1Os meus avós nunca contraíram um crédito para comprar casa – construíram a sua num tempo em que não havia água canalizada, esgotos ou electricidade. Nunca tiveram automóvel – andavam a pé, de burro ou a cavalo. A primeira vez que saíram do seu distrito, Castelo Branco, foi já numa fase muito adiantada da sua vida – ao contrário de mim, que viajei para fora da Península Ibérica pela primeira vez aos 12 anos, graças a uma iniciativa de dois professores, que organizaram uma visita cultural a Londres, e ao meu pai, que pôde pagar a excentricidade. Quando tiveram a primeira televisão já tinham netos, e o aparelho chegou lá a casa como um prémio ganho por um tio meu numas rifas da Volta a Portugal – ao contrário de mim, que tive um pequeno televisor no meu próprio quarto antes dos 10 anos. Só na velhice tiveram frigorífico e arca congeladora, que lhes substituiu as salgadeiras. A geração do meu pai conheceu a pobreza de perto, mas já viveu boa parte da vida longe dela graças ao desenvolvimento económico que se foi fazendo sentir nos anos 60, primeiro, e depois de 1985 – uns nas empresas e outros no funcionalismo público. Eu nasci em 1985, cresci numa família de classe média, num subúrbio, frequentei sempre a escola estatal, passei férias na aldeia dos meus avós a vida inteira, mas tive direito a pequenos luxos que poucas décadas antes seriam impensáveis e que hoje até parecem coisas banais. Só quando cheguei ao ensino superior é que percebi que havia gente com vidas diferentes da minha: com mais dinheiro, mais viagens, mais livros, mais conhecimento, mais experiências e, sim, que tinham um nome. Aqui chegado, não tenho qualquer dúvida de que a minha vida, comparada com a dos meus avós, é equivalente à da alta nobreza do início do século XX ou do fim do século XIX, mesmo não sendo rico, e que aquilo que o permitiu foi a combinação possível entre desenvolvimento económico e justiça social.

A isto chama-se, comummente, «subir na vida». Este processo de desenvolvimento social foi uma realidade para a esmagadora maioria dos portugueses a partir da segunda metade da década de 80 e até ao início do século XXI. É por isso que uma família abaixo do remediado, que viva na periferia das grandes cidades ou numa qualquer cidade do País, tem hoje melhores condições de vida do que tinham os meus avós, que eram proprietários rurais na primeira metade do século passado. Tenho, porém, noção de que as condições sociais e económicas que consegui obter são, para a maioria da minha geração, uma excepção e não a regra – ao contrário do que aconteceu à geração do meu pai, em que a excepção era ficar no piso de baixo do elevador e a regra era subir. São os dados, os números e as estatísticas que o dizem, não sou eu: a geração mil euros que vê na emigração uma oportunidade, os salários líquidos mais baixos da Europa, um país com a mobilidade social estagnada. O trabalho de explicar aos portugueses que estão economicamente parados há 20 anos e de trazer para o debate público essa evidência tem sido difícil. Não é que as pessoas não saibam que ganham menos, que pagam mais, que vivem pior do que pensavam poder viver hoje e, sobretudo, que deixaram de ter qualquer perspectiva de virem a estar, elas ou os seus filhos, daqui a 5, 10 ou 20 anos, melhor do que estão agora. Tem sido difícil, acima de tudo, porque as elites se recusam a aceitar essa evidência. Em primeiro lugar, porque aceitá-la obrigá-la-ia a colocar em causa muitas das decisões políticas dos últimos 20 ou 25 anos que, salvo raros casos, foram apaparicadas por boa parte dessas elites, das empresas ao jornalismo. Em segundo lugar, porque o debate público é, maioritariamente, dominado por uma casta de gente que vive acima da realidade do Zé de Rio de Mouro, da Maria da Quinta do Conde ou da Manuela de Valpaços, e entende que «subir na vida» é um sentimento pequeno-burguês, uma ambição ilegítima de gente moral e civicamente desqualificada.

2 Na entrevista que Paulo Rangel deu à Visão, publicada na passada quinta-feira, os jornalistas fazem-lhe a seguinte pergunta/comentário: «Na apresentação de candidatura carregou na tecla da mobilidade social, usando, também, a expressão “subir na vida”, o que recupera uma ideia do cavaquismo. Há uma nostalgia cavaquista na sua candidatura?» Rangel esclarece, explicando que não traz consigo um neocavaquismo. E os jornalistas insistem, uma vez que vislumbraram em Paulo Rangel o pecado capital: «Mas também tinha uma mensagem de apelo ao enriquecimento individual…».

Gabo a paciência de Paulo Rangel. Em lugar de ter baixado os olhos, pedido desculpas e perguntado a si próprio onde é que estaria com a cabeça para se lembrar de que as pessoas podem e devem querer enriquecer, respondeu aos jornalistas com ousadia: «Os dois momentos que mais me custaram, quando estava a ler a comunicação em que apresentei a minha candidatura, foram as duas frases em que disse: “Portugal é um país pobre”. (…) Temos de dar aqui um novo impulso: libertar a sociedade, com menos Estado, menos impostos, mais iniciativa, premiar o mérito e o esforço – mas, ao mesmo tempo, garantir que as pessoas vivem melhor, o que pressupõe mais igualdade e não deixar para trás a equidade social.»

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