O que poderia ser o conteúdo de um conto tradicional de um qualquer povo xamanista que habita a Sibéria transforma-se num caso de polícia e de política não graças ao sacerdote, mas a Vladimir Putin que parece já recear os poderes do além ou à sua corte que tenta adivinhar os desejos do czar.

Alexandre Gabychev é um sacerdote xamanista da Iakútia, no Nordeste da Rússia, que decidiu ir a Moscovo a pé e, com a ajuda dos seus “poderes sobrenaturais”, “expulsar o mal do Kremlin”. O “mal”, neste caso Vladimir Putin, deve ter ficado com medo dos poderes sobrenaturais do xamã, pois foi utilizado um forte dispositivo policial para travar a marcha. O escritor Victor Iegorov, um dos que acompanhavam o sacerdote, descreveu assim a sua detenção: “A estrada foi cortada pelos serviços de segurança. Havia várias dezenas de pessoas, em numerosos automóveis. Elas rapidamente cercaram o acampamento e dirigiram-se para a tenda do xamã. Atiraram-no para o chão, arrastaram-no e meteram-no num carro. Todas estavam armadas com pistolas automáticas e cassetetes. Tudo foi feito em silêncio!”.

Aexandre Gabychev foi levado para parte incerta “ na direcção de Ulan-Udé, capital da Buriátia”, república da Federação da Rússia onde se situa parte significativa do Lago Baical. Segundo os seus apoiantes, ele pode ser acusado de “organização de uma comunidade extremista”, o que pode implicar uma pesada pena de prisão. Dois dos seus seguidores foram detidos, o que provocou manifestações de protesto em Ulan-Udé não só contra a sua prisão, mas também contra os resultados falsificados das eleições locais.

“Penso que temos todos de travar um pouco”, escreveu no Facebook Aleksei Tsydenov, governador da Buriáta, sem explicar o sentido das suas palavras.

Realmente as autoridades russas parecem ter perdido os travões no que respeita ao aumento da repressão e perseguição política. Alguns dos detidos durante as manifestações da oposição extra-parlamentar russa em Moscovo, foram condenados a penas tão pesadas que isso provocou novas ondas de protesto. No caso do actor Pavel Ustinov, ele foi condenado a cinco anos e meio de prisão por ter “deslocado o ombro a um polícia”. A juiz que ditou a sentença não se deu ao trabalho de ver um vídeo que mostra que o actor não só não podia deslocar o ombro ao agente, como foi espancado no momento da detenção. Além disso, ele nem sequer participava nos protestos, mas esperava um amigo à entrada do metropolitano. Após protestos de artistas e advogados russos, a Procuradoria Geral pediu a revisão da sentença no sentido de não condenar o actor a pena de prisão efectiva.

Esta manifestação de autoritarismo foi também condenada por quatro dezenas de sacerdotes ortodoxos russos, facto inédito na história da Rússia. “Os julgamentos não devem ter carácter repressivo, os juízes não podem ser utilizados como meio de pressão sobre os discordantes, o emprego da força não deve realizar-se de forma injustificadamente cruel”, lê-se num abaixo assinado por padres e diáconos.

Claro que este apelo não recebeu a “bênção” do Patriarcado de Moscovo da Igreja Ortodoxa Russa, mas é um sinal de que nem todo o clero russo está disposto a aceitar que a sua Igreja seja um dos pilares do regime autoritário de Putin.

Pode-se continuar a lista de perseguições na Rússia. Apenas mais um, Iakov Silin, reitor da Universidade Económica Estatal dos Urais, decidiu expulsar dessa escola um estudante por deixar comentários numa página de organizações ligadas a organizações LGBT, alegando que no país é proibida a “propaganda homossexual”.

P.S. Tento acompanhar a campanha eleitoral em Portugal e não fico optimista. Não porque os problemas europeus e internacionais estejam ausentes dos debates políticos, mas porque se leva a sério ideias políticas que já demonstraram a sua “eficácia”. O Bloco de Esquerda parece viver no “Verão quente” no que respeita às nacionalizações e o reitor da Universidade de Coimbra parece não ter preocupações maiores do que o consumo de carne de vaca nas cantinas estudantis. Apenas dois exemplos de extremismo ideológico. Por este andar…