A “impunidade intoxica”, escreveu sobre António Costa e o “seu clube de amigos”, Bernardo Ferrão, em 2017, no semanário Expresso. Três anos depois, ainda andamos nisto. Na altura, a indignação deveu-se a um dos amigos do primeiro-ministro ter sido chamado a negociar pelo Estado sem qualquer vínculo contratual. A indignação não foi consequência da escolha de pessoa a ou b mas do modo como esta se operacionalizou. E da leveza com que se passou à prática o que se decidiu, sem crivo nem confronto, com a certeza de que “não há mal nenhum”: quero, posso, mando. Três anos depois…

A impunidade, associada ao poder, é a combinação perfeita para potenciar a inflação do ego mais uma vez sem crivo nem confronto na hora de decidir. Depois da indignação pública, ouvir António Costa justificar a atitude de integrar a comissão de honra da candidatura de Luís Filipe Vieira como uma escolha sua enquanto cidadão e não de primeiro-ministro, vem na sequência de “não há mal nenhum”. Mas há.

Em cargos públicos não é possível detonar a ponte entre a função e o comportamento individual. Até porque o cidadão Costa ocupa de livre vontade um dos lugares mais visíveis da nação, é a terceira figura do Estado. No dia em que assumiu o cargo comprometeu-se com a função, e implicitamente, com os princípios éticos exigidos pelo cargo. Comprometeu-se a escolher o bem comum. Ainda que desacreditemos desses compromissos implícitos, há o bom senso que se espera de um adulto. Não houve.

Esta recorrente ausência de bom senso foi amplamente manifestada na Auto-Europa, quando apresentou Marcelo Rebelo de Sousa como presidente futuro antes da recandidatura ser anunciada pelo próprio. E reforçada agora quando deixa cair a candidatura de Ana Gomes no silêncio socialista – porque Ana Gomes é crivo e confronto? A maturidade democrática exige diferenciação. É o oposto da aglutinação de espelhos onde nos reflectimos e multiplicamos.

Entre a classe política e os restantes cidadãos há uma clivagem que se acentua. Acomodámo-nos ao são todos iguais, a um do mal o menos, a um rouba mas faz, e a uma série de outros clichés que usamos para dividir o mundo entre nós e eles. Estas expectativas que progressivamente rebaixamos, e nos deflaccionam em valor e poder, não serão facilitadoras desse modo de fazer política?

Sabemos como vemos a classe política. Ou a sua caricatura. E nós, como somos vistos? Passivos? Tolerantes? Submissos? Os tolos, os sem fé na carruagem do comboio do poema de Walt Whitman, ou os que com ele dizem: “Para ti tudo isto da minha parte, ó democracia, para te servir ma femme! Para ti, para ti, eu entoo estas canções.”