1. Há pouco tempo um filho que trabalha em Viena teve que ser subitamente operado ao apêndice. Apesar de ser uma cirurgia banal e ele um matulão casadoiro, a distância não é boa conselheira: operado em alemão? E onde, e isto e aquilo. Dias depois o Vasco saía de um hospital público onde o único busílis foi “ter-se maçado”, o resto, cinco estrelas. A saída, a conta foi de nove euros e eu pus as mãos na cabeça: quem vai pagar o futuro? Comida, cama, cirurgião, anestesista, bloco operatório, enfermagem, igual a nove euros. Daqui a 20 anos, se não for antes, que sobrará de uma segurança social europeia tão generosa com os seus, e tão igualmente pródiga com os outros? Até quando este “estado de benesse”, sem cabimento nem verba na ordem económica de hoje?

Segunda edição: o Vicente, que não é filho mas neto, tem seis anos e vive em Londres, teve uma apendicite súbita – deve ser de família – e foi operado de urgência na semana passada. Cinco dias de internamento em hospital público, etc., a mesma lengalenga e, no fim, “Francisco, quanto pagou pela operação do seu filho?” perguntei eu daqui, que não esquecera os nove euros. “Nada. Entrei e saí sem tocar na carteira”.

Não pode acabar bem. E mesmo se os – agressivos – impostos que esta família paga por ano ao estado britânico cobrem esta e porventura outras apendicites vindouras, estranha-se a largueza do sistema praticado na Europa. Remediar vai doer e custar, o que se estranha é o atraso no remedeio. (Portugal incluído.)

E quando se mergulha simultaneamente nos cinco continentes, que é o que sempre sucede mal se põe um pé num dos (temíveis) terminais do aeroporto de Heathrow, ainda mais se estranha. Se toda aquela gente que ruma a Inglaterra, juntando-se à multidão de nacionais e estrangeiros que já lá vive, tivesse, por uma súbita e singularíssima coincidência, uma apendicite, pagaria zero libras como o Vicente?

2. Deixar Lisboa e aterrar em Londres, como me sucedeu no final de Novembro, antes das apendicites, põe outras estranhezas à prova. Cinco continentes, digo bem, cujos variadíssimos habitantes fluidamente transitam dali para o resto da Grã Bretanha, engrossando com plácida naturalidade o maior caudal de que há memória de raças, cores e credos concentrados num só lugar.

Sim, paciência, estarei a repetir-me, mas olho a coreografia londrina sempre como se fora a primeira e (atónita) vez. Nos “arredores” as coisas não serão – não são – tão amáveis quanto vistas do segundo andar de um vermelho bus, conduzido por naturais dos remotos Afeganistão, Azerbaijão ou Sri Lanka, barbas hirsutas e barretes de lã enfiados até ao sorriso cansado; ou como no metro, cujos funcionários vindos algures do ex-império britânico, nunca elevam – em circunstância alguma – o tom de voz; ou no teatro, onde fui com outro neto e onde os seus multiculturais por assim dizer arrumadores, não eram ingleses mas eram quase como se fossem: tinham pelo menos absorvido as boas maneiras.

Claro que esta deslizante coreografia que flui aparentemente sem arestas não faz lei, sendo porventura bem mais ilusória do que vista de relance, da janela de um autocarro. Mas mesmo apesar do terrível “e se?” que de há uns tempos me acode intimamente – ”e se rebentasse aqui uma bomba? e se nesta estação de metro houvesse um tiroteio? e se neste teatro cheio de crianças, entrasse agora um grupo terrorista? – mesmo sob esse peso e essa sombra, há uma “irresistibilidade” muito própria que afaga tudo isso. Têm dela o segredo e o exclusivo.

Nova Iorque tem tudo o que Londres tem, glamour, riqueza, movida, cultura, vitalidade, vibração e não é sequer parecido. Falta-lhe os ingleses, o mundo que eles escolheram – e defendem –, as coisas de que riem, as bizarrias que acham “naturais”, fazem da Grã Bretanha um país único e de Londres o seu incomparável, inconfundível, irresistível “best off” (paguem ou não a segurança social).

Passam os anos e nunca senti o mesmo – desvelo? Admiração? Jubilo? Estranheza? Pasmo? – em nenhuma outra capital deste vasto mundo nosso.

3. Há uns anos, num teatro londrino, acerquei-me do arrumador-mor, espécie de severo mordomo saído de Downton Abbey e perguntei-lhe de chofre “que idade tinha o Alec Guiness”, actor da peça que acabara de ver. Endireitando-se imperceptivelmente na sua farda, olhando-me com embaraço e usando um tom de voz três oitavas abaixo da minha, “Sir Alec will be seventy four next friday”. A minha desenvoltura ferira estrepitosamente a sua sobriedade. Os latinos extrovertidos confundem-nos e horrorizam-nos. E mesmo quando têm generosas doses de álcool no sangue num estádio de futebol, não são extrovertidos, são outras coisas. São eles.

4. O nosso embaixador em Londres, João Vallera, homem sábio e experimentadíssimo diplomata, devia, a propósito, publicar algumas das notas que, com método e engenho, se aplica a escrever sobre o povo britânico. Aguardo as suas memórias mesmo que ele não esteja a pensar fazê-las – os portugueses quase nunca estão para aí virados – pois basta ouvi-lo contar ou descrever a Inglaterra e os ingleses para com deleite antever a série de quadros e aguarelas que poderia pintar sobre uma e outros. Foi aliás por ele que tive a primeira notícia do deputado trabalhista Hilary Benn, hoje integrando o gabinete sombra do novo líder Jeremy Corbyn, como “labour shadow foreign secreatry”. O embaixador de Portugal descreveu-me o personagem que já conhece e do qual reteve os “valores sólidos e ancorados na União Europeia” e a extrema coloquialidade e frontalidade com que abordou a agenda europeia e a interna, não se furtando – mas não dramatizando – as diferenças que opõem a sua própria visão das coisas à liderança de Corbyn. Alguém cujo “à vontade, empatia e ausência de sinais de crispação”, terá mesmo impressionado os embaixadores dos países das União Europeia, acreditados em Londres.

É que, junto com todos eles, João Vallera havia tomado um “beakfast” de trabalho exactamente na véspera do extraordinário discurso feito por Benn no parlamento inglês (a que assisti, pasmada, como o resto do mundo, julgo eu). A escassos centímetros do rosto atento de David Cameron e dos seus pares – o parlamento inglês parece-se com uma arrecadação –, Benn atirou-se ao delicadíssimo assunto do envio de tropas britânicas para a Síria. O tema, que divide mais que une – a polémica no seio conservador e trabalhista é prova disso – e exibe, na Europa e fora dela, mais hesitação que convicção, ficou “assinado” pela performance do ministro sombra: na forma e no conteúdo tratou-se de uma proeza política. Julgo haver nesta pálida “Europa” muito pouca gente capaz do mesmo.

Não é inglês quem quer.

PS: Acabo de ler um texto muito interessante e de algum modo surpreendente, de António Araújo, que vivamente recomendo. Não sei que mais lhe inveje: se a cultura religiosa, se o modo tão fluido como mistura erudição e poesia na história que nos conta sobre os “Mistérios da Natividade”. Está na Revista P2 do Público do último domingo e é imperdível.