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Quando Michele Besso morreu em 1955, Albert Einstein terá escrito à sua família algumas palavras de consolo: “Ele partiu deste estranho mundo um pouco antes de mim. Isso nada significa. Pessoas como nós, que acreditam na física, sabem que a distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma obstinada e persistente ilusão”. Trata-se de uma ideia sobre a natureza do tempo que desafia a nossa experiência habitual, embora todos tenhamos sentido, em algum momento das nossas vidas, a diluição das fronteiras temporais. Pensemos, a título de exemplo, naquilo que sentimos quando nos deparamos com um presente que não é o nosso presente (antes o de outro país), mas que se adivinha como sendo o nosso futuro (por influência desse outro país).

É este tipo de experiência que resulta da série A Diretora (The Chair, no original), disponibilizada pela Netflix em agosto deste ano. Com apenas seis curtos episódios, a série permite-nos espreitar pelo buraco da fechadura das universidades norte-americanas e observar as suas dinâmicas e debilidades institucionais. Simultaneamente, deixa-nos aterrados com a possibilidade de se tratar, também, de uma janela aberta sobre o nosso futuro – se considerarmos que, apesar da fragilização atual da hegemonia norte-americana nos domínios económico, militar e cultural, o processo de americanização política na Europa ainda está bem vivo.

O termo “americanização do mundo” foi cunhado pelo reputado jornalista britânico W. T. Stead em 1902, quando publicou The Americanisation of the World, or The Trend of the Twentieth Century. Ainda antes das duas grandes guerras e de tudo aquilo que hoje sabemos, Stead percebeu que o século que se iniciava seria marcado pelo domínio dos Estados Unidos. Esse domínio traduziu-se não só numa importante influência económica, mas, acima de tudo, numa enorme influência cultural, com a adoção de estilos de consumo norte-americanos, a que vinha associada uma determinada manifestação cultural (Hollywood e a indústria musical desempenharam, para esse efeito, um papel fundamental). Como diziam os alemães Rammstein em 2004, we’re all living in Amerika, entre coca-cola, wonderbra e, às vezes, war [guerra].

A par dessa influência económica e cultural, vigorava o projeto político internacional desenhado por Woodrow Wilson quando declarou guerra à Alemanha em 1917 – devemos tornar o mundo seguro para a democracia –, inaugurando o internacionalismo liberal norte-americano que tornaria a democracia liberal o modelo político ambicionado por todos os povos. E embora o fascínio pelos Estados Unidos conviva regularmente com um certo desprezo pelos seus valores, a verdade é que o poder norte-americano determinou uma enorme influência política na Europa. No podcast The Rest is History, os historiadores Tom Holland e Dominic Sandbrook notam como essa influência se alterou no último meio século: se, nos anos 80, a influência norte-americana era sobretudo sentida à direita com o despertar do movimento neoliberal, na última década essa influência passou para o outro lado do espectro político.

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De facto, a americanização política sente-se agora numa nova esquerda, que importou dos Estados Unidos para a Europa muitas das suas questões fraturantes, apesar de todas as diferenças económicas, sociais e culturais. Pensemos nas temáticas das lutas culturais, ou nas reivindicações identitárias que têm sido impostas às dinâmicas políticas europeias, ou nas teorias críticas, do género à raça, que têm invadido as universidades, devidamente acompanhadas por uma cultura do cancelamento que, associada ao movimento do politicamente correto, visa condicionar os temas, as narrativas e a linguagem que podem ocupar o espaço público. E não nos deve escapar a ironia: aqueles que vivem obcecados com a descolonização dos currículos e da sociedade não notam o facto de estarem a americanizar a política europeia?

Como o processo de americanização política se mantém, a emoção provocada pela série A Diretora é a de medo quanto à possibilidade de o futuro nos estar a reservar uma experiência académica “à norte-americana” – caracterizada por obsessões. Em primeiro lugar, a obsessão com a identidade, que determina todas as dimensões da vivência e condiciona a legitimidade das vozes que podem ser ouvidas. Em segundo lugar, a obsessão com a denúncia, que se traduz na aplicação radical e abusiva da lei designada como Title IX e generaliza o espírito de suspeita permanente. Em terceiro lugar, a obsessão com o mundo digital: as novas gerações experienciam o processo de aprendizagem de um modo radicalmente diferente e importam para a lógica académica os mesmos problemas das redes sociais já proficuamente estudados. De facto, jovens que vivem imersos no mundo das dinâmicas de indignação digital ficam mais propensos a descontextualizar acontecimentos e a aderir a polémicas sem sentido.

O tema central da série – a gravação de uma aula em que o professor faz, sarcasticamente, a saudação romana – revela como uma geração sedenta de polémicas se torna incapaz de compreender sensatamente acontecimentos banais, reagindo intempestivamente a memes provocadores. Como Byung-Chul Han nota em No Enxame, trata-se de uma característica do mundo digital que impossibilita a construção de uma sociedade democrática: “A sociedade da indignação é uma sociedade do escândalo. É desprovida de firmeza, de contenção. A rebeldia, a histeria e a obstinação peculiares das ondas de indignação não permitem qualquer comunicação discreta e objetiva, qualquer diálogo, qualquer debate.”

Na verdade, a geração que se considera woke mostra-se incapaz de lidar com uma vida não literal, com fenómenos complexos e com empatia face ao outro. E se o “ser adolescente” é uma criação norte-americana, o que temos como traço do processo de americanização política é a adolescentização da política. O resultado é uma “crazy comedy of errors” em que parece que o mundo inteiro enlouqueceu.

É esta a janela que A Diretora nos abre, confrontando-nos com os desafios de uma instituição secular que, pela sua própria natureza, se baseia numa estrutura hierárquica. Pôr isso em causa significa destruir as bases fundamentais da academia, mas, provavelmente, é isso mesmo que se pretende. No PBX de setembro, Pedro Mexia diz-nos que “para comédia, a série tem pouca graça”. Talvez isso aconteça porque é demasiado real e essa realidade assusta. Para quem vive a vida académica, sentimo-nos, como Ricardo Reis, sofrendo do medo do destino.