Independentemente de todos os argumentos que se possam considerar, os dados são evidentes. A tão falada segunda vaga chegou, tempestuosa, e com um dramático aumento do número de contaminados e um forte crescimento da pressão sobre a capacidade de resposta do Serviço Nacional de Saúde.

Não cabe aqui discutir se a antecipação desta pré-anunciada segunda vaga foi feita da melhor forma, se a capacidade de resposta deveria ser coordenada por todo o sistema de saúde a operar em Portugal (e não apenas pelo SNS) ou se a administração (mas não só) se colocou, durante os meses de verão, na pele da cigarra, da célebre fábula que tem a formiga a contracenar consigo. Não obstante a eventual assunção de responsabilidades e dos erros de cálculo que tenham sido eventualmente cometidos, o mal está feito e temos de viver com as respetivas consequências.

As medidas anunciadas nos últimos dias, limitadoras de liberdade de ação e movimentação, mesmo que devidamente excecionadas, vão impactar fortemente na nossa vida diária e na capacidade de atuação de inúmeras empresas, muito em especial na esfera comercial, e vão interferir no nosso consumo: o que consumimos, onde consumimos, quanto consumimos ou como compramos o que vamos consumir.

Tendo falhado o quadro preventivo, o que em abono da verdade não ocorreu apenas em Portugal, saúde e economia assemelham-se, nesta altura, a um cobertor curto, em que cobrindo os pés, destapamos a cabeça e vice-versa. E não há, seguramente, medidas corretivas perfeitas. Há apenas as medidas aparentemente possíveis.

O que parece óbvio é que estas medidas, mais agressivas ou mais permissivas, equivalem sempre a uma segunda machadada na confiança dos cidadãos, das empresas e dos consumidores, que terá consequências imediatas, por exemplo, na possibilidade de a quadra natalícia permitir alguma compensação para o ano desastroso que grande parte do comércio e que o canal HoReCa viveram, mas também consequências no futuro próximo do país e dos portugueses.

Estas medidas significarão o colocar de um pé sobre a cabeça de muitos restaurantes e lojas que nos meses mais recentes se mantinham, até à boca, debaixo de água. E muitos vão definitivamente afogar-se.

Estas medidas significarão que muitos postos de trabalho vão desaparecer, muitas empresas vão fechar ou reduzir as suas estruturas, muitas famílias vão ver os seus rendimentos diminuir fortemente e uma parte delas irá atravessar momentos dramáticos. E justificarão a necessidade de reforçar os apoios sociais e de aumentar os movimentos de solidariedade, uma vez que crescerá uma maior dificuldade em encontrar trabalho por parte dos que agora se verão a contas com uma situação de desemprego.

Para muitas famílias, este será o segundo choque frontal com uma realidade muito adversa no espaço de menos de uma década. Para o país, esta será uma razão adicional para se afundar ainda mais na cauda da Europa, pois como facilmente se percebe, Portugal, ao contrário de outros parceiros da União Europeia, não tem meios para acudir a todos os fogos, principalmente num quadro em que a despesa (na saúde ou na segurança social, por exemplo) não cessará de aumentar, enquanto a arrecadação fiscal – em sede de IVA, de IRS ou de contribuições para a Segurança Social – não parará de quebrar.

É por isso que, mesmo acenando com bazucas ou com outras armas pesadas, as empresas a operar em Portugal, onde se incluem, claro, as empresas do setor do chamado grande consumo, irão atravessar um período de enormes dificuldades e enormes desafios, no qual a necessidade irá, por certo, aguçar fortemente o engenho, por forma a permitir, por exemplo, que as marcas consigam manter a batalha da prateleira e da sobrevivência, sem descurar áreas como a da comunicação, da inovação ou do investimento nas pessoas e em responsabilidade social.

Numa crise sem culpados óbvios a quem apontar o dedo, apenas com o esforço de todos – cidadãos, empresas e Estado – se poderá voltar a navegar em águas mais tranquilas e colocar o leme em rota para um porto seguro.