A cidade inteligente é um espaço-território socialmente construído para o exercício da cidadania plena, se quisermos, um cadinho de humanidade em permanente reconstrução. A minha tese de partida é simples e funda-se num princípio de prudência e bom senso, a saber, as tecnologias digitais tornam a cidade mais inteligente, mas é o urbanismo, nas suas múltiplas dimensões, que torna as tecnologias digitais muito mais inteligentes, humanas e criativas. É esta transação fundamental que não podemos nunca perder de vista.

Os territórios inteligentes são uma espécie de novo emblema das políticas do território e da sociedade em rede. Vale a pena, por isso, fazer um esforço analítico no sentido de perceber melhor em que consiste e o que está em jogo quando se fala de territórios inteligentes e estratégia digital. Num plano mais geral, uma estratégia digital pode prosseguir cinco tipos de inteligência territorial que enquadram e delimitam tudo o resto:

  • Uma “simples otimização de recursos” na provisão de serviços públicos convencionais, é o caso das smart cities, uma versão, digamos, performativa,
  • Uma “provisão de bens comuns intermunicipais” em resultado de alguma forma de federalismo autárquico ou rede urbana intermunicipal, uma versão, digamos, cooperativa,
  • O lançamento de “plataformas made in” para desenvolver a sociedade multilocal, uma versão, digamos, colaborativa,
  • A criação de um “ambiente inteligente de educação e ensino”, virada para o utente/utilizador e a coprodução de serviços comuns, uma versão, digamos, formativa,
  • A criação de um “ecossistema digital integrado” virado para uma estratégia de desenvolvimento territorial, uma versão, digamos, sistémica, como instrumento de formação de novas economias de rede e aglomeração nos planos regional e sub-regional.

Como se observa, há um ciclo de vida, diferentes escalas e níveis de complexidade para cumprir e fica claro que vai uma longa distância entre a simples provisão inteligente de serviços públicos de uma smart city e a criação de um ecossistema digital integrado no quadro de uma estratégia de desenvolvimento territorial mais dilatada no tempo. Vejamos, mais de perto, algumas teses a propósito da smart city ou cidade inteligente e criativa.

O decálogo da cidade inteligente e criativa (CIC)

No que diz respeito às smart cities, em sentido estrito, já hoje existe um pacote de serviços muito variado que inclui a infraestruturação digital, as redes integradas de energia e a eficiência energética, a gestão dos bairros inteligentes, as conexões e a mobilidade urbana, a administração em linha, as plataformas urbanas e a sua interoperabilidade, o ambiente e os indicadores de qualidade de vida, a recolha e tratamento de dados e, finalmente, a segurança dos cidadãos e os sistemas em operação na smart city. Por exemplo, a seção de “municípios cidades inteligentes”, da Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP) e a sua iniciativa “Smart cities tour 2019”, é uma boa ilustração desta abordagem urbana de inteligência territorial, baseada, essencialmente, numa abordagem performativa. Vejamos, agora, algumas teses a propósito das cidades inteligentes e criativas que, de algum modo, marcam a cadência do seu ciclo de vida próprio.

Tese nº1: A CIC não é um ideal de auto realização tecnológico e digital

Não existe determinismo tecnológico ou auto realização por via tecnológica e digital. Não há um admirável mundo novo colado à cidade digital. Esta é mais um produto tipicamente capitalista e reveste, por isso mesmo, uma natureza meramente instrumental. Quer dizer, há muitas outras cidades inteligentes e criativas para lá da cidade digital.

Tese nº2: A CIC é, porém, um produto compósito gerado pela ciência dos dados

Os dados são a nova matéria-prima da cidade inteligente, por isso, a CIC é, em primeira instância, boa conectividade (uma boa conexão 5G), boa capacidade de cálculo (big data e cloud computing) e boa definição analítica (algoritmos e perfis preditivos). Isto é, na fase inicial do seu ciclo de vida a ciência dos dados afigura-se fundamental para montar o estaleiro da cidade inteligente e desenhar os seus primeiros produtos e serviços.

Tese nº3: A CIC é uma hibridação crescente e complexa de várias inteligências

A CIC é um produto híbrido da inteligência racional, emocional e artificial, mas, também, da inteligência individual e da inteligência coletiva P2P (peer to peer). É essa hibridação que permite a produção de conteúdos muito variados e, também, de várias expressões simbólicas, artísticas e culturais que são outros tantos sinais distintivos territoriais da cidade inteligente e criativa.

Tese nº4: A CIC é um novo modelo de arquitetura para a cidade

Há impactos crescentes sobre as infraestruturas e a arquitetura da cidade. Para lá das funções convencionais como equipamentos materiais, vêm aumentar o número e a natureza das suas funcionalidades por via da realidade aumentada e da realidade virtual. A modelação urbana adquire, por este facto, uma outra polivalência e multifuncionalidade mais imateriais e alarga o perímetro da cidade para lá dos seus limites mais tangíveis em direção a uma cidade mais inteligente e criativa.

