O bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, com o objetivo de defender a relação médico-doente, veio reclamar recentemente um tempo mínimo de consulta.  A proposta é acertada, mas o sistema de saúde, sob o pretexto da produtividade, está vocacionado em sentido contrário. Quer o sector público, quer o privado, há muito que estão reféns dos números, sendo financiados e avaliados pela quantidade de atos médicos realizados: consultas, cirurgias, exames complementares de diagnóstico, etc. Existe uma pressão sobre os médicos para se alcançar determinados objetivos e, dada a escassez de tempo, em ambiente de consulta, o doente fica com a nítida sensação de estar a ser despachado. Isto traz consigo uma grave consequência: a desumanização da medicina.

Em medicina não se pode escutar com pressa. Estar com pressa numa consulta médica é como dizer ao doente “aquilo que me está a dizer não me interessa nada”. Atualmente, numa parte significativa do tempo de consulta, o médico fica preso ao ecrã do computador (quando este funciona, uma vez que as falhas informáticas são frequentes) a recolher informação, a inserir dados, e a prescrever medicamentos. Este sequestro informático retira tempo ao médico para manter o contacto visual com o doente, ouvi-lo, compreendê-lo, e integrar as suas queixas no contexto social, familiar e profissional. Esta é uma pedra basilar na relação médico-doente, já que sem compreender o doente nunca será possível ajudá-lo.

Hoje em dia, tendo em consideração a prática de uma medicina cada vez mais tecnológica, o doente é levado a criar expectativas que valorizam a qualidade técnica da intervenção médica. Neste caso, o médico é visto apenas como um técnico e o paciente transforma-se num consumidor de cuidados de saúde. A medicina não serve para tratar doenças, mas antes para tratar pessoas que estão doentes. Este foi o principal motivo que me levou a ter sempre uma aversão pessoal pela utilização da designação de “utente” ou “cliente” (esta última expressão é muito usada nos hospitais privados), em lugar de se utilizar a tradicional designação de “doente”.

Os médicos também adoecem e passam pela experiência de “estar do outro lado”, sentindo na pele a fragilidade e o abandono que muitas vezes os doentes sentem, devido a uma medicina cada vez mais técnica e desumana.  Há um testemunho muito interessante, publicado numa revista científica, de um médico que foi diagnosticado com uma doença neurodegenerativa: esclerose lateral amiotrófica (Rabin et al., 1982). Para ter um diagnóstico definitivo, este médico procurou um importante neurologista, especialista desta patologia, e descreveu a consulta nestes termos:

«O meu desapontamento foi com a sua abordagem interpessoal. O médico não demonstrou, em momento nenhum, qualquer interesse por mim como pessoa que estava a sofrer. Não me fez nenhuma pergunta sobre o meu trabalho. Não me aconselhou nada a respeito do que tinha que fazer em termos de atividades da vida diária ou o que considerava importante psicologicamente para enfrentar e lidar com a doença degenerativa. A única coisa que fez foi oferecer-me um panfleto explicando detalhes de um futuro que eu já sabia muito bem qual era …»

Um dos aspetos essenciais na relação médico-doente é a empatia. A empatia está associada à capacidade de reconhecer as emoções dos outros, obrigando o indivíduo a colocar-se no lugar da outra pessoa e a procurar sentir o que sentiria se estivesse na mesma situação. Para se ser empático é preciso saber escutar. Infelizmente, este é um hábito que se tem vindo a perder na nossa sociedade. Existem cada vez menos pessoas que saibam ouvir e menos ainda aquelas que disponham do tempo necessário para esta importante atividade.  As consultas médicas não escapam a esta tendência.

Uma medicina humanizada e de qualidade obriga a que o médico disponha de um tempo mínimo para estar com os seus doentes, compreendê-los e acolher o seu sofrimento. Sentir-se ouvido e compreendido é uma necessidade humana que não se mede em folhas de Excel, mas sente-se no coração…

Médico Psiquiatra