A política portuguesa está transformada num espesso nevoeiro que deixa os eleitores perdidos entre a confusão, a ignorância e a suspeição. O fenómeno tem sido de tal forma persistente nos últimos anos que só podemos concluir que não se trata de um acidente ou de um acaso — trata-se de um método, pensado com cuidado e executado com afinco, de reduzir a nossa capacidade de escrutinar quem nos pastoreia. Afinal, se um eleitor não souber o que realmente se passa, ou quem faz o quê, ou quem diz o quê a quem, também não consegue punir quem falha no exercício das suas funções, quem omite e quem mente.

Só em tempos recentes, tivemos três episódios que ilustram esta opção do regime pela opacidade.

O caso do lar de Reguengos, onde morreram 18 pessoas, foi remetido para o habitual buraco negro que junta dois secretismos, o da burocracia e o da justiça. Conhecido o relatório da Ordem dos Médicos onde se elencavam episódios de incompetência, negligência e incúria, instalou-se imediatamente o nevoeiro. Segundo nos contaram, além desse relatório haveria outros três; e esses três teriam informação complementar e, principalmente, contraditória em relação à auditoria da Ordem. Depois, percebeu-se que, desses três supostos relatórios alternativos, dois não mereciam sequer esse nome — um era uma “informação” de uma página e meia; e o outro era uma “comunicação verbal”. Restava então apenas um verdadeiro relatório, ainda por cima “oficial”, da ARS do Alentejo, com informação tão preciosa que foi imediatamente enviado para o Ministério Público e colocado debaixo do pesado manto do “segredo de justiça”. Com esse relatório devidamente enterrado na Procuradoria-Geral da República, ficaram a sobrar algumas perguntas a que ninguém quer responder. Se havia um relatório do Estado que esclarecia o que se passou num lar onde morreram 18 pessoas porque é que ele não foi imediatamente revelado, de forma transparente, por quem o ordenou, por quem o escreveu ou por quem o recebeu? Se ainda por cima esse relatório contradizia um outro que estava a provocar alarme público porque é que a informação foi considerada sigilosa? E como é que esse relatório secreto foi usado para afirmar que os horrores descritos na auditoria da Ordem dos Médicos nunca existiram mas, mesmo assim, foi enviado para o Ministério Público, que não tem como função distribuir louvores a heróis mas punir responsáveis?

Dias depois, novo nevoeiro. Uma declaração em off do primeiro-ministro, em que os médicos que alegadamente se tinham recusado a ir ao lar de Reguengos eram descritos como “cobardes”, vazou para o espaço público, foi objeto de um comunicado de um sindicato, foi partilhada e comentada por um vice-presidente do PSD e foi criticada por líderes de dois partidos parlamentares mas, mesmo assim, foi tratada por alguns como uma não-existência, como um fantasma ou como um incómodo que devia ser guardado numa gaveta funda. Apesar desses esforços de fazer de conta que não acontecera aquilo que claramente acontecera, o caso levou a uma reunião entre o primeiro-ministro e o bastonário da Ordem dos Médicos na residência oficial do líder do Governo. À saída, António Costa e Miguel Guimarães cometeram a proeza de conseguirem falar aos jornalistas, e através dos jornalistas ao país, sem se darem à maçada de esclarecer qual tinha sido o tema da sua longa conversa. Em frente de um microfone, referiram vagamente o esclarecimento de “mal-entendidos” sem que se percebesse quem tinha esclarecido o quê a quem, nem quem tinha entendido mal o quê.

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Finalmente, tivemos o nevoeiro da Festa do Avante. O PCP e a Direção-Geral da Saúde passaram semanas a discutir as regras sanitárias que deviam ser cumpridas pelos comunistas e, no final, trataram-nas como se fossem um segredo de Estado. A DGS jura que definiu regras estritas — mas não as quis revelar. O PCP jura que vai cumprir as regras estritas definidas pela DGS — mas também não as quis revelar. E o Ministério da Saúde, que tem a obrigação política de zelar pela transparência dos organismos que tutela, faz de conta que não tem nada a ver com o assunto. O lamentável resultado é este: os eleitores sabem quais são as regras sanitárias que devem ser cumpridas por oficinas de automóveis, por cabeleireiros ou por oculistas — mas desconhecem as que devem ser cumpridas pela Festa do Avante.

Todas estas manobras de ocultação e de prestidigitação provocam nos eleitores a desagradável sensação de que o secretismo se destina apenas a proteger e a beneficiar quem tem poder. Quando um regime se transforma num nevoeiro, os eleitores tornam-se bibelôs. Talvez seja oportuno lembrar que ninguém gosta de ser um bibelô.