigentes políticos que os melhores se envolvam na política, porque a verdade é que, se os melhores da sua geração o tivessem feito, eles não estariam lá. Vá, salvo raras exceções.

Estudante de Economia na CPBS