Catalunha

Se fosse um referendo, o separatismo teria perdido

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Se a eleição de ontem tivesse sido um referendo, os separatistas teriam perdido (51,75% contra 48,26%). A maioria dos habitantes da Catalunha não deseja a independência.

Se a questão catalã tivesse apenas a ver com a hipótese de surgir um terceiro Estado na Península Ibérica, poderíamos talvez acompanhá-la de longe. Mas a Catalunha representa muito mais: diz respeito à possibilidade de a vaga de democratização das décadas de 70 e de 80, de que Portugal fez parte, poder ser revertida. Os regimes democráticos então criados no sul e no leste da Europa, e entretanto integrados na UE, estão hoje sob pressão dos nacionalismos a leste e dos radicalismos a sul. Na Catalunha, actuam as duas tenazes simultaneamente: a esquerda radical e a direita nacionalista, unidas numa sucessão de farsas eleitorais e parlamentares, como o referendo de 1 de Outubro e a proclamação da república. A Catalunha, neste momento, é o laboratório europeu dos “movimentos anti-sistema”.

É desse ponto de vista que devemos examinar as eleições autonómicas de ontem. Quem ganhou, quem perdeu? Os não-separatistas tiveram a maioria de votos, mas os separatistas, graças a um sistema eleitoral enviesado, conseguiram a maioria de lugares no parlamento. Um partido constitucionalista, o Ciudadanos, ficou à frente, mas os partidos separatistas podem formar governo. Tudo na mesma? Não.

Ao participar nas eleições, os separatistas renunciaram ao seu maior argumento: afinal, a Catalunha não geme sob uma ditadura, mas faz parte de um Estado livre e democrático. O processo de ruptura unilateral não era o modo de os separatistas compensarem o carácter autoritário do Estado espanhol, mas a falta de uma maioria e de um consenso na Catalunha a favor da separação. O que lhes correu mal? Duas coisas.

Em primeiro lugar, os líderes do PP e do PSOE mostraram, contra o golpismo separatista, a mesma firmeza que os seus antecessores à direita e à esquerda, nos primórdios da transição democrática, tinham mostrado em 1981 contra o golpismo franquista. Durante um ano, Pedro Sanchez, o líder do PSOE, foi atraído para uma ruptura com o regime da transição democrática. Era essa a verdadeira aposta do separatismo catalão, tal como do radicalismo espanhol: dividir o constitucionalismo, arrastando os socialistas para geringonças em Madrid e em Barcelona. Mas a esquerda democrática espanhola não pactuou com os inimigos da transição, e esteve com Mariano Rajoy no uso dos meios constitucionais para prevenir o golpismo na Catalunha.

Em segundo lugar, a resistência da direita e da esquerda constitucionalistas inspirou uma forte reacção popular, na rua e nas urnas. Durante anos, o partido da antiga CiU explorou a abstenção nas eleições autonómicas, que não interessavam a quem não era catalanista, para governar e “catalanizar” a Catalunha. Desta vez, tal como em 2015, não foi assim. Se a eleição de ontem tivesse sido um referendo, os separatistas teriam perdido (51,75% contra 48,26%). A maioria dos habitantes da Catalunha não deseja a independência.

Vai ser por isso difícil aos separatistas retomar o mesmo processo golpista que estavam a seguir para tomar o poder na Catalunha. Mesmo no parlamento, recuaram, com menos dois deputados. Está então tudo resolvido? Não. Os separatistas –PDeCAT, ERC, CUP — unir-se-ão talvez para governar ou para impedir que haja governo. Até quando conseguirá o regime em Espanha gerir uma instabilidade permanente na Catalunha? E acima de tudo: até quando vão PP e PSOE manter-se unidos contra o separatismo? É a questão fundamental. Os socialistas voltarão quase de certeza a ser tentados, em Madrid e em Barcelona, por um regresso ao poder facilitado pelos movimentos anti-sistema, em nome da oposição “progressista” ao PP. A democracia dependeu sempre, em todo o lado, de os partidos democráticos se não esquecerem de que, antes de serem de direita ou de esquerda, são partidos da democracia. Veremos o que acontece.

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