Pois é. Se os americanos tivessem a sorte de serem servidos por forças de segurança do calibre das nossas PSP e GNR, John F. Kennedy ainda andava por aí, com os seus 103 anos, a assediar senhoras. Alguma vez, se fossem a PSP e a GNR a proteger o cortejo presidencial em Dallas, em 1963, o Lee Harvey Oswald teria assassinado o Kennedy? Nem pensar. O único momento de violência que podia ter ocorrido naquele dia era entre polícias da PSP e militares da GNR, para verem quem é que escoltava melhor o Presidente. Esta é a minha convicção profunda, depois de assistir à contenda entre as duas forças de segurança para verem quem escoltava as vacinas da COVID de Beja para o Algarve. Quem briga assim por causa de uma escolta a ácido nucleico de molho numa solução aquosa, estaria disposto a tudo para proteger um estadista de renome.

Impressionante, o zelo de PSP e GNR no transporte das vacinas da COVID. A coisa esteve mesmo feia, com elementos de um e outro lado quase a chegarem a vias de facto:

Agente da PSP: Tenha paciência, senhor guarda, mas eu é que levo as vacinas.
Militar da GNR: Lamento, senhor agente, mas o transporte das vacinas é minha responsabilidade.
Agente da PSP: Não, senhor guarda, leva a PSP as vacinas, porque os pirilampos das nossas viaturas emitem uma luz muita mais consentânea com as iluminações da quadra natalícia que estamos a atravessar.
Militar da GNR: Ó senhor agente, mas, em contrapartida, se escutar com atenção o som das sirenes dos nossos veículos perceberá que produzem uma melodia muito semelhante ao Jingle Bells.
Agente da PSP: Então, nesse caso, sugiro o seguinte: vocês desligam os pirilampos das vossas viaturas…
Militar da GNR: E vocês desligam as vossas sirenes.
Agente da PSP e Militar da GNR, em uníssono: Cada um de nós dá uma mão à vacina e vamos todos juntos passear até ao Algarve! Iupi!

Quem, comprovadamente, não acerta uma é o Ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita. No caso da morte de Ihor Homeniuk, no Aeroporto de Lisboa, ninguém das forças de segurança sob a sua alçada quer assumir responsabilidades. Agora, no caso do transporte das vacinas, demasiados elementos das forças de segurança sob a sua alçada querem assumir responsabilidades. Não me admiraria nada se, em sua defesa, o Ministro vier alegar que, em média, as forças de segurança sob a sua alçada têm actuado até muito razoavelmente. Mas atenção. No caso do transporte das vacinas, longe de mim condenar os profissionais da PSP e da GNR. Eu, se fosse agente da autoridade, também trocava, de caras, andar a correr atrás de bandidos por conduzir ao lado de vacinas.

Bom, mas o que importa é que o plano de vacinação já está a decorrer em Portugal desde Domingo. E quem estreou a vacina foi o Dr. António Sarmento, médico do Hospital de São João. Para quem não teve oportunidade de seguir o momento da vacinação do Dr. Sarmento através de uma das inúmeras televisões que o transmitiram, em directo, posso dizer que, em termos de pompa, foi um acontecimento que deixou a milhas qualquer cerimónia de abertura de Jogos Olímpicos, ou até a chegada do Homem à Lua. E não é caso para menos. Afinal, o que é correr os 100 metros abaixo dos 10 segundos, ou mesmo fazer uma alunagem, ao pé de espetar, com total sucesso, uma agulha no braço de um indivíduo? Rigorosamente nada.

Para ser sincero, a mim, a cerimónia de administração da primeira vacina da COVID em Portugal fez-me lembrar o Show das Aves do Jardim Zoológico de Lisboa. À hora designada, as pessoas juntaram-se em torno do local da exibição. Nisto, chega, não uma arara-escarlate, mas o Dr. Sarmento. O Dr. Sarmento tira a camisa e exibe, não uma colorida plumagem, mas uma mal semeada pilosidade. Em lugar de um tratador, chega uma enfermeira. A enfermeira dá, não alpista, mas a vacina ao Doutor. Findos estes os dois espectáculos, ficamos todos a pensar: “Eh pá, mas para que é que perdi tempo a ver isto? Trata-se de pássaros a voar e a comer, e é um senhor sexagenário a levar uma injecção”.

E era isto. Ah, é verdade. O ano está a acabar e esta é a última crónica de 2020. Momento, então, para um balanço. Portanto, 2020 começou e logo a seguir veio a COVID. Nisto meteu-se o Natal e chegou a vacina. Fim.