“O Mestre disse: ‘Os Zhou observaram as duas dinastias precedentes. Quão esplêndida não foi a sua cultura? Sigo os Zhou!’” Analectos 3, 14

Esta curta declaração encerra um dos elementos mais fundamentais da cultura chinesa: o seu sentido histórico. Confúcio (孔子, 551—479 a.C.) atribui o bom governo — isto é a cultura esplêndida — da dinastia Zhou, à sua capacidade de adotar o que as duas dinastias precedentes, os Xia e os Shang, tiveram de bom, ao mesmo tempo que reflexão cuidadosa sobre os seus erros permitiu aos Zhou não os repetir.

A este sentido histórico, a esta capacidade de autorreflexão, que, não obstante alguns desvios, permeia a sociedade chinesa e que os governos pós o muito mau Mao fizeram seu, se pode atribuir uma caraterística da China contemporânea que deixa perplexos alguns observadores ocidentais: a sua perene chinesice. O sentido histórico que existe na China (e também no Japão) reforça a sua identidade nacional ao mesmo tempo que a impulsiona a adotar, discricionariamente, ideias e métodos de outras culturas.

Por isso, por muito que a China adote tecnologias modernas e modernize os seus modelos de gestão, permitindo-lhe gozar as vantagens que essa modernização lhe traz, será sempre uma China muito chinesa, muito consciente da sua identidade, e que manterá os elementos fundamentais da sua cultura, isto é, a sua maneira de ver o mundo e de ordenar as relações sociais. Ninguém espere para breve a equiparação legal ou social de uniões monosexuais com o casamento, ou a legalização da eutanásia na China. E ninguém se esqueça de como todos os governos chineses até aos Qing (1644—1911) viram os outros países: como estados tributários.

O que sugere uma questão para os locais: não será que há falta de reflexão histórica em Portugal, necessária para manter o país como uma entidade política autónoma e dinâmica? Não será que Costa faria bem em refletir sobre o que de bom houve em Passos Coelho e Sócrates, para os imitar, e de mau neles, para o evitar? E que tal a Terceira República fazer um exercício sério de reflexão, sem as mistificações e hagiografias do costume, sobre o que aconteceu na Segunda e Primeira? Será que em Portugal não devíamos “seguir os Zhou”?

Professor de Finanças, AESE Business School