Na semana passada, a foto que Annie Leibowitz tirou a Caitlyn Jenner para a capa da Vanity Fair espalhou-se pela imprensa e pela internet (por cá, o mesmo efeito teve-o o queima-olhos que era aquela capa da Cristina Ferreira a tentar parecer sexy num vestido piroso, aninhada – em retrato — na virilha rapada do Quaresma… mas é melhor não ir por aí …).

A Caitlyn Jenner optou pela “aparência feminina” do tipo Jessica Rabbit. Teve a sorte de o Bruce ter a estrutura óssea e o dinheiro necessários para obter aquele aspecto. Para ser justa, não sei se a Caitlyn quer ser aquela versão de mulher 24 horas por dia. É capaz de também querer ser a mulher que fica a aboborar em casa nuns velhos pijamas cinzentos e sem soutien, mas só vimos a mulher glamorosa. E quem não quer parecer glamoroso de vez em quando? Bem, quem é que não desejaria um photoshoot da Annie Leibowitz?

Há muitas Jessica Rabbits: mulheres, mulheres transgénero, e travestis heterossexuais ou homossexuais. Se todas elas e todos eles acham que a Jessica Rabbit é o tipo ideal de mulher, força. Mas as Jessicas são apenas uma das muitas maneiras de “ser mulher”, não a única.

Se alguém tem a sensação de que o seu corpo não condiz com a sua identidade psicológica, e deseja ser uma Jessica Rabbit ou apenas uma senhora discreta com um vestido às flores, não há razão para ninguém se irritar com isso. O corpo é dele (ou dela), a vida é dele (ou dela), e o problema que está a tentar resolver é odele (ou dela). Se mudar de género faz uma pessoa mais feliz, qual pode ser a objecção? A raiva dirigida contra as pessoas com identidades de género “diferentes” é bastante estúpido.

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No entanto, admito que talvez me irrite, enquanto mulher, esta história do “eu tenho o corpo de um homem, mas sinto-me uma mulher!”

A Caitlyn Jenner diz nos que sabe que é mulher, porque se sente uma mulher e sempre se sentiu uma mulher. Como é que ela sabe isso?

Sou mulher. Gerei duas filhas e sou de vez em quando vítima de algum sexismo. Pareço uma mulher e comporto-me como uma mulher por causa dos meus dois cromossomas X, das hormonas e de todas as razões sociológicas que ajudaram a criar a identidade feminina que é a minha.

Mas não faço a mínima ideia do que é “sentir-se uma mulher”.

Posso dizer que me sinto calor porque sei o que é sentir frio. Posso dizer que me sinto uma mãe porque me lembro dos tempos em que não o era. Mas em termos do meu género, não tenho qualquer referência. Sou o que sempre fui. Eu.

Por isso, acho bizarro alguém dizer que quer mudar de género físico porque se sente de outro género. Não nego que se sintam assim, mas não posso imaginar o que é “sentir-se mulher” num corpo de homem.

Parece-me que as pessoas transgénero não querem ser mulheres (ou homens), mas apenas assumir a identidade correspondente à sua ideia do sexo oposto. Tudo bem, mas por favor, não me digam que “se sentem mulheres”, porque não fazem ideia do que é ser uma mulher. Tal como não fazem ideia do que é ser uma águia.

A minha sugestão seria esta: em vez de dizerem “sinto-me mulher”, dizerem “a minha identidade corresponde à minha ideia do que é ser mulher, porque é impossível eu saber o que é sentir-se mulher, porque até as mulheres realmente não sabem o que isso é”.

Notem que não me incomoda nada que haja homens que queiram ser mulheres, nem que a sua ideia do que é ser mulher seja a Jessica Rabbit. Mas gostaria que admitissem que realmente não sabem o que é ser mulher.

Os Kardashian, ao fim de uma longa vida de parasitas vaidosos e fúteis, praticaram finalmente uma boa acção. A história de Caitlyn Jenner e da sua mudança de sexo biológico está fazer a “geração Kardashian” – os milhões de fãs que os seguem e absorvem as suas tretas – aceitar que as pessoas trans-géneros não são uma aberração. Estamos no século XXI, por amor de Deus, e não nos devíamos preocupar tanto com o género físico ou psicológico nem com a sexualidade. Somos apenas pessoas.

