Incomoda-me – devo-o assumir – a maneira como, tantas vezes, ouço falar das “pessoas simples”. As “pessoas simples”, aos olhos de quem fala delas dessa maneira, serão pessoas a quem falta (digamos assim) uma espécie de upgrade para serem pessoas “como deve ser”. Para quem as descreve assim, serão pessoas que se contentam “com muito pouco”. Para quem as conquistas ou, mesmo, os pequenos “luxos” da urbanidade não serão um bem de primeiríssima necessidade. E que – crème de la crème – são capazes de ser felizes sendo “simples”, todavia. Até porque – há quem diga – nem sempre a inteligência nos capacita para sermos felizes.

Reconheço que, em muitas peças de televisão, já me “arranhava” o ouvido quando escutava um ou outro repórter falar de uma “multidão anónima”. É claro que uma multidão é uma mole de pessoas que reage mais do que pensa e que responde mais pelo impulso do que, propriamente, por argumentos inteligíveis. Mas sempre me ficou o desconforto de haver uma espécie de ligação silenciosa entre as pessoas simples e os “anónimos”. O que parecia acontecer, também, quando, por exemplo, na televisão, ia escutando a forma como se sectorizavam os espectadores: “classe A”, para um lado; “classe B”, para outro. É claro que à classe das “pessoas simples” se atribuíam muitas telenovelas, alguns concursos e os indispensáveis reality shows. E à “primeira classe da natureza humana” a informação e a cultura. Desculpem, mas, às vezes, tenho a sensação de que a xenofobia será mais “democrática” do que todos gostaríamos. A forma como se pega nas pessoas diferentes de nós e as achamos um “sub-produto” daquilo que somos (“simples”, portanto) passa-se vezes demais. Quer quando, em Lisboa, se fala das pessoas da “província”. Quer quando os intelectuais falam das “outras pessoas” como se elas fossem “Esteves, sem metafísica”. Quer quando se fala dos mais velhos como se eles caíssem, hoje, mais vezes, não tanto porque vivam numa espécie de “prisão domiciliária” e não usem o corpo, como deviam, mas porque são trapalhões. Ou, simplesmente, porque serão, talvez, dos “mais simples” entre as pessoas… “simples”.

A forma um bocadinho enlouquecida como pegamos naquilo que é bom e lhe atribuímos um significado, rigorosamente, ao contrário daquilo que se passa não deixa de ser curiosa. Às vezes, parece existir uma espécie de “contra-informação ao serviço do mal”, com a qual se convive quase com descontracção. Acontece um bocadinho assim quando tomamos como “pessoas simples” aquelas que consideraremos, sem coragem para o assumir, como “pessoas básicas”. Que “não chegam lá”. Como se, no limite, um pouco como as multidões anónimas, as “pessoas simples” não pensassem. Não precisassem de se sentir amadas nem de ser felizes. Não tivessem os mesmos direitos aos sonhos, a ambições e a projectos. Não tivessem lágrimas com cloreto de sódio. Se bem que, quase misteriosamente, não deixassem de ser capazes de sorrir.

Achar que a simplicidade humana é uma espécie de “rés-do-chão do melhor de nós” parece quase contra-informação. Porque sermos simples sem aspas será aquilo a que somos capazes de chegar quando somos sábios. Quando falamos verdade. Quando não somos falsos. E quando não lidamos com os outros como se fossem pessoas “básicas”. A simplicidade é um exercício de inteligência e um gesto de paz em relação àquilo que somos, diante dos outros. E é por isso que, movidos mais pela inveja do que pode parecer, há quem desvalorize as “pessoas simples”, sempre que reconhece nelas alguns “ares” da simplicidade a que quem as desqualifica não se sente capaz de chegar. Um pormenor, portanto.

Quem dera que pudéssemos todos ser só simples, sem aspas! Bastava, para tanto, que aceitássemos que, apesar daquilo que nos separa, queremos todos qualquer coisa de muito parecido: reconhecermo-nos na vida que temos, naquilo que somos e nas pessoas que a preenchem. Vendo bem, as pessoas “simples” só são simples com aspas porque entendem que a vida premeia quem se cala.