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Todos sabemos que nada dura para sempre. Traz uma certa tristeza, quando se trata de algo bom e é um alívio quando vivemos uma experiência má.

O efémero dá conta da finitude. O tempo cronológico passa e em última instância rende-nos à ideia de um fim; o fim da vida dos nossos entes queridos, das coisas que gostamos, dos momentos inesquecíveis, da nossa própria vida.

Contra o efémero surge a criatividade e a possibilidade da vingança da cultura. Obras de arte são concebidas com o fim de se perpetuarem e contrariarem a ideia do fugaz. Procuram a eternização. Otto Rank, psicanalista austríaco, contemporâneo de Freud, no seu livro Art and Artist escrito nos princípios dos anos 30, explica-nos como o impulso criativo tenta transformar a vida efémera numa imortalidade pessoal, como o artista tenta transformar a morte em vida. Freud, em 1915, no seu texto Sobre a Transitoriedade, diz-nos que o valor da escassez do tempo e a noção da limitação do tempo é que nos permite fruir. Ou seja, a nossa consciência da efemeridade faz com que valorizemos a beleza das coisas.

Como nos sentirmos felizes com a ideia de perda e que tudo acaba? Via a ideia da contemplação e o desfrute da sucessão de um tempo em modo lento e não apressado. Enquanto um jovem corre a e anseia pelo tempo passar, um mais velho, deixa-se estar na presentificação do tempo e na quietude. A felicidade vai sendo a soma de bons instantes. A noção de finitude provoca a vontade de desacelerar. Conviver com a angústia do prenúncio de morte é inevitável mas ao mesmo tempo a consciência de tal, pode ser suplantada e ser menos dolorosa se conquistarmos um lugar interior de ancoragem. Possuímos memórias, afectos, pessoas, que felizmente duram para sempre e enquanto tudo dura, é de se viver inteiramente e aproveitar. Face à idealização do eterno que pode criar ilusões, vamos sonhando e em paralelo, por vezes,  procurando o etéreo. A relação entre o efémero e o eterno faz lembrar o trecho de Chico Buarque, tudo é vário. Temporário. Efémero. Nunca somos, sempre estamos. Assim, vamos vivendo no gerúndio e prolongado como pudermos uma certa estética de viver. Vamos dando importância e valor ao que nos é bom e faz bem. Transformando a ideia que a volatilidade também pode ser riqueza.

anaeduardoribeiro@sapo.pt

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