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Mundial 2018

Silva e Képler contra o rio onde não havia prata /premium

Autor
  • Alexandre Borges
178

No último jogo da selecção nacional no mundial, não foi a sorte, nem o azar, nem o árbitro; foi apenas futebol. O Mundial segue dentro de momentos. Portugal também.

“Uruguai” era o termo guarani para “rio dos pássaros pintados”. É difícil encontrar nome de país mais bonito, que nos instale mais imediatamente uma imagem de lugar mais fantástico e irradiante de maior exotismo. Que contraste para “Província Cisplatina”, que foi o que nós, portugueses, lhe chamámos, no tempo em que era território sob nossa administração, e que talvez fosse, na verdade, um hábil truque para adormecer os índios com o tédio, em vez de nos darem guerra. “Cisplatina” queria dizer, à letra, junto à Prata, a mesma que deu nome ao reino espanhol contíguo, ao Rio da Prata e, depois, à Argentina e que, na verdade, não existia. Era uma esperança infundada dos colonizadores, um mito alimentado por exploradores e aventureiros, depois dos tesouros encontrados em Potosí ou Minas Gerais.

Vem isto ao caso para dizer que é bem antiga a relação entre Uruguai e Portugal. Que custa um bocadinho perder contra uns gajos vestidos com camisolas de lycra ou que era aquilo, ou que se enganaram no programa da máquina e encolheram a malha. Mas tudo bem – umas vezes vencem uns, outras outros. Contudo, os uruguaios poderiam apenas ter escolhido outra altura para mostrar como ainda é bem visível a influência lusa na cultura deles. É que, neste jogo no batatal de Socchi, o Uruguai foi o Portugal dos portugueses. Impressionante. Não jogaram nada e ganharam – que bonita homenagem, só talvez um pouco a destempo. Cavani a fazer de Ronaldo – dois lances, dois golaços –, Suárez a fazer fita (património imaterial também tão nosso) e o resto cá atrás a defender e a chutar para a frente, enquanto o adversário corria, jogava, cruzava, rematava e essas coisas todas bonitas, mas que cansam só de ver.

Portugal ainda tentou com o que de mais parecido tinha com um uruguaio: Pepe – aliás, o senhor Képler Laveran de Lima Ferreira –, português que, por acaso, não nasceu aqui, mas que teria ajudado Afonso Henriques a fundar o país, se porventura se tivessem cruzado na meninice. Bernardo, o Silva, como que a querer equilibrar os pratos da balança com o peso de um português standard, jogou como nunca – a bola, pura e simplesmente, já se recusava a rolar se não passasse pelo pé dele. Colectivamente, a equipa fez o seu melhor jogo em toda a prova. Mas esbarrou numa equipa muito bem organizada sem bola, solidária, capaz de potenciar virtudes e esconder vulnerabilidades, que foi muito eficaz no contra-ataque e teve alguma sorte. Em suma, Portugal esbarrou contra um espelho. E ninguém está preparado para isso. Não à primeira.

Verdade que, se há 500 anos não havia prata no Uruguai, ontem não houve ouro em Portugal – Ronaldo estava longe dos seus dias e apresentava a precisão de remate e de passe de, digamos, um Hugo Almeida. Verdade que o árbitro tinha alergia a cartões e descontos. Verdade que Godín tem nome de deus nórdico, Laxalt de purgante intestinal e que, ainda assim, nada disso é tão desagradável como o temor que os incisivos e caninos de Suárez inspiram e que obrigam, compreensivelmente, qualquer defesa a manter-se a uns dez prudentes metros de distância. Tudo isso é verdade e, porém, perdemos bem, perdemos tal como podíamos ter ganho, perdemos como ganhámos tantas outras vezes nos últimos quatro anos.

É. “Província Cisplatina” – não nos ocorreu nada de melhor, nem de mais poético, nem de mais épico. Terá sido vingança dos uruguaios? Sabe-se lá. Duma forma ou de outra, Portugal desce aqui do autocarro do Mundial, sem grandes dramas, talvez pela primeira vez. Não houve super-heróis nem vilões, roubos de igreja nem milagres de Nossa Senhora. Não foi de B.D., nem de superstição, nem de religião; foi só futebol, coisas da vida. Podíamos ter ido mais longe e podíamos ter caído mais cedo. Depois de virmos a muita fase final de grande competição e de até termos vencido uma, atingimos, finalmente, a maturidade. Lidamos com o que aconteceu e não com o que podia ter acontecido. E isso é bom.

Agora, enquanto os pássaros pintados seguem viagem legitimamente em busca da prata ou do próprio ouro, ficamos por aqui ruminando em duas questões.

Questão 1: como terá sido o serão de Éder? Fantasiamos: a ver o jogo como todos nós, mas a sofrer mais do que todos nós. Provavelmente rodeado de gente que gosta dele e lhe dizia que, se ele lá estivesse, resolvia aquilo, mas dentro dele mesmo a saber que não é assim, que não foi por falta de Éder, que os acontecimentos extraordinários não se reproduzem em série ou não seriam extraordinários, e que agora deveria haver outro Éder, um André Silva ou um Bernardo Silva, ou um Fonte ou um Manuel Fernandes, ou outra coisa mais mirabolante. E, ainda assim, lá deve ter passado ele quase duas horas chutando e cabeceando no ar, tentando golpear cada bola perdida pelos companheiros, desde a sala de um apartamento em parte incerta, direitinha para o fundo das redes de Socchi.

Questão dois. Em 2016, Fernando Santos escreveu na parede do balneário no primeiro dia da concentração: “Ganhar o Euro” – que terá escrito agora? E algum dia o saberemos? Talvez alguma coisa do género: “Olhem ao espelho e verão o vosso maior adversário”. E sabem?, se foi isso, então o mister acertou outra vez. Só não estávamos à espera que o reflexo se apresentasse de camisola azul-celeste, justa como um fatinho de ballet.

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