Um pouco por todo o mundo, uma consciência justiceira tem varrido o espaço público. Creio que algumas notas de fundo, bem como algumas críticas, podem ser feitas a este movimento.

Em primeiro lugar, é de sinalizar os méritos que a esquerda radical tem em introduzir um fascinante debate sobre a memória colectiva. Ele não é novo, pertence a uma agenda que visa mediaticamente instituir uma cisão política artificial, e pretende posicionar os “súbditos” de uma História nacional perante as agruras das vicissitudes do comportamento do Homem e das instituições ao longo dos séculos. Este revolvimento crítico precisa de culpados, para se legitimar em diversas vertentes.

Em segundo lugar, sublinho algumas incoerências na abordagem historiográfica que inevitavelmente minam o raciocínio sobre os alvos escolhidos. A figura do Padre António Vieira oferece exactamente um terreno lamacento, por ser impossível atribuir àquele seu século um ratio sobre o racismo como os olhos do presente obrigam. É inegável que as suas capacidades retóricas e a sua mundivisão muito contribuíram para progressos éticos e morais (como vi muitos historiadores exporem de forma concisa). As simplificações em torno deste protagonista não são o legado maior do estudo da História, mas sim o produto de uma tentativa de polarização.

Em terceiro lugar, é de salientar a saúde cívica em discutirmos a motivação em erigirmos estátuas de acordo com determinados parâmetros que queremos exaltar. É óbvio que estes não estão isentos de críticas. Porém, o espaço público é, além de arena dos sentimentos mais viscerais, um lugar de comunhão de valores e um abraço à comunidade, passada e futura. Ninguém impede o debate de ideias no nosso país e ,muito menos, o debate acerca da História. É bom saber que existe uma casa da democracia que vincula essa discussão e que é, talvez, um lar melhor para começar a debater os posicionamentos de quadrantes diferentes do que a rua e as suas pichagens. A apropriação de uma manifestação com as suas lógicas muito próprias, oriundas de países cuja cultura e memória colectiva não são necessariamente idênticas às de Portugal, trouxe uma cópia um pouco irritada sem qualquer tipo de distanciamento e sem qualquer tipo de interrogação mais profunda sobre o que nos separa enquanto sociedade.

Este é um debate dos extremos e soa até a uma brincadeira pueril o exercício retórico que Rui Tavares lançou há dias, ao atirar para os que negam o racismo a usurpação dos valores de Vieira, isentando assim a esquerda radical de ter lançado a mais recente guerrilha cultural. Como este é um debate dos extremos, também pouco se percebe porque é que a comunicação social refere isoladamente as reacções da extrema-direita como embrião do mal e semente do fogo. Para que todos percebamos bem a confusão desta década, é bom que comecemos por entender que o populismo não está só de um lado. Deste modo, fica a interrogação de onde anda o centro político em Portugal, sem se perceber bem que posições toma e, exceptuando um ou outro colunista, sem grande fulgor para fazer vingar o que pensa sobre a História nacional.

Naturalmente que esta colagem a manifestações internacionais, ao trazer o peso da luta contra o racismo, revigoraria todas as questões sobre a História portuguesa, sobre o seu ensino, sobre as suas obscuridades. Urge, mais uma vez, distanciarmo-nos e fazer outras perguntas sobre o racismo em Portugal. Faço minhas as palavras do nosso Presidente da República, quando disse não saber se em Portugal haveria racismo, mas que certamente haveria manifestações racistas. A abrangente experiência académica conhece até uma variedade de estudos contraditórios na manifestação da segregação racial na população portuguesa. Porque é que tantos comentadores repetiram até à exaustão, e de forma muito peremptória, as conclusões de determinados estudos, ao invés de abordar a discussão em moldes mais sérios? Fiquei igualmente estarrecido com a cunhagem saloia de que quem nega que haja racismo seja um racista escondido, ou um vigário do racismo instituído.

Um último ponto, e talvez o mais fulcral, prende-se com a discussão da importância da História para o futuro. Os historiadores, os professores desta disciplina, as diversas agências que contribuem para a sua divulgação (como os museus, ou os arquivos e bibliotecas), vêm assim renovado o seu papel para continuar a trabalhar em prol da objectividade e do conhecimento, com vista ao esclarecimento da sociedade civil. Qualquer um de nós, ao ver a forma como o debate dos últimos dias decorreu (e até a cobertura que teve), terá que assumir que muito mais há a fazer.