Tese nº5: A CIC é uma coprodução em colaboração com a economia das multidões

Uma das novas facetas da CIC é a sua produção inter-pares, isto é, a sua gestação a partir de plataformas colaborativas de iniciativa cidadã ou civil. A economia das multidões ou crowd economy – crowdlearning, crowdsourcing, crowdfunding – já desenvolvida em inúmeras plataformas ditas distribuídas é um instrumento ao dispor da CIC que pode ser muito útil na montagem de uma administração em linha mais eficaz e eficiente.

Tese nº6: A CIC tem uma estética própria inerente à cultura digital

A CIC apresenta uma estética própria inerente à cultura digital, se quisermos, uma cenografia e coreografia de uma cidade mais imaginativa que faz apelo aos talentos criativos para criarem uma linguagem distintiva de cidade inteligente; já não se trata, apenas, de uma cidade de serviços ou utilities mais eficaz e eficiente, mas, também, do acesso privilegiado às artes e cultura por parte de todos os cidadãos.

Tese nº7: A CIC é uma revolução na administração local convencional

A administração local dos municípios-cidade é baseada, ainda, no chamado “modelo silo”, do tipo fileira vertical, centralizada, setorial e corporativa. A informação corre de forma unidirecional e é tratada com toda a discrição no interior do compartimento próprio de cada silo. A transformação digital começa por alterar a relação entre o back office e o front office da administração municipal e progressivamente formam-se duas cidades inteligentes e complementares, a cidade centralizada sob a forma de loja do cidadão e a cidade coproduzida sob a forma de uma rede de plataformas colaborativas.

Tese nº8: A CIC é um continuum de ecologia urbana e ecologia humana

A ecologia urbana não pode ser um mero produto do greening capitalista e a ecologia humana um subproduto da modernização ecológica. A CIC joga um papel importante no esclarecimento desta relação fundamental, sendo certo que há aqui lugar para muitos equívocos e mal-entendidos, como já hoje é fácil de observar no interior, no perímetro e nos anéis periurbanos da cidade modernista. A justiça ambiental e a justiça social são, pois, as duas faces da mesma cidade inteligente e criativa.

Tese nº9: A CIC modifica a geografia do poder e a sua governação política

A CIC modifica radicalmente os limites da cidade e, portanto, a sua geografia do poder e a governação política, por exemplo: a dosagem entre democracia representativa e democracia participativa e colaborativa, a dosagem entre regulação pública, coregulação e autorregulação, a dosagem entre administração discreta e administração aberta no que diz respeito à gestão comum de dados públicos e privados, a dosagem entre mecanismos corporativos de consulta e o crowdsourcing aberto, finalmente, as novas coreografias entre atores públicos e privados no que diz respeito à nova arquitetura digital do poder.

Tese nº10: A CIC é um lugar privilegiado, um cadinho deprodução de humanidade

A CIC é um lugar de encontro privilegiado entre a tecnologia, a ecologia e a humanidade, o nosso drama é encontrar esse ponto de equilíbrio raro e tanto mais quanto nem sempre temos, para tal, engenho e arte quanto baste. Os termos desta equação têm ciclos de duração muito variável e este facto está na origem dos nossos principais problemas. A tecnologia tem ciclos muito curtos de inovação e acelera com frequência deixando muita gente para trás. A ecologia tem ciclos muito mais longos, mas episódios severos cada vez mais frequentes e intensos. A humanidade que até há pouco respirava ao ritmo dos ciclos intergeracionais, sente-se, agora, por demais confusa ao sabor do descompasso da tecnologia e da ecologia. Mas não podemos desistir sob pena de ocorrer uma tragédia dos comuns.

Notas Finais

Em jeito de síntese final, talvez possamos resumir a trajetória provável da cidade inteligente e criativa do século XXI da seguinte forma:

  • Um novo paradigma territorial em redor de grandes metrópoles, redes de cidades inteligentes e criativas e maior integração do sistema natural com o sistema urbano,
  • Ciclos sucessivos de inovação tecnológica e digital cada vez mais curtos,
  • Uma pequena revolução na administração de dados abertos,
  • Novas cadeias de valor e outras tantas formas de apropriação do valor acrescentado,
  • Novos modelos de negócio empresarial,
  • Uma nova organização do mercado de trabalho,
  • Novas relações sociais e outras tantas formas de sociabilidade,
  • Novas linguagens simbólicas e uma outra cultura de relação,
  • Novas formas de articulação e integração entre tecnologia, ecologia e humanidade,
  • Novos modos de regulação e governação políticos.

No final, esperamos todos que esse cadinho de humanidade que é a cidade inteligente e criativa tenha efetivamente ocorrido, de preferência num lugar privilegiado da nossa pessoal circunstância.