Gosto muito, muitíssimo, do encontro de Jesus com a mulher adúltera, por tudo o que me diz quem está dentro e fora de cena. Não gostei sempre desta passagem e confesso que durante muitos anos a evitei por me chocar o apedrejamento eminente, o terrível suspense sobre o destino imediato daquela mulher e a sua fragilidade perante um musculado colectivo de juízes de bancada, prontos a atirarem as suas pedras. Horrorizava-me a atitude condenatória, e mesmo sabendo que Jesus estancou a ira dos mortais e travou aqueles homens, custava-me encarar um bando de acusadores que afinal nos representa a todos nós, sempre prontos a julgar e a condenar.

Comecei a conseguir ver melhor o filme dos acontecimentos quando aprendi a ler os Evangelhos fazendo uma composição do lugar. Olhando para a geografia, detendo-me em cada um dos personagens, vendo o espaço em que se movem, ouvindo o que dizem, vendo o que fazem, interpretando os silêncios e meditando as palavras de cada um. Ensinaram-me a rezar desta maneira muitos anos depois da minha catequese. Na infância, e ainda durante a adolescência, o inferno parecia ter mais peso e mais poder que o céu. Deus estava em toda a parte, mas era muito mais para me controlar e acusar, do que para me perdoar.

Lembro-me de ter conversas com os meus irmãos e um deles me dizer que tinha pesadelos com o inferno. Nunca tive, mas percebia que ele os tivesse e sofresse com isso. Afastou-se da Igreja, dessa igreja, quero dizer, por não conseguir suportar um olhar permanentemente delator. Tive a sorte de anos mais tarde encontrar outra Igreja e outros padres, muito mais capazes de revelar a bondade e a misericórdia de Deus. E foi então que, para mim, Ele passou de impiedoso a indulgente. De castigador a amnistiador.

Aos cinquenta e (quase) cinco anos dou-me conta de que, mesmo sem ter a noção disso, a minha vida espiritual adulta se construiu a partir da imagem da mulher que os homens queriam delapidar. Não por ela ou por eles, mas pela entrada de Jesus no cenário. Pela maneira como resolveu um drama aparentemente sem solução. Tranquilo, sem pressas e capaz de ajoelhar para ouvir, Jesus não desatou aos berros. Nem mandou parar tudo para ele próprio fazer justiça. Muito menos travou a violência com mais violência. Simplesmente fez-se presente e notado, para poder ser ouvido. Fez perguntas em vez de dar respostas. E não se deu ao trabalho de dar conselhos por saber que quase nunca são bem vindos.

Ao contrário dos moralistas e justiceiros, Jesus manteve o tom e permaneceu no registo habitual de quem acolhe sem julgar, de quem interroga sem moralizar. E no silêncio escreveu com o dedo na terra. E depois de ter escrito com o dedo na terra, convidou os homens sem pecado ali presentes a atirarem a primeira pedra. E nenhum deles foi capaz de lançar o que tinha na mão. Um por um, todos baixaram os braços e cair e saíram. Em silêncio.

Podemos e devemos perguntar-nos o que pode ter Jesus escrito na terra. Os exegetas estudaram e continuam a estudar este e outros instantes de contornos mais e menos definidos, mas gosto de pensar que a versão que ouvi numa homilia porventura mais iluminada, pode estar proxima da verdade. Fez-me sentido até para perceber como é que aqueles homens, naquela situação, foram ao fundo de si mesmos para encontrarem uma saída radicalmente diferente da que estava escrita na sua lei ou inscrita no coração punitivo de cada um.

Jesus pode ter escrito na terra coisas tão simples como um enunciado de atitudes que habitualmente não catalogamos como pecados. Coisas aparentemente tão insignificantes como a arrogância, a auto-suficiência, a presunção de superioridade, a inveja, a falta de liberdade, a pouca solidariedade, a meia-verdade e por aí adiante. Não terá certamente usado estas palavras, mas o sentido pode ter sido próximo deste. A sua lógica pode ter sido escrever no chão, de forma que todos pudessem ler, que há muito mais pecados que o adultério. Traímos e dividimos mesmo sem nos deitarmos com o homem ou a mulher do outro.

Nunca saberemos exactamente o que ficou escrito no chão, mas sabemos como acaba a narrativa. Saíram todos. E só depois Jesus falou com a mulher e fez mais uma pergunta. Só então disse o que lhe ia no coração. E é deste perdão incondicional que o Papa Francisco falou no encerramento do Ano Santo da Misericórdia. Não para contar uma parábola de há dois mil anos, mas para actualizar a história ao dia e para que cada um se possa continuar a perguntar hoje, amanhã e depois: “e eu, o que é que tenho a ver com isto?”

O Papa Francisco encerrou o Jubileu Extraordinário da Misericórdia com uma Carta Apostólica em que fala de misericórdia e paz, pedindo para continuarmos a viver a misericórdia nas nossas famílias, círculos e comunidades. A exigência do pedido é total, quase brutal, mas o amor sem exigência não é amor.