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Sou daqueles que torcem sempre para que os portugueses ganhem, seja no que for, seja onde for. Sofro pela selecção (em qualquer modalidade), por todos os clubes de futebol lusos, pelos atletas olímpicos, pelos pilotos de motas, pelos cientistas, pelos escritores, pelos artistas da Eurovisão e por aí adiante.

Fico genuinamente feliz quando um Português é reconhecido internacionalmente – chamem-me provinciano, mas é assim que sou e pronto. Nada a fazer.

Quando se colocou a hipótese de Mário Centeno ser Presidente do Eurogrupo, confesso que não me pareceu possível concretizar-se. Não pela pessoa em questão ou pelo seu currículo e nem sequer pelas suas posições liberais enquanto estudante de doutoramento e membro do staff do Banco de Portugal. Mas, antes, porque pertencia a um Governo sustentado pela esquerda radical num país pequeno e periférico a sair de um processo de regate. Estava enganado e ainda bem.

Sou dos que acham que a eleição de Mário Centeno é boa para o nosso país. Aliás, e dado que não lhe detecto traços de dupla personalidade, a simples leitura do programa que vai ter de cumprir e defender para o primeiro semestre de 2018 (que já está definido e consultável aqui) seria já motivo suficiente de satisfação. Vejamos então em síntese as linhas gerais do que Centeno vai implementar em toda a Europa:

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  • Defender o crescimento económico sustentável;
  • Criar emprego e dar resiliência à economia;
  • Garantir em todos os países esforços para assegurar políticas fiscais estáveis;
  • Monitorar atentamente os países com procedimentos por défice excessivo e em processo de saída dessa situação – Grécia, Chipre, Irlanda, Espanha e, claro, Portugal;
  • Garantir que os países só saem de uma situação de vigilância em condições de pagarem as suas dívidas;
  • Garantir a estabilidade financeira e defender a união bancária;
  • Aprofundar a União Económica e Monetária, especialmente nos Países do Euro.

Mário Centeno vai certamente pedir a todos os Países medidas para estimular o crescimento económico (de que não há sequer vestígios no nosso Orçamento de Estado), vai exigir contenção na despesa pública (idem) e vai assumir-se como paladino do Euro, garante inamovível da união bancária e primeiro defensor da estabilidade fiscal. Por outras palavras – vai agora transformar-se em inimigo público número 1 do Bloco e do PCP.

Por tudo isso, não me importo nem me assusto com a acumulação de funções. É aliás uma acumulação virtuosa, pois não vai ser possível ser lobo à segunda em Bruxelas e cordeiro à quarta em Lisboa. Não, Centeno não poderá ser um Dr. Jekyll para as empresas europeias e um Mr. Hyde para as portuguesas.

E eis que, afinal, o diabo sempre chegou e veio de mansinho e de forma inesperada. Com Centeno a presidir ao Eurogrupo, é ele o diabo para a dupla Catarina/Jerónimo e vai ser o diabo explicar a mortáguas e galambas as medidas que vão ter de engolir. E a verdade é que também Catarina e Jerónimo – que são frontalmente contra o Euro, a União Europeia, a união bancária e as políticas de contenção do défice – estão agora forçados a apoiar as políticas que sempre execraram e vão declarar esse apoio sempre que Centeno se sentar no Parlamento Português. Acredito, aliás, que, se venderem bilhetes para as galerias da Assembleia nos dias certos, irão ter casa cheia.

Parabéns, pois, Mário Centeno! Desejo sinceramente que fique Presidente do Eurogrupo um bom par de anos e que cumpra com denodo, empenho, entusiasmo, rigor e sucesso as missões que tão exuberantemente aceitou. Parabéns também a António Costa, que tanto se empenhou nesta eleição! Dispõe finalmente de um programa económico sério para cumprir.

Ao Ronaldo das finanças não desejo nada menos do que uma bola de ouro pelos sucessos alcançados. Faço votos que todos os seus apoiantes desejem o mesmo.