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Não fica bem aproveitar a ingenuidade ou a ignorância dos outros para nos impingir um monumento vergonhoso de Iúri Gagarin como o que foi inaugurado recentemente no Tagus Park de Oeiras.

Não, o problema não está em Gagarin, herói da humanidade pois foi o primeiro ser humano a viajar no Espaço, cuja façanha só pode ser contestada por pessoas ignorantes ou mal-intencionadas. Não, o problema também não está no facto de o cosmonauta (designação que os russos utilizam para se diferenciarem do astronauta norte-americano) ter sido cidadão soviético e membro do Partido Comunista da União Soviética. Na URSS, os heróis não podiam escapar a esta última “honra”.

O problema reside na base em que o busto de Gagarin se apoia: um enorme paralelepípedo vermelho com a simbologia comunista no centro, bem como nas justificações que são dadas para a “queda desse meteorito” em Oeiras, cuja câmara é dirigida por Isaltino Morais, político que não recebe o meu voto, mas o seu trabalho tem a minha consideração.

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Na nota da Câmara Municipal de Oeiras enviada à imprensa, escreve-se:

“Este busto em bronze, da autoria de A.D.Leónov, foi oferecido pela Fundação Internacional de Caridade “O Diálogo das Culturas – o Mundo Unido” e pela Embaixada da Federação da Rússia em Portugal, serve de homenagem ao 60º Aniversário do primeiro voo espacial humano e representa a amizade entre os Povos da Rússia e Portugal”.

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Quanto ao primeiro voo espacial humano, concordo plenamente, mas duvido que esse conjunto escultural represente a “amizade entre os Povos da Rússia e Portugal”. Gagarin nunca visitou o nosso país e há figuras históricas que simbolizam muito melhor esses laços russo-portugueses, tratava-se apenas de não ir na cantiga dos oferecedores: Fundação Internacional de Caridade “O Diálogo das Culturas – o Mundo Unido” e a Embaixada da Federação da Rússia em Lisboa, nem dos impulsionadores: a Associação de Amizade Iúri Gagarin, antiga Associação de Amizade URSS-Portugal e organização ligada ao Partido Comunista Português.

A citada Fundação Internacional de Caridade ofereceu bustos exactamente iguais a mais de quarenta países dos cinco continentes, não se sabendo por falta de dinheiro ou por falta de criatividade, mas certamente por motivos políticos. Pelo que consegui apurar, embora não tenha tido acesso a fotos de todos os países, Gagarin está “acompanhado” pelos símbolos comunistas apenas em Oeiras.

Isto faz lembrar o fabrico em massa de bustos de Lenine na URSS ou o quadro do menino com a lágrima no canto do olho, presente em muitos lares portugueses.

Na cerimónia de inauguração, o embaixador russo Mikhail Kamynin comparou o feito de Gagarin ao navegador português Fernão Magalhães, mas, como bom conhecedor da história da Península Ibérica que é, ele poderia lembrar-se que o grande marinheiro realizou parte da viagem de circum-navegação ao serviço de Espanha.

Sublinhando uma vez mais que nada tenho contra o cosmonauta soviético Iúri Gagarin, vou aqui dar algumas dicas para que “não se enganem da próxima vez”, pois há vários outros cientistas e intelectuais russos que tiveram muito mais a ver com Portugal e os portugueses do que o primeiro cosmonauta ao longo da História.

Começo por Mikhail Lomonossov (1711-1765). O enciclopedista, poeta e escritor russo foi buscar aos Lusíadas exemplos para ilustrar os géneros de versificação, bem como figuras de estilo literário na sua obra “Breve Compêndio de Retórica”, publicado em 1744.

O seu conhecimento da obra épica de Camões é de tal forma grande que levou Iúri Lotman, um dos pais da semiótica, a considerar que Lomonossov sabia português, tanto mais que, em alguns dos seus manuscritos, o fundador da primeira universidade da Rússia aponta para a consulta da “gramática portuguesa, léxico, Camões”.

É também visível a influência dos Lusíadas no poema épico de Lomonossov “Pedro, o Grande”, onde o poeta canta os feitos de um dos maiores czares russos.

Mikhail Lomonossov, de origens simples, fez uma importante carreira científica, devendo-se a ele a criação da primeira universidade russa (MGU) em Moscovo. Modéstia à parte, tive a honra de estudar nessa prestigiosa escola superior.

Mas o brilhante estudioso russo foi também o primeiro cientista no mundo a explicar cientificamente as causas do Terramoto de Lisboa de 1755. Na sua obra “Discurso sobre a origem dos metais através dos tremores de terra”, ele atribuiu essa catástrofe a causas naturais, e não divinas, como defenderam muitos na época. Ele defendeu que a desgraça foi provocada pelo movimento das placas tectónicas, teoria mais tarde confirmada pela ciência.

Outro personagem importante que pode simbolizar os laços entre portugueses e russos é Pavel Pestel (1793-1826). Este oficial russo, que foi um dos cabeças da tentativa falhada de derrubar o czar Nicolau I em Dezembro de 1825, foi beber algumas das suas ideias liberais à experiência portuguesa.

Além do mais, Pestel, que tal como os outros dirigentes da revolta morreu na forca, era descendente directo de um judeu português: João da Costa (1665-1740). Este último entrou na história como um dos mais cultos e influentes bobos da corte do reformador Pedro I e dos seus descendentes.

Nikolai Miklukho-Maklay (1846-1888) poderia ser outro candidato. Este naturalista russo passou duas vezes na Ilha da Madeira para estudar as esponjas do mar e o cérebro dos peixes cartilaginosos.

Digno de entrar nesta lista é também Platon Waxel (1844-1919), escritor, colecionador e crítico musical. Autor de uma história pormenorizada da música portuguesa que foi publicada num dicionário alemão, organizou também o dicionário de músicos portugueses e enviou-o a Joaquim Vasconcelos, que utilizou esse material para a sua obra “Os Músicos Portugueses”. Este russo manteve contactos com numerosos intelectuais portugueses, tendo-se encontrado e correspondido, por exemplo, com Teófilo Braga, pensador e político português que despensa apresentações.

Todos os candidatos tinham um “defeito”: não poderiam ser colocados em cima de bases vermelhas com a foice, o martelo e a estrela amarelas no meio. Os três primeiros viveram antes da tomada do poder pelos comunistas bolcheviques na Rússia em 1917 e o último morreu de fome em Petrogrado (São Petersburgo/Leninegrado) dois anos depois da “revolução de Outubro”.