Rádio Observador

Crónica

Serei eu um monstro?

Autor
  • Inês Pina

Cultivamos uma dissonância cognitiva. Se algo acontece e se sentimos que podíamos fazer algo, rapidamente sentimos que há alguém que podia/devia fazer mais do que nós. O que é isto?

Nos últimos tempos, senti-me atordoada com uma data de catástrofes que se foram sucedendo. Sempre me considerei uma pessoa de causas, e sempre me dediquei às mesmas. Por dedicação, perceba-se o único esforço de informação e debate das coisas, sempre me senti uma cobarde por não conseguir fazer nada de muito efetivo. Porém, neste último mês, senti que por vezes fui vestindo uma espécie de capa de indiferença que não conhecia em mim. Quase que entrei em modo piloto automático, ouvia as notícias e não as sentia.

Haverá limites para a nossa capacidade de empatia?

Quando o furacão Idai atingiu Moçambique, não senti inicialmente a real dimensão do problema, pelo menos ao nível Humano. Dei por mim a ver as notícias como se de mais uma inundação se tratasse. Quando os números e as imagens se materializaram continuei a acompanhar, mas, sem aquela enfâse que me seria típica. Os números chegaram aos mil mortos, as imagens da destruição da natureza são impressionantes. Contudo, a minha vida prosseguiu com aquele pensamento típico de miúda comodamente instalada “ai que tento tanto problema para resolver”.

Pouco tempo depois, foi no Siri Lanka. Estava de viagem e soube das notícias pelas partilhas nas redes sociais. Foram quase 300 mortos, e 500 feridos. Havia um português envolvido. Ainda por cima alguém que conhecia, de vista, mas conhecia. Defendia-se que seria uma retaliação aos ataques na Nova Zelândia. A capa de indiferença voltou a descer sobre mim.

Estou a escrever-vos com as notícias de uma Venezuela que avança para uma revolução. Moçambique volta a levar com um ciclone o Kenneth e já lá vão mais um número grande de mortos. Estou a ver comodamente instalada num país livre e pacifico. Será esta comodismo um entrave para a identificação ou serei eu um monstro? Como podemos, nos dias de hoje com tanta informação, tanto conhecimento, tanta facilidade de mobilização (pelas redes sociais) que já percebemos que tem impacto, tornarmo-nos em ilhas indiferentes? Porque não nos mobilizamos mais para fazer a diferença?

Este comodismo onde estamos instalados, não nos desafia, não nos mobiliza e isso diz muito sobre nós. Tal como julgamos gerações anteriores que assistiram a realidades como o Holocausto e nada fizeram, também nós estamos a assistir a uma data de realidades e nada fazemos, porque estamos longe, porque não nos identificamos, porque vivemos a correr.

Seremos nós pequenos monstros?

Julgo que há alguns fatores que justificam tal e julgo que devíamos tentar reverte-los, para que possamos ser pessoas que sentem e se envolvem.

De facto, vamos distanciando-nos dos problemas um tanto ao quanto para nossa defesa. Criamos um círculo à nossa volta e vamos lendo os problemas, em primeiro como distantes de nós. Moçambique, Siri Lanka, Venezuela…estão a quilómetros de distância. Instalamos aquele pensamento cómodo de que é longe e não podemos fazer nada.

Há ainda outro círculo que gostamos que nos contorne. Quando se fala em catástrofes, desgraças todos os dramas Humanos que nos entram pela vida dentro, através das redes sociais, ou das televisões, ficamos assustados. Mecanismo de defesa? Desligamos o nosso cérebro, desligamo-nos do tema, habituamo-nos…. Colocamos um filtro e as notícias trágicas, soam de igual modo como as notícias de trivialidades.

Todavia, não ficamos por aqui, cultivamos uma dissonância cognitiva. O que é isto? Ora se algo acontece e se sentimos que podíamos fazer algo, rapidamente sentimos que há alguém que podia/devia fazer mais do que nós. Esta questão está bem patente na questão ambiental. Pedem que deixemos de usar plásticos, passemos a andar mais a pé, que diminuímos o consumo de carne…O nosso primeiro raciocínio é “sou uma pequena gota no oceano; o meu vizinho é bem pior do que eu, eu faço esse esforço e nada muda”. Tudo isto, levamo-nos a manter o nosso estilo de vida sem fazer alterações, sem nos envolvermos nas causas.

Assim, entramos na espiral de negação, ignoramos, ridicularizamos (muitas vezes). Não significa falta de conhecimento, sabemos que existe, mas agimos como se não soubéssemos. Sim, baixa sobre nós a hipocrisia.

Estarei eu e todos nós a transformarmo-nos em monstros?

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

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