No outro dia subia a pé a rua do Alecrim para o Chiado às seis da tarde, entre escapes, motas, buzinas e apitos de polícia, as duas faixas cheias de carros, para baixo e para cima, do Cais do Sodré ao Camões. Tentei chegar depressa para me fechar em casa.

Lisboa não era assim. Lembro-me de ter gosto na facilidade com que chegava da Almirante Reis ao Chiado e do Chiado à Universidade Católica. Atravessava a cidade sem trânsito e pensava como era fácil circular em Lisboa. Agora já não é assim e parece-me que não vai ser assim nos próximos anos. O que se passou?

Aparentemente foi necessário reduzir a circulação de carros em Lisboa para baixar a poluição. E a forma como a câmara o decidiu fazer foi tornar muito mais difícil circular. Ora, circulação mais difícil reduz de facto o número de carros, mas não necessariamente a poluição. E pode sair muito cara em obras, em tempo e em enervamento.

Fizeram-se praças grandes, e vazias, passeios largos, e vazios. Reduziram-se faixas, muitas ruas de faixa única com pilaretes de cada lado. A Avenida da República está agora com menos faixas e mais estreitas, cheia de carros a qualquer hora. A avenida (com o nome sonante do Infante Dom Henrique) que ia do Terreiro do Paço à Expo é agora uma vereda de faixa única. A antiga 24 de julho está afunilada entre separadores. As avenidas novas são um labirinto, armadilhado. E a Avenida da Liberdade é incompreensível.

E depois é tudo muito feio, e tudo muito caro: é a relvinha no meio da avenida da República, mal cortada, decorada com garrafas de plástico; são os separadores ajardinados da 24 de julho, também cheios de lixo, com lancis de pedra abrutalhados a ameaçar as jantes; são os passeios para todos os gostos. Há passeios de cimento branco encardido, com recortes de calçada. Também os há de granito, à moda do Porto. Há agora também passeios de lajetas de cimento creme. O pavimento do campo das cebolas faz agora justiça ao nome. Onde ainda há calçada, é às pintas. Era tão bonita a cidade simples de calçada luminosa…

Desordenou-se a circulação de tal forma que basta uma pequena perturbação para a cidade ficar toda bloqueada, de uma ponta à outra. O Nuno Abecassis, presidente da Câmara de boa memória decidiu bloquear a rua do Carmo com uns canteiros em pedra lamentáveis. Durou pouco, veio o incêndio do Chiado e a dificuldade dos bombeiros em o apagar, e acabaram logo os canteiros. Fica aqui o aviso sinistro.

Não sei se repararam mas a cidade está agora cheia de motas. Aparecem sem se esperar de todo o lado. É resposta à circulação mais difícil, resposta mais poluente pelo menos de ruído. E também muito mais perigosa.

Havia duas maneiras de reduzir a circulação em Lisboa. Uma, a boa, era usar portagens electrónicas, como nas SCUTs. Instalavam-se nos principais eixos de circulação e cobrava-se o que fosse necessário para reduzir a circulação para os níveis desejados. Aí se tinha não só o ar mais limpo e menos barulho, como se tinha ainda a receita das portagens, para se fazer com ela o que se achasse melhor. Acresce que as cancelas das portagens são muito mais baratas que as praças e os passeios e demoram muito menos tempo a fazer.

A maneira alternativa à de mercado é o racionamento.

O sistema de matrículas pares e ímpares é uma forma de racionar, mas tem um problema. É que se para mim pode ser conveniente usar o carro, para outro pode ser imprescindível. Tem também o problema de potencialmente duplicar o número de carros. Também se podia dar direitos de circulação e criar um mercado para esses direitos, mas esse sistema é equivalente ao das portagens, e é mais complicado.

Há mais uma maneira de racionar, que é obrigar a passar muito mais tempo no meio do trânsito. Também reduz o número de carros, mas não necessariamente a circulação, nem a poluição. É que se é verdade que há menos carros, cada carro circula durante muito mais tempo. Além disso as pessoas pagam com o seu tempo e com os seus nervos, e ninguém fica a ganhar.

Este sistema de racionamento com filas de espera era o sistema na Rússia e afins e, como se sabe, acabou mal. Também é parecido com o serviço militar obrigatório. Tive a sorte de não ter de fazer o serviço militar. Agora, quando pego no carro de manhã para atravessar a cidade, sinto-me a cumprir o serviço rodoviário obrigatório. E não me sinto nada bem.

Professor catedrático