“Uruguai” era o termo guarani para “rio dos pássaros pintados”. É difícil encontrar nome de país mais bonito, que nos instale mais imediatamente uma imagem de lugar mais fantástico e irradiante de maior exotismo. Que contraste para “Província Cisplatina”, que foi o que nós, portugueses, lhe chamámos, no tempo em que era território sob nossa administração, e que talvez fosse, na verdade, um hábil truque para adormecer os índios com o tédio, em vez de nos darem guerra. “Cisplatina” queria dizer, à letra, junto à Prata, a mesma que deu nome ao reino espanhol contíguo, ao Rio da Prata e, depois, à Argentina e que, na verdade, não existia. Era uma esperança infundada dos colonizadores, um mito alimentado por exploradores e aventureiros, depois dos tesouros encontrados em Potosí ou Minas Gerais.

Vem isto ao caso para dizer que é bem antiga a relação entre Uruguai e Portugal. Que custa um bocadinho perder contra uns gajos vestidos com camisolas de lycra ou que era aquilo, ou que se enganaram no programa da máquina e encolheram a malha. Mas tudo bem – umas vezes vencem uns, outras outros. Contudo, os uruguaios poderiam apenas ter escolhido outra altura para mostrar como ainda é bem visível a influência lusa na cultura deles. É que, neste jogo no batatal de Socchi, o Uruguai foi o Portugal dos portugueses. Impressionante. Não jogaram nada e ganharam – que bonita homenagem, só talvez um pouco a destempo. Cavani a fazer de Ronaldo – dois lances, dois golaços –, Suárez a fazer fita (património imaterial também tão nosso) e o resto cá atrás a defender e a chutar para a frente, enquanto o adversário corria, jogava, cruzava, rematava e essas coisas todas bonitas, mas que cansam só de ver.

Portugal ainda tentou com o que de mais parecido tinha com um uruguaio: Pepe – aliás, o senhor Képler Laveran de Lima Ferreira –, português que, por acaso, não nasceu aqui, mas que teria ajudado Afonso Henriques a fundar o país, se porventura se tivessem cruzado na meninice. Bernardo, o Silva, como que a querer equilibrar os pratos da balança com o peso de um português standard, jogou como nunca – a bola, pura e simplesmente, já se recusava a rolar se não passasse pelo pé dele. Colectivamente, a equipa fez o seu melhor jogo em toda a prova. Mas esbarrou numa equipa muito bem organizada sem bola, solidária, capaz de potenciar virtudes e esconder vulnerabilidades, que foi muito eficaz no contra-ataque e teve alguma sorte. Em suma, Portugal esbarrou contra um espelho. E ninguém está preparado para isso. Não à primeira.

Verdade que, se há 500 anos não havia prata no Uruguai, ontem não houve ouro em Portugal – Ronaldo estava longe dos seus dias e apresentava a precisão de remate e de passe de, digamos, um Hugo Almeida. Verdade que o árbitro tinha alergia a cartões e descontos. Verdade que Godín tem nome de deus nórdico, Laxalt de purgante intestinal e que, ainda assim, nada disso é tão desagradável como o temor que os incisivos e caninos de Suárez inspiram e que obrigam, compreensivelmente, qualquer defesa a manter-se a uns dez prudentes metros de distância. Tudo isso é verdade e, porém, perdemos bem, perdemos tal como podíamos ter ganho, perdemos como ganhámos tantas outras vezes nos últimos quatro anos.

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