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Recentemente, o Instituto Nacional de Estatística (INE) publicou o crescimento do produto interno bruto de Portugal no 3º trimestre de 2016, em versão rápida, apontando um crescimento de 1,6%. Na sequência, as “gordas” dos jornais não poderiam ser mais festivas: o “melhor crescimento desde há anos”, “o melhor crescimento da Europa” e outros títulos mais ou menos efusivos davam conta do excelente desempenho da economia nacional.

Por razões profissionais, que agora não vêm ao caso, estas coisas para mim não costumam trazer surpresas porque tenho que olhar para outros indicadores com grande dependência deste. E a ideia que tinha estava longe da euforia mediática associada a tal número. Como números é coisa que não memorizo, fui a correr perceber onde é que estava tal singularidade, preocupado com as consequências que isso poderia ter para outros efeitos. A verdade é que, depois de confirmados os valores pelo INE (ver figura abaixo), a coisa está perfeitamente normal. Não que normal não seja, na conjuntura portuguesa, uma excelente notícia em si mesmo. Mas muito longe daquilo que me era transmitido pelos media.

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O episódio levou-me a tomar a coisa como “Spin”, mas a pensar também no outro significado to termo e no modelo de Ising. “Spin”, em linguagem de jornal, é exagerar nos méritos de um evento ou personalidade para efeitos de propaganda. “Spin”, para os físicos, é o momento angular intrínseco de uma partícula. Tome-se o exemplo de um eletrão, este comporta-se perante um campo magnético como se fosse um íman, tomando uma orientação preferencial. Os conceitos, apesar de separados por um mundo, estão neste caso bastante próximos.

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Ernst Ising foi um físico alemão que se dedicou a estudar as propriedades ferromagnéticas dos materiais (porque é que existem imãs). O modelo que criou baseava-se no princípio que cada partícula influenciava as partículas suas vizinhas. Se uma estava orientada de uma dada maneira, isso iria influenciar a orientação das suas vizinhas e vice-versa. A forma como as partículas se influenciariam umas às outras, determinaria o comportamento do material como um todo. Ising não foi particularmente bem-sucedido na explicação do ferromagnetismo, mas o modelo tornou-se um sucesso naquilo que se designa de modelação estocástica de como o comportamento individual em cadeia acaba por influenciar as propriedades gerais de um material ou de uma sociedade.

Lembrei-me disto porque se não tivesse a vantagem de perceber alguns números da economia portuguesa por outros meios, teria consumido as paragonas dos jornais como boas e teria comunicado aos meus amigos tal qual a tinha consumido. Tinha-me orientado pelos meus vizinhos e estava a orientar outros vizinhos na mesma direção. Como no modelo de Ising, no fim toda a sociedade iria aceitar como boa uma informação errada, resultante destas orientações individuais.

Outro exemplo recente passou-se com a “surpresa” pela eleição de D.J. Trump. Aqui, numa situação em que estou distraído, também tomei como boa a informação de que Clinton tinha aquilo no papo. Não tendo um meio alternativo, nem interesse profissional, a informação que me chega da orientação dos meus vizinhos serve perfeitamente para determinar a minha orientação e, consequentemente, influenciar a orientação dos meus vizinhos até que toda a gente ache que Trump nunca iria ganhar. Tal como a notícia da economia nacional, mas agora a uma escala global.

Naturalmente, as pessoas que nos transmitem as notícias não se comportam de forma diferente de nós. Também elas são influenciadas pelos seus vizinhos, aquilo que os outros dizem, e também elas se direcionam de acordo com as direções dos outros. Estas pessoas, porém, têm um número de vizinhos muito grande porque a sua profissão é transmitir notícias e, por isso, o resultado da orientação geral da sociedade depende em muito da forma como estas pessoas se orientam.

Felizmente, as pessoas só são como partículas elementares até um ponto. A capacidade de raciocínio que nos está associada determina o sucesso do modelo de Ising, quando aplicado a temas sociais. Sabendo que, no geral, o modelo reproduz o comportamento coletivo dos seres humanos, o modelo é tão eficaz quanto mais irracionais forem as “partículas” que estiver a modelar. Se estivermos num gás de eletrões, estes orientam-se conforme o campo gerado pelos seus vizinhos e a correlação é quase total. Se estivermos a falar de pessoas, depende em muito da forma como a irracionalidade destas está presente. Por exemplo, comportamentos comuns a outros animais, como os sexuais, são menos racionais e, como tal, a correlação é também muito boa. Mas se estivermos a falar de uma crença, como no caso de “Clinton tem a eleição no papo” ou “o maior crescimento dos últimos anos”, isso depende em grande medida da capacidade que cada um de nós tem em pensar naquilo que lhe é dito, antes de tomar como bom.

Isto para concluir que o Spin, aquele da propaganda, só é bem-sucedido se não soubermos pensar pela nossa cabeça. Pensar com a cabeça dos outros, determinar a nossa orientação pela orientação dos nossos vizinhos, vai resultar numa crença geral numa mentira e isso terá sempre custos a curto prazo, como inúmeros episódios catastróficos da nossa história o mostram. É verdade que os modelos que eu fizer baseados no modelo de Ising terão uma adequação à realidade muito maior, mas seremos todos muito mais pobres. De certeza.

PhD em Física, Co-Fundador e Partner da Closer