Rádio Observador

Futebol

Sobre o futuro próximo de José Mourinho

Autor

No frio e previsivelmente longo Inverno de 2018-2019 a pele de José Mourinho não é boa de se vestir, como se vê por uma parte significativa das suas declarações à imprensa desde que foi despedido.

Partilho com os leitores uma reflexão sobre uma das ansiedades futebolísticas do momento em Portugal, a saber, a especulação (que ainda mal começou) sobre o futuro próximo de José Mourinho como treinador na Europa. Ora vejam lá se a recente declaração deste, «Quando tive Ronaldo do meu lado fui um homem muito feliz», além de hipócrita, não pode soar no mundo da bola a uma neurótica tentativa de empurrar Massimiliano Allegri para o banco do Manchester United ou mesmo para o do Real Madrid no início da próxima época? Embora este tipo de declarações faça frequentemente parte do jogo, esta, em particular, não deixa de ser uma declaração desesperada e, por assim dizer, um mind game com pernas curtas. A Mourinho interessa efectivamente que a Juventus não ganhe a Champions nesta época, para poder vagamente sonhar com o lugar de Allegri na próxima. Esta súbita declaração de amor a Cristiano Ronaldo foi, pois, um manifesto acto falhado da sua parte.

O que nos leva a levantar a questão de saber que clube poderá Mourinho treinar na próxima época. Sim, porque ele não aceitará, em princípio, entrar em sabática, ou pelo menos não é expectável que esteja interessado em alargar o seu gozo para lá do estrito termo desta época. Até porque gozar de sabática durante toda a próxima época pode ser interpretado quer como um sinal de declínio iminente, quer como uma imitação de… Pepe Guardiola quando este decidiu (com a reputação em alta) fazer uma pausa na carreira para ir viver durante uma temporada em Nova Iorque.

Sair imediatamente para a China e para um campeonato que, apesar de novo-rico, é futebolisticamente periférico, seria talvez o suicídio reputacional de Mourinho e significaria muito provavelmente a antecipação da sua tomada de posse (que nenhum português aparentemente lhe recusa…) como seleccionador nacional.

Sair para a Alemanha, mais do que improvável, é virtualmente impossível. Para o Bayern de Munique, xenófobos e racistas como estão ultimamente aqueles bávaros, nem pensar; bastou-lhes a experiência do «moreno» latino Guardiola de cujo modelo de futebol se querem agora purificar. Acresce que nesta fase da sua vida, prestes a completar 56 anos, é pouco provável que Mourinho venha a conseguir falar alemão como… Guardiola falava.

Parece então ponto assente:

1) Na próxima época Mourinho não encontra nenhuma possibilidade de trabalho nos clubes cimeiros da Premier League. O Tottenham, por exemplo, nunca o contratará. Menos ainda o Arsenal. O Liverpool não precisa e está muito bem entregue. Do Chelsea nem falar.

2) Em Espanha existe a possibilidade do Real Madrid, mas a imprensa e um número significativo de sócios e adeptos merengues jamais o permitirão, devendo Florentino Perez ser obrigado a recuar caso venha efectivamente a ter a intenção de o contratar. Poderia ainda pensar-se no Valência, mas aí seria Mourinho a não poder aceitar. De tal modo ele humilhou publicamente um treinador mais velho como Maurizio Pellegrini quando passou por Espanha, a quem Mourinho então diminuiu dizendo que ele, Special One, jamais aceitaria passar de treinador do Real Madrid a treinador do Málaga, que ficou refém da sua imprudente arrogância.

3) Na França só um improbabilíssimo desaire do PSG, muito bem entregue a Thomas Tuchel, permitirá que Mourinho possa remotamente sonhar em entrar sequer nos arredores de Paris. E, entre outras razões, também porque Mourinho é português e porque o último Campeão da Europa de Futebol foi decidido num Portugal vs França no Stade de France em… Paris. Não, Mourinho é uma daquelas pessoas que jamais poderá ser feliz em Paris. E Paris, convenhamos, não precisa de Mourinho para nada.

4) Sobra a Itália. O lugar de Allegri nunca será posto em causa pela administração da Juventus caso este não consiga vencer a Champions esta época. Poderá, eventualmente, conjugar-se a oportunidade de um salário substancialmente mais alto para Allegri em Manchester ou em Madrid caso o treinador italiano não conquiste a Champions na Juventus esta época. Mas também esta hipótese é fortemente improvável. Mas, se a Juventus for campeã da Europa esta época, como o grosso dos adeptos portugueses parece ardentemente desejar precisamente por Cristiano Ronaldo aí jogar, Mourinho já só poderá sonhar com o A.C. Milan (decadentíssimo e irreformável, aparentemente como ele mesmo…) ou com o Inter. Em Milão é improvável que Mourinho possa treinar outro clube que não o Inter. Mas se o Inter não estiver interessado nos seus serviços, como por agora aparenta não estar, o Happy One começa a ficar muito encurralado e a poder ser obrigado a regressar ingloriamente a Portugal (ou a auto-flagelar-se na China por inglória cupidez financeira e vexante frustração profissional). Fica, pois, José Mourinho dependurado de dois ramos altamente quebradiços como são neste momento o Real Madrid e o Inter de Milão, podendo estes desprender-se da árvore precisamente por causa do próprio peso morto que é Mourinho neste momento crítico da sua carreira, quando o mito se transforma em história.

5) Resta a hipótese de Mourinho aceitar um convite para treinador nacional num país europeu. Que neste momento aparenta ser pouco mais do que nula.

Termino: Se Mourinho regressar a Portugal, será previsivelmente para treinar o F. C. Porto e para no Porto tentar relançar a sua carreira. Penso, no entanto, que se Sérgio Conceição conduzir a sua equipa às meias-finais da Champions o actual treinador do F.C. Porto terá fortes probabilidades de sair na próxima época para um “grande” da Europa.

E é nesta fraca e delicada situação que Mourinho actualmente se encontra. Uma parte significativa das suas declarações à imprensa desde que foi despedido do comando do Manchester United, mormente aquelas em que puxa de modo irritado pelo seu invejável currículo, são a este respeito sintomáticas. A confirmar-se este complexo cenário de hipóteses, na próxima época restará a Mourinho poder ser treinador do F. C. Porto ou poder não ser nada! Mas… admitamos a hipótese de que o F. C. Porto venha a ser eliminado nos oitavos-de-final da Champions ou mesmo nos quartos-de-final. Nesse caso, Sérgio Conceição ficará no Porto, de pedra e cal. Aí, nada mais restará a Mourinho senão dizer que sim ao Benfica, caso o Benfica, após uma primeira nega do setubalense, nega prudente porque não definitiva, esteja nesse momento interessado nos seus serviços.

No frio e previsivelmente longo Inverno de 2018-2019 a pele de José Mourinho não é boa de se vestir.

Professor de Ciência Política na Universidade da Beira Interior

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Crónica

Na Caverna da Urgência

António Bento

A principal queixa do homem contemporâneo é a de uma permanente e estrutural sensação de «falta de tempo». Há uma generalização da urgência a todos os domínios da experiência e da existência moderna.

Política

Português, eleitor, conservador

António Bento
167

O eleitor de conservador é apreensivo face ao futuro e prefere a segurança ao perigo. É um inovador relutante e, quando aceita a mudança, é apenas porque a sente como inevitável e inescapável.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)