Feeling like a woman

Caitlyn Jenner’s beautiful Annie Leibowitz photoshoot on the cover of Vanity Fair was splashed across the press and the net last week, and guaranteed many views and sales of the magazine (in Portugal, a similar effect in views and sales was witnessed with the eye-scorching horror that was that Quaresma cover, with Cristina awkwardly trying to look sexy in that nasty dress, while nestling into Quaresma’s shaven crotch… but let’s not go there…or let’s… wasn’t it awful?).

Caitlyn Jenner opted for the common ideal of “what it feels/looks like to be a woman”, i.e. Jessica Rabbit, and, luckily for her, Bruce had the bone structure and the money to be able achieve that look. To be fair, I don’t know if Caitlyn wants to be that woman 24 hours a day. She may well also want to be the woman who slouches around in old grey pyjamas and no bra, but we have only seen the glamorous woman that she wants to be, and let’s face it, who doesn’t want to be glamorous occasionally? Hell, who wouldn’t love an Annie Leibowitz photoshoot?

There are many Jessica Rabbits around; women, transgender women and gay and heterosexual transvestite men. If all of them hold Jessica as an ideal for womanhood, let them. They are just part of a huge spectrum that makes up the idea of “being a woman”.

If someone has the feeling that they have the wrong physical body to go with their psychological identity, whether that identity is Jessica Rabbit or a nice vicar’s wife in a flowery dress, then there is no reason for anyone else to get their knickers in a twist about their getting something done about it. It’s their body and their life, and in most cases, their struggle that they are resolving. If gender reassignment makes happier people, what’s the problem? The continuing vitriol aimed at people with “different” gender identities is mystifying to me and stupid.

It can grate on this woman’s nerves a little, however, when it is all loudly and certainly proclaimed as the feeling of “I am a woman/man”.

Caitlyn Jenner tells us that she knows that she is a woman, because she feels like a woman and has done all her life. How does she know?

I’m a woman. I have given birth to two kids and I get plenty of sexist crap thrown at me. I look and act like a woman, because of my two X chromosomes, my wiring, my hormones and many sociological reasons that have helped to craft the woman-like thing that I am.

However, I have no idea what it is to “feel like a woman”.

I can say that I feel warm as I remember feeling cold. I can say that I feel like a mother, because I remember not being one. In terms of the gender that I feel myself to be, I have no reference. I have only ever been what I am. I just feel like me.

Therefore, I am intrigued when someone says that they want to undergo gender reassignment because they feel like they are one gender in the body of another. I don’t deny that that is what they are feeling, but I can’t imagine what “feeling like a woman/man” in any kind of body must feel like.

It seems to me that transgender people do not want to become women (or men), but rather assume an ideal identity of the opposite sex. All good, but please don’t tell me you “feel like a woman”. You have no idea. Just as you can’t possibly know what being a bald eagle feels like.

Maybe it shouldn’t be reasonable to say “I am a woman/man, because I feel like a woman/man”, but instead “my identity is that of my idea of what being a woman/man is, because how can I possibly know what being a woman/man feels like, even women/men don’t actually know what it feels like”

I’m not offended by people thinking they are women/men/snails, nor am I offended that people think that womanhood is being Jessica Rabbit. I’m just pedantic, and I want them to admit that they can’t know what it is to be a man or a woman or a snail.

The ghastly Kardashians have done one useful thing with their parasitic, futile, vain existence. They made Bruce Jenner far more famous than he ever would have been being a mere Olympic athlete. Caitlyn Jenner’s story, her gender reassignment, her struggle, is being accepted by the “Kardashian Generation”, those people who watch and absorb the drivel that is the Kardashians. By making transgenderism acceptable to the millions of slightly thick Kardashian fans of the world, in the space of just a couple of months, it won’t be long before transgenderism is not the scary aberration that so many people still think that it is. It’s the 21st century, for god’s sake, and we really, really shouldn’t be caring that much about people’s physical/psychological gender or sexuality any more. We’re just people.