Igreja Católica

Surpresa e choque: a Igreja prega sobre sexo

Autor
  • Miguel Pinheiro
440

Se o facto de um cardeal pregar sobre sexo é algo tão terrível, tão castrador e tão absurdo, então porque é que todas as grandes religiões - todas - o fazem? Porque será?

Se não se importam, começo este texto com a tradicional e obrigatória declaração de interesses espiritual: infelizmente, não sou crente; de resto, tanto quanto me lembro, nunca fui crente. Quer isto dizer que a minha vida não se alteraria um milímetro se D. Manuel Clemente decretasse que os católicos tinham de adoptar o veganismo, que ficavam obrigados a rezar o terço enquanto contemplavam o último artigo sobre “economia” do dr. Louçã, ou que eram forçados a acordar todas as manhãs ao som de Tony Carreira.

De qualquer forma, mesmo com esse distanciamento em relação à Igreja, fiquei perplexo com o excitado alvoroço provocado pela nota do cardeal patriarca sobre a vida sexual dos recasados. As perguntas dos indignados foram todas variações de uma mesma formulação: porque é que a Igreja se quer meter num tema tão importante para as pessoas como o sexo?

A questão, obviamente, está de pernas para o ar: a Igreja não se mete nesse tema apesar de ele ser importante — mete-se nesse tema precisamente porque ele é importante. Nos temas irrelevantes, a Igreja não tem por que se preocupar e os crentes não têm por que hesitar.

Além de estar de pernas para o ar, a pergunta está equivocada nos seus fundamentos. Parte do princípio de que os católicos aspiram ao individualismo religioso e rejeitam qualquer intromissão de um pretenso pastor na sua vida alegremente atomizada. Mas, na realidade, um católico que pretende viver a sua vida na Igreja (repito: na Igreja) procura uma orientação que, pela sua própria natureza, terá que ser colectiva e — terrível palavra para os não crentes, como eu — superior.

E isto não se passa apenas na Igreja Católica. Os críticos de D. Manuel Clemente deviam atentar no seguinte: se o facto de um cardeal pregar sobre sexo é algo tão terrível, tão castrador e tão absurdo, então porque é que todas as grandes religiões — todas — o fazem? E porque é que o fazem, esmagadoramente, de forma restritiva? Porque será?

Não pretendo explicar dois mil anos de História em dez linhas (até porque já houve quem o fizesse aqui no Observador), mas talvez não seja ocioso lembrar que a religião é, entre outras coisas, uma permanente tentativa de superação do corpo pelo espírito. Porque, como sabemos, o primeiro desaparece, mas o segundo, para os crentes, não. E, para que essa superação seja possível, é preciso que o ser humano seja capaz de se libertar dos desejos e dos instintos.

E não se trata apenas de “continência” no sexo. As grandes religiões também recomendam, a espaços, o jejum como forma de purificação e demonstração de fé. E no caso da Igreja Católica há ainda, por exemplo, a abstenção de comer carne na Quaresma e na Quarta-feira de Cinzas. Isto não é feito porque se gosta de sofrer, mas porque se pretende atingir um estado onde o sofrimento não existe.

Tudo isto é impopular? Talvez. Mas há um facto subtil que escapa a muitos críticos: a Igreja não é um partido político. Não procura mais votos, mais mandatos, mais poder. Procura e aspira à verdade, chegue ela a 10 milhões de fiéis, a 10 mil ou a 10. Isso não significa que a Igreja deva ignorar o mundo onde vive, como é evidente. Mas significa, seguramente, que não se deve intimidar com as indignações recorrentes dos tempos modernos. Até porque essas indignações são potencialmente intermináveis. Por estes dias, a pergunta que é feita à Igreja é: “Porque é que se mete no sexo?”. Mas, depois desta, poderiam vir outras:

1) Com que legitimidade é que a Igreja quebra a separação de poderes e se mete na aplicação do Código Penal, com o 5.º mandamento (“Não matarás”)?

2) A que propósito é que a Igreja se imiscui no conflito laboral da Autoeuropa, com o versículo 10 do capítulo 20 do livro do Êxodo (“Mas o sétimo dia é o sábado consagrado ao Senhor, teu Deus. Não farás trabalho algum, tu, o teu filho e a tua filha, o teu servo e a tua serva, os teus animais, o estrangeiro que está dentro das tuas portas”)?

3) Porque é que a Igreja dá opinião sobre a melhor forma de distribuição da propriedade, com o 7.º mandamento (“Não roubarás”)?

4) Quem é que a Igreja se julga para tentar regular as reuniões de condomínio, com o versículo 20 do capítulo 5 do livro do Deuteronómio (“Não prestarás falso testemunho contra o teu vizinho”)?

5) Com que autoridade é que a Igreja se envolve na forma como os adeptos de futebol se dirigem aos árbitros, com o 4.º mandamento (“Honrar pai e mãe”)?

Tudo perguntas legítimas, tudo questões mobilizadoras. Alguém, por favor, obrigue imediatamente o cardeal patriarca a explicar-se sobre estes assuntos.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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