À hora a que escrevo (todos os artigos que falam do aquecimento global devem começar com um “à hora a que escrevo”, não vá o mundo entretanto acabar, deixando o texto desactualizado), não sei quando está prevista a chegada de Greta Thunberg à Doca de Santo Amaro. Como os utentes da Transtejo bem sabem, é muito difícil acertar no horário dos barcos em Lisboa. No entanto, a expectativa é grande. Desde que, em 1173, D. Afonso Henriques transladou o corpo de São Vicente, de Sagres para a capital, que a chegada a Lisboa de um barco com um santo não causa tanta comoção.

Esperam-se milhares de pessoas na recepção à jovem ambientalista sueca. Como não podia deixar de ser, serei uma delas. Vou levar o meu frigorífico, que já é velhinho e não anda a funcionar bem. Tem perdas de frio que o tornam pouco eficiente em termos energéticos. Quero ver se Greta lhe toca, para o electrodoméstico voltar a ter a classe A+. Se não der, que pelo menos lhe dê uma mirada, nem que seja ao longe. Deve ser suficiente para uma classe B.

Entretanto, Greta recusou o convite para ir à Assembleia da República. O que se percebe. Se eu estivesse convencido que o mundo ia acabar em 10 anos, também não ia perder tempo a visitar um Parlamento tão pouco interessante que os próprios deputados inventam desculpas para se baldarem. Mas é pena Greta ter vindo agora. Bastava esperar seis meses, para, conforme as profecias, as águas do Tejo subirem e o cais passar a ser a meio da escadaria do Palácio ade São Bento. Aí, seria difícil escapar-se. Para o vexame dos deputados não ser maior, proponho que alguém do PSD marque a presença da jovem sueca na sessão parlamentar, apesar de não ter lá posto os pés. Fica para a, digamos, imposteridade. Tomo nota que que os partidos têm mais interesse numa suposta extinção em massa do que na comprovada extinção da massa. Pelo menos, não foram anfitriães tão simpáticos quando chegou a troika.

Mas tenho pena que Greta não vá a AR ouvir os nossos deputados. Tenho pena, sobretudo, que não ouça Joacine Katar Moreira. Estou muito curioso por ouvir a opinião de Joacine sobre este tema. Ou muito me engano, ou está aqui mais um motivo de discórdia com o partido. Por um lado, o Livre é super-ecologista e advoga uma redução drástica de emissões de CO2; por outro, Joacine nasceu na Guiné, um país muito pobre a quem dava jeito um aumento de consumo energético baseado na queima de combustíveis fósseis, para ver se começa a sair da miséria a que o uso de energias renováveis (fogueiras dentro de casa, alimentadas com a biodegradável lenha e o sustentável estrume) o remete. Gosta de a ver mandar a Greta dar uma volta. Ia ser preciso um esquadrão de GNR a cavalo para proteger Joacine das perguntas dos jornalistas.